OPINIÃO
14/12/2016 17:13 -02 | Atualizado 14/12/2016 17:13 -02

A lição do discurso de Paola Carosella e a vitória de Dayse no 'MasterChef'

Edgar Maciel/HuffPost Brasil

A presença dela foi negligenciada em provas, assim como sua capacidade de ser uma boa cozinheira. Ela foi considerada a competidora "menos perigosa" e foi indicada, inclusive, para "varrer o chão", ao invés de cozinhar.

Em um contexto machista e de falta de profissionalismo por parte dos competidores, a chef paulista, Dayse Paparoto, de 31 anos, foi escolhida pelo público e pelos jurados como a grande a vencedora da primeira versão do 'Masterchef Profissionais' do Brasil.

Henrique Fogaça e Eric Jacquin passaram por cima das críticas e disseram que não houve machismo no programa. Já Paola Carosella, ao iniciar seu discurso da noite, disse que a vitória de Dayse era uma prova de que mulheres resistem em um espaço majoritariamente masculino:

"Assim como eu e a Ana, você escolheu entrar em uma profissão dominada pelos homens. Às vezes a gente tem que ouvir umas idiotices que... vou te falar. Mas você não está aí por ser mulher, mas por ter um talento incrível. Nós, jurados, não vemos gênero, religião, se é fofinho, carismático... Nós vemos pessoas, e nosso trabalho é julgar pratos que nos surpreendam"

Paola também fez questão de enfatizar que Dayse ganhou pelo seu talento: "esse é um programa de comida, de sabores", disse.

Assista a um trecho do discurso:

Ana Paula Padrão não ficou de fora da discussão e elogiou a "coragem de Dayse" por ser mulher "em um ambiente supermachista".

Para Jacquin, dentro da cozinha homem e mulher deixam "seus gêneros no lado de fora". "O que importa é como vai ser a comida, como vai ser o prato e se o cliente sai satisfeito", afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil. "A chef Paola, por exemplo, ela não é homem e nem mulher. Ela é cozinheira. E ponto", argumentou.

De certa forma ele tem razão. Deveria ser assim. Não deveria haver diferenciação por ser mulher em nenhum espaço na sociedade, inclusive na cozinha de um restaurante.

Mas fica difícil não perceber que, quando o ato de cozinhar deixa de ser um trabalho doméstico e destinado exclusivamente às mulheres, para se tornar uma profissão valorizada, elas, mais uma vez, são retiradas desse espaço.

Não por acaso os homens que competiam com a Dayse se sentiam confortáveis dentro de uma espécie de permissão social para mandar a Dayse varrer a cozinha - e não cozinhar. Afinal, este espaço não é dela, simbolicamente.

Você pode ver algumas das cenas em que Dayse sofreu com machismo na cozinha aqui:

Segundo reportagem do Estadão, uma das situações mais inusitadas da grande final de ontem (que não foi exibida ao grande público), além da insatisfação dos ex-participantes, foi protagonizada pela família de Marcelo.

A irmã dele, insatisfeita com o resultado, teria xingado os jurados pelas costas, enquanto desabafava com a mãe.

"Esses jurados são ridículos. Onde já se viu dar nota 2 para ele? Eu avisei o Marcelo que eles iriam escolher a coitadinha. Dito e feito. Vai se f***. É incoerente. Não sabem votar. Por isso o Brasil está essa m***"

Segundo o UOL, a mãe de Marcelo achou o resultado "ridículo" e disse que seu filho foi prejudicado.

"Uma palhaçada. 'Guerra dos Sexos' é o nome do programa. Virou guerra dos sexos agora. Meu filho foi muito prejudicado. Ridículo"

É importante lembrar que Dayse não foi a única mulher da competição a se queixar sobre o machismo na competição.

Fádia Cheiato, Priscylla Luswarghi e Izabela Dolabela, também ficaram indignadas com o machismo no programa e comentaram que as coisas não são diferentes no mercado da gastronomia de maneira geral.

Para a família do Marcelo, parece que Dayse só ganhou "por causa do feminismo" e não por sua competência e profissionalismo dentro da competição.

Dayse diz que não é "feminista nem machista" no discurso após a final, a impressão que passa é que ela estava tentando se defender deste olhar que excluiu, na verdade, o seu trabalho como chef de cozinha.

O Estadão ainda disse que ela alegou estar calejada com o tratamento ríspido dos colegas de trabalho. O que explica muito do seu bom humor e profissionalismo diante de situações que viveu dentro do reality show.

No Twitter, Paola Carosella reforçou o que disse no programa:


E aproveitou para dar um recado sutil para quem a criticou:


E assim, com cerca de 85% de aprovação popular na enquete divulgada pela Band durante o programa, Dayse confirmou a preferência dos espectadores e foi eleita a primeira campeã da versão profissional do reality.

Ela levou para casa o troféu do programa, um carro 0 km, R$ 170 mil e mais um voucher mensal de R$ 1 mil, válido por um ano, em uma rede de supermercados.

A vitória de Dayse dissolveu a dúvida que costuma pairar sobre a real capacidade das mulheres no ambiente de trabalho e mostrou o quão difícil ainda é ser mulher em locais majoritariamente masculinos.

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