08/03/2018 00:05 -03 | Atualizado 08/03/2018 11:08 -03

Ser mulher é um ato político. Escrever sobre elas, também

Todo dia, toda hora, o tempo todo é tempo de ressignificar o que é ser mulher das mais variadas formas.

Em 2015, quando fiz uma entrevista com Elza Soares, perguntei a ela se era "mais fácil" ser mulher nos dias de hoje. E ela me respondeu com espanto: "ué, você não está aí, trabalhando como jornalista?". De fato. No passado, uma mulher cantora ou uma mulher jornalista não era a regra, mas a exceção.

Na conversa com Elza, eu respondi à pergunta dela com um "sim" emocionado; tomei a liberdade de dizer a ela que o meu lugar como jornalista e o de tantas outras só foi conquistado porque mulheres como ela mostraram que é possível e que, acima de tudo, era incrível poder contar um pouco da história dela que, quase com 80 anos à época, lançava um novo álbum.

Reprodução/HuffPost

Penso que é dessa substância invisível e transformadora que o jornalismo também é feito. Além de informar, investigar, elaborar reportagens que pressionem governantes e provoquem a opinião pública, certamente, contar histórias que vão além do que a lógica milenar (e patriarcal) impôs é fundamental para construir uma sociedade igualitária.

Com 17 edições ao redor do mundo, desde sua criação, em 2005, HuffPost é um dos veículos que tem como premissa priorizar pautas sobre o universo feminino que se distancia da cobertura tradicional feita por outros veículos jornalísticos. Sai o lugar comum, entra a desconstrução dos estereótipos e a luta por direitos. Desde 2014 no Brasil, o site reflete em sua cobertura jornalística a linha editoral de combate às desigualdades.

Há 4 anos, o HuffPost Brasil foi o primeiro site no País a noticiar a movimentação das mulheres no protesto "Eu não mereço ser estuprada", que tomou as redes sociais em resposta a uma pesquisa do Ipea que revelou que 26% dos brasileiros concordam que uma mulher que usa roupas curtas merece ser atacada.

Em 2015, com a aprovação da Lei do Feminicídio, explicamos por que ela é tão necessária no Brasil, também acompanhamos os principais protestos que tomaram o País contra a chamada PL do Aborto e cobrimos in loco as manifestações que aconteceram em São Paulo. Sem deixar de mostrar às leitoras o debate gigantesco que as hashtags #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto trouxeram.

A urgência do jornalismo neste sentido se faz ainda mais presente quando o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, no Rio de Janeiro, é divulgado nas redes sociais pelos criminosos e chocam o País. E quando a Lei Maria da Penha completa 10 anos, se consagrando como uma referência no combate à violência contra a mulher, inclusive, fora do Brasil. Entrevistamos Maria da Penha e fomos até o lugar onde a lei ainda não chegou no Brasil.

Reprodução/HuffPost Brasil

Em 2017, uma nova fase. Acompanhamos desde o início a movimentação da PEC 181, popularmente conhecida como "PEC Cavalo de Troia" no Congresso. O relatório do deputado Tadeu Mudalen (DEM-SP) foi antecipado por nós em agosto. Já em novembro, noticiamos primeiro o resultado da votação na comissão, uma vez que, em meio à crise política, temas ligados às mulheres não são prioridade para outros veículos de comunicação. Na ocasião, 18 homens deram o primeiro passo para criminalizar o aborto até em caso de estupro no Brasil.

Fomos o único veículo brasileiro a entrevistar a atriz Laverne Cox, que além de ser uma das protagonistas da série Orange Is The New Black, da Netflix, é uma ativista fervorosa pelos direitos das mulheres trans nos Estados Unidos. Quando a escritora, professora e ex-pantera negra Angela Davis veio ao Brasil pela 4ª vez, estávamos lá. Quando o debate sobre gênero e a vinda de Judith Butler ao Brasil se transformaram em uma "caça às bruxas", a filósofa me disse, em entrevista, que "as pessoas encontram conforto no conservadorismo".

Acompanhamos a luta de Rebeca Mendes pelo direito ao aborto legal no Brasil. Este foi o primeiro caso de pedido judicial de aborto por vontade da mulher até a 12ª semana no Brasil e o primeiro na América Latina com um caso concreto. Rebeca teve seu pedido negado e conseguiu interromper a gravidez na Colômbia. "Porque eu não sou uma, nós somos muitas. E elas existem. E o Estado precisa ver que essas mulheres necessitam de amparo", disse, em entrevista para o HuffPost.

Ainda em 2017, o ano em que o Ministério da Saúde decretou o fim do estado de emergência para o zika vírus no País, fomos até o sertão alagoano contar a história de uma geração de crianças e mulheres abandonados pelo Estado. Entre elas, Patrícia Santos Silva, de 24 anos, mãe de Gabriel Santos Silva, de 2 anos, que nasceu com síndrome congênita do zika. Ela é moradora de Santana do Ipanema, na área rural de Alagoas. Entre os cuidados com a casa e com os outros 5 filhos, Silva luta para tentar dar um tratamento adequado a Gabriel.

E é dando continuidade a essa cobertura que, em 2018, exatamente no Dia Internacional da Mulher, o HuffPost lança um novo projeto: Todo Dia Delas. Durante 365 dias do ano, serão contadas histórias de 365 mulheres de Norte a Sul do Brasil. Os 365 conteúdos serão distribuídos pela Elemídia, em milhares de monitores espalhados por 6 capitais brasileiras, e em todas as redes sociais do HuffPost Brasil e da C&A, patrocinadora do projeto.

Elas são mulheres que quebram a lógica de um mundo machista e que trazem à tona o que realmente é ser mulher. Elas são protagonistas da sua própria história que, em diversas áreas, transformam a sua realidade e, por que não, a de outras mulheres.

Porque, sim, todo dia, toda hora, o tempo todo é tempo de ressignificar o que é ser mulher das mais variadas formas.

Ser mulher é um ato político. Escrever sobre elas, também.