OPINIÃO
17/03/2014 14:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Tênis jamais será popular no Brasil

Fora o futebol, os outros esportes são praticamente ignorados pelo povo, poder público e iniciativa privada (salvo exceções). Temos modismos e heróis que conseguem fugir à regra.

No último domingo (16/mar), o sérvio Novak Djokovic (número 2 do ranking) venceu o suíço Roger Federer (número 5 e um dos melhores tenistas de todos os tempos) na final do Masters 1.000 de Indian Wells, nos Estados Unidos, por 2 sets a 1, com parciais de 4/6, 6/3 e 7/6 (7-3). No entanto, o que me chamou atenção aconteceu durante a disputa das oitavas de final do torneio, entre Federer e o alemão Tommy Haas (12o do ranking), comprovando que o tênis jamais será um esporte popular na terra do futebol.

O canal pago Sportv 2, que transmitia a partida de tênis, cortou a transmissão no meio para a exibição do jogo entre São Paulo e CSA-AL, válido pela primeira rodada da Copa do Brasil. Os outros dois canais do Sportv (1 e 3) também passaram jogos de futebol no horário e o tênis desapareceu da grade de programação por algumas horas. A televisão fechada, que tanto mostrou o esporte no início do ano, com os eventos Rio Open (ATP 500, no Rio de Janeiro) e o Brasil Open (ATP 250, em São Paulo), preteriu o tênis pelo futebol. Ok, é uma opção estratégica do canal visando audiência e maior rentabilidade financeira. Porém, o que se discute é a razão pela qual o Brasil não consegue formar atletas do mesmo nível que Guga Kuerten. É aí que o corte na exibição daquela partida na tevê tem sua parcela de culpa.

Guga, o maior ídolo nacional do esporte, estava fora da curva. Antes dele, o tênis era considerado ainda mais elitizado do que hoje. Seu carisma e desempenho (tricampeão de Roland Garros e ex-número 1) quebraram algumas barreiras, aumentando o número de praticantes, só que não foram suficientes para alterar o caráter do esporte no Brasil. O próprio Ministério do Esporte deixou de apostar na modalidade, no início de 2013, ao não renovar o apoio financeiro de R$ 2 milhões anuais para o Projeto Olímpico de Tênis, que pretendia criar uma estrutura profissional, com direção de Larri Passos e apoio de Guga. Com o tiro n'água, o ídolo foca esforços em seus projetos do Instituto GK, em Florianópolis (SC).

"O alto custo para a prática e a escassez de quadras e academias, além da falta de apoio por parte do governo, acabam dificultando o desenvolvimento da modalidade no país", opinou Renato Chvindelman, sócio-diretor da agência Arena -- Marketing Esportivo e grande fã do esporte.

A iniciativa privada, por outro lado, busca fazer a sua parte com a realização de eventos para atrair público e criar novos ídolos, embora o processo seja demorado. O Rio Open trouxe nomes importantes como Rafa Nadal (atual número 1), Davi Ferrer (número 4 no ranking), entre outros, e contou com a presença de quase 100 mil pessoas ao longo de sete dias de evento. "Acreditamos também que eventos dessa magnitude precisam gerar uma contrapartida social. Teremos o primeiro núcleo Rio Open funcionando esse ano e esperamos contribuir com o desenvolvimento do esporte no Rio e em todo o país", comentou Marcia Casz, Vice-presidente da IMX, empresa responsável pelo evento. "Temos alguns atletas se destacando nos circuitos ATP e WTA, como Thomaz Bellucci e Teliana Pereira. Novos ídolos incentivam a prática do esporte, e quanto mais jovens praticando, maiores as chances de termos novos ídolos. Mesmo que dessa massa não saiam novos 'Gugas', os projetos de tênis para crianças carentes podem ajudar a formar cidadãos e profissionais que atuam no esporte. Muitas dessas crianças se tornam professores de tênis, juízes de linha, de cadeira, coordenadores de academias e clubes", complementou.

Em conversa com o Blog, o principal tenista brasileiro da atualidade, Bruno Soares (número 2 no ranking de duplas e vice-campeão em Indian Wells, neste ano), espera que eventos internacionais no Brasil proporcionem uma nova realidade. "O Brasil Open corrigiu erros do ano passado e o Rio Open foi muito positivo. São dois eventos relativamente novos e a expectativa é muito boa pelo que vem. Estou feliz com o que estou vendo. Para crescer, é uma série de fatores. O mais importante é que tudo o que não se fazia está sendo feito. É um trabalho de muito longo prazo com a ajuda da Confederação (Brasileira de Tênis) e do nosso patrocinador, os CORREIOS", argumentou.

Será? Na verdade, fora o futebol, os outros esportes são praticamente ignorados pelo povo, poder público e iniciativa privada (salvo exceções). Temos modismos e heróis que conseguem fugir à regra. Guga foi um deles. "O esporte brasileiro precisa ser tratado com mais carinho, com profissionalismo. Se isto não acontecer, nada vai mudar", finalizou Renato Chvindelman. Pena, mas esta é a realidade do tênis e de tantas modalidades esportivas no Brasil, que receberá os Jogos de 2016.

Obs.: tentei contato com a assessoria de imprensa da Koch Tavares, organizadora do Brasil Open, mas não tive retorno.