OPINIÃO
11/01/2018 16:35 -02 | Atualizado 11/01/2018 23:59 -02

De Leão a Deneuve: A normalização da violência sob o argumento do 'puritanismo sexual'

Escritora brasileira afirmou que 'mulheres deveriam ser assediadas'. Na França, Deneuve classificou denúncias como 'puritanismo sexual'.

Stephane Mahe / Reuters
A atriz Catherine Deneuve no tapete vermelho da 70ª edição do Festival de Cannes, em 2017.

Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, ao escrever sobre a condição feminina, afirma que "o laço que une as mulheres a seus opressores não é comparável a nenhum outro". E, para fazer tal afirmação, lembra que dentre outros grupos sociais, "as mulheres não dizem 'nós'" e conclui que a mulher é sempre o "outro", inclusive para si mesma. Ela afirma:

A mulher não se reivindica como sujeito porque não possui os meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele e, porque, muitas vezes se compraz no seu papel de Outro.

Talvez tenha sido a ainda existente cumplicidade com o algoz e o reforço inconsciente do papel de "outro" que fizeram com que as cem mulheres francesas, entre elas artistas, intelectuais e acadêmicas, incluindo nomes como Catherine Deneuve e Ingrid Caven, publicassem no jornal Le Monde um manifesto "pelo direito dos homens de importunar". Para elas, a liberdade de incomodar é fundamental para a liberdade sexual.

Elas afirmam que "o movimento #metoo resultou na imprensa e nas redes sociais em uma campanha de denúncias públicas e impeachment de indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível que infratores sexuais".

E que, como mulheres, não se reconhecem neste feminismo que, "além da denúncia de abusos de poder, prega o ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar".

No dia seguinte, cerca de trinta feministas e ativistas francesas responderam duramente ao manifesto. Assinado pelas ativistas Marie-Noëlle Bas, Jiulia Foïs e Caroline de Haas o texto foi publicado no site da emissora de rádio France Info. As ativistas lamentam que as artistas "usem de novo sua visibilidade midiática para banalizar a violência sexual" e as acusam de "menosprezar de fato os milhões de mulheres que sofrem ou sofreram esse tipo de violência".

No Brasil, o argumento ganhou mais um capítulo com a declaração da escritora Danuza Leão em texto para o jornal O Globo. Ela afirma que a cerimônia do Globo de Ouro, dias antes, pareceu um "grande funeral", com todas as mulheres vestidas de preto, e que "toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz". No mesmo jornal, outras feministas escreveram textos com opiniões contrárias às de Danuza. "Lutar pelo fim do silêncio feminino não tem nada a ver com ter ódio dos homens ou ser contra a liberdade sexual", escreveu a antropóloga Mirian Goldenberg.

Na cerimônia do Globo de Ouro, Oprah Winfrey ganhou o noticiário internacional e as redes sociais com seu discurso ao receber o prêmio Cecil B. DeMille. Ela falou sobre cinema, liberdade de imprensa e honrou a luta das mulheres. "Esta noite quero expressar minha gratidão a todas as mulheres que aguentaram anos de abuso e assédio, porque – como minha mãe – elas tinham crianças para alimentar, contas a pagar e sonhos a buscar", disse. "Quero que todas as garotas assistindo, aqui e agora, saibam que um novo dia está no horizonte", completou.

Na mesma noite, o movimento Time's Up, apoiado por mais de 300 atrizes norte-americanas, conseguiu tingir de preto a cerimônia do Globo de Ouro, em protesto contra as agressões sexuais no mundo do entretenimento. Algumas atrizes, inclusive, levaram ativistas para o tapete vermelho. Entre elas, Ai-jen Poo, diretora da National Domestic Workers Alliance, que trabalha para garantir os direitos de domésticas nos Estados Unidos; Tarana Burke, feminista e ativista que iniciou o movimento #MeToo nas redes sociais e Rosa Clemente, jornalista, ativista e fundadora da Know Thy Self Productions, que promove a cultura negra e hip-hop.

Mas essas mulheres não usaram apenas roupas pretas. Elas se vestiram de argumentos contra a violência de gênero, que oprime e mata mulheres no mundo todo. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que 35% das mulheres em todo o mundo já tenham sofrido qualquer violência física ou sexual praticada por parceiro íntimo ou violência sexual por um não-parceiro durante sua vida.

Ignorando dados, vivências e histórias, as francesas que escreveram pela "liberdade dos homens de importunar as mulheres" e as que disseram que "toda mulher deveria ser assediada para ser feliz", deixam de lado o ponto de vista feminino para naturalizar beijos forçados, apalpadas sem consentimento, humilhações e objetificações diárias para dar lugar ao algoz, se lançando à subordinação explícita, ao lugar do "outro", como Beauvoir apontou.

Afirmar que o feminismo e denúncias de assédio impedem que a "liberdade sexual" aconteça ou que "toda mulher deveria ser assediada para ser feliz" é deslegitimar um esforço diário para que todas as mulheres do mundo saibam que não são objetos, não existem em função de um homem e que não precisam ficar em silêncio diante de uma violência. Afinal, estamos falando da liberdade sexual de quem, quando gritamos que "não é não"? É sobre expor um comportamento predatório. Não sobre questionar mulheres.

Ao longo da História, não só no mundo do entretenimento, as práticas machistas e violentas andam na contramão da liberdade sexual. Elas humilham, roubam e subjugam oportunidades de mulheres que querem ser reconhecidas pelo seu talento e desempenho profissional. Elas roubam o simples ato de andar na rua sem se sentir um objeto e dão lugar ao medo. Todas as oportunidades são, sutilmente, retiradas de campo para dar lugar à dominação masculina. Não pode ser natural um sistema de relacionamento que subjuga e lembra que o lugar da mulher é sempre alheio e inexistente. O outro.

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