OPINIÃO
12/11/2015 23:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Não! Ninguém vai conseguir calar a 'Primavera das Mulheres'

A 'Primavera das Mulheres' chegou e será impossível impedir o crescimento de sua força e voz

Estadão Conteúdo

Hoje, elas foram 9 mil nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Que, juntas, querem representar o direito e a voz de todas as mulheres brasileiras. Em São Paulo, uma onda de jovens aguerridas e empoderadas, que não aceitam ter suas liberdades tolhidas, seus direitos sexuais e reprodutivos reduzidos a pó gritavam, em uníssono "Fora Cunha!", ainda na concentração da manifestação marcada para ás 17h no vão livre do MASP, na Avenida Paulista.

O direito legal ao aborto por estupro e risco de morte é, sim, garantido em nosso País desde a década de 40. Mas Eduardo Cunha e a bancada que o acompanha no Congresso parecem ignorar por completo esta informação ao dar destaque e conseguir que a CCJ aprove a chamada 'PL do Aborto', que caminha para 'legalizar' a criminalização de muitos atendimentos previstos em lei à mulher que sofre violência sexual. O que é absurdo e um completo retrocesso.

"As mulheres querem gritar. Querem gritar pela liberdade que é tolhida em razão da cultura machista que a gente tem. Eu, com uma filha pequena, tenho obrigação de estar aqui e fazer o possível para que ela, e outras mulheres, consigam viver suas liberdades de uma forma plena. Quero que ela saiba que ela pode ser princesa, pode ser cientista".

A fala acima é da advogada Juliana Vieira dos Santos, de 38 anos, que levou a filha Nina, de apenas um ano para a Avenida Paulista nesta quinta-feira (12). Assim como ela, Lívia Maria Medin, de 31 anos, também fez questão de levar a filha Lara, da mesma idade de Nina.

"Eu quero que não só a minha filha possa ter opção, mas sim, todas as mulheres. É um 'direito' [ao aborto] que já é extremamente restrito, ainda não é permitido em sua totalidade. Eu quero garantir que isso não seja tirado das mulheres, e que outros que já conquistamos permaneçam".

Enquanto conversava com estas e outras mães que escolheram levar suas filhas para a manifestação -- e imaginar uma nova geração de mulheres que provavelmente vai crescer ouvindo a palavra "feminismo" dentro de casa, a aglomeração de pessoas aumentava gradativamente, e gritos como "Ô, Cunha, seu machista, meu corpo não é sua conta na Suíça", eram entoados com força.

Com rostos e corpos pintados, elas carregavam faixas e algumas manifestantes distribuíam panfletos com as músicas e gritos que seriam cantadas durante a caminhada. A intenção, desta vez, não era ir até a Catedral da Sé, mas sim, descer a Rua da Consolação, passar pelo Teatro Municipal e terminar no Largo do Paissandu, no Centro.

Enquanto a movimentação começava, a integrante do coletivo Frente contra o Assédio -- um dos 40 que organiza as manifestações -- , a estudante Luíze dos Santos Tavares, de 19 anos, conversava com um policial, para chegar a um acordo de como seria a participação da polícia durante a manifestação.

"A PL vai contra um direito básico que a mulher que já tem, e que nem sempre é garantia que se cumpra. Isso é um retrocesso. Hoje a gente quer mostrar o protagonismo das mulheres para as mulheres. Nós temos força", disse.

Luize explicou que, inicialmente, o combinado com a polícia era que não haveria o chamado "cordão humano" de PMs cercando a passeata. Isso, para manter as mulheres sem opressão. Mas, ao final, o acordo foi quebrado pelos policiais o que deixou algumas das organizadoras em constante negociação e alerta para manter a ordem.

A mesma PM que quebrou o acordo com os coletivos divulgou que apenas 350 pessoas participaram do ato. Já a organização oficial do movimento falou em 5 mil manifestantes. Isso só em São Paulo. Na mesma noite, estima-se que 4 mil mulheres foram às ruas no Rio de Janeiro.

Nunca se falou tanto sobre estupro, nunca se falou tanto sobre assédio, sobre violência contra a mulher; nunca se falou tanto sobre feminismo -- e sua importância. Nunca o machismo, que foi tão enraizado em esfera privada, foi trazido para as ruas, com vozes ecoando não por uma, mas por milhares de mulheres.

Hoje, em São Paulo, não foi só contra Eduardo Cunha. Foi também pelas mulheres e vítimas de Mariana e pelos estudantes que ocupam a escola E.E Fernão Dias, em Pinheiros. Por volta das 20h, a manifestação se dividiu. Segundo a PM, cerca de 200 mulheres foram demonstrar apoio ao movimento dos alunos em gritos de "contra a reintegração, vamos para a Fernão".

Queimamos os sutiãs no passado, mas ainda ficamos escondidas, em silêncio por anos. Ainda temos muito o que caminhar? Sim. Mas hoje, talvez mulheres como Juliana e Lívia consigam garantir que Ninas e Laras não sejam mais tolhidas de fazer suas escolhas simplesmente por ser mulher.

A Primavera das Mulheres chegou e será impossível impedir o crescimento de sua força e voz.

A luta começou. E elas não vão recuar tão cedo.

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