OPINIÃO
28/04/2014 10:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Saudades de Telê. Imagina ele na Copa?!

Particularmente, gostaria que ele ainda estivesse trabalhando na área, elevando o nível de excelência do futebol, extraindo o melhor de cada jogador.

Getty Images
Jan 1981: Brazilian Coach Tele Santana watches a match. \ Mandatory Credit: Allsport UK /Allsport

No último dia 21, um texto no site oficial do São Paulo Futebol Clube me chamou atenção para o fato de que, há oito anos, o Brasil perdia o treinador Telê Santana, vítima de falência múltipla de órgãos, em Belo Horizonte, às vésperas da Copa da Alemanha (aos 74 anos, em 2006). O 'Mestre', apelido ganho pelas maiores conquistas da carreira no comando do Tricolor paulista (dez títulos oficiais, incluindo os bicampeonatos da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes - 1992 e 1993), foi exemplo de um profissional raro e que deixa saudades por enxergar o futebol na contramão de tudo e de todos.

Nos anos 90, no seu auge profissional como técnico, mesmo não sendo torcedor são-paulino, eu sentia inveja na maneira na qual sua equipe jogava bonito e para frente, e sonhava em vê-lo treinando meu time de coração. Para mim, Telê sempre será o maior de todos por sua busca incansável pelo futebol arte, pelo perfeccionismo em realizar um cruzamento, no toque de bola, no passe. Se todos fossem iguais a ele...

Existe quem o qualifica como teimoso, turrão, exigente, entre outros termos. 'Fio de Esperança', título da biografia escrita pelo jornalista André Ribeiro, porém, é a melhor definição de seu caráter. "Há momentos em sua vida em que o apelido exemplifica seu jeito de nunca desistir, de incansável. Por vivenciar esta prática dentro de campo na época em que jogava pelo Fluminense (anos 50), de perder duas Copas (1982 e 1986) e depois ser bicampeão mundial, e por sua tragédia pessoal, de lutar para voltar ao futebol. Doente, ele não perdia a esperança de voltar", comentou André Ribeiro em entrevista a mim. Para o seu filho Renê Santana, com quem também conversei, "Telê representa a honra de formar uma geração educada pelo exemplo do esporte. Conquistou tudo sem violência, sem mutretas, com futebol bonito, alegre, orgulho do são-paulino. Mostrou ao mundo como vencer, convencer e do bem ser".

E se Telê fosse vivo hoje, o que ele acharia da Copa ser realizada no Brasil diante de tantas notícias negativas, gastanças desenfreadas, superfaturamentos nos estádios? Em um exercício de imaginação, quem conviveu com ele responde. "Que seria muito bom para o País e justo, pois somos os maiores ganhadores. Mas teria de mudar o padrão de cálculo de previsão construtiva na engenharia para provar que o custo de construir estádio triplica o previsto. Mestre Telê ficaria muito desencantado com a atual situação de sangria do povo por uma pseudo-evolução do futebol", concluiu seu filho Renê.

A jornalista Ana Carla Portella, que dirigiu e produziu o documentário "Telê Santana - Meio século de futebol arte", também endossou os possíveis sentimentos antagônicos de Telê. "Acredito que, inicialmente, ele ficaria feliz por ser dentro do País. Ele sempre frisou que o futebol brasileiro era um diferencial. Mas com os desmandos que estão acontecendo, com os estádios e obras inacabadas, os acidentes, ele estaria contra de como as coisas se desenrolaram. Pelo que eu estudei, ele não estaria contente como a Copa vai acontecer". Ronaldão, ex-zagueiro do Tricolor paulista, que compartilhou com Telê as maiores glórias, foi ainda mais incisivo. "Seguramente, ele reclamaria de alguma coisa a respeito dos gastos, pois ele mesmo era contra gastos desnecessários. Mas na parte estrutural das novas arenas, não teria do que reclamar pois estão com gramados perfeitos e acomodações adequadas para a boa prática".

E com relação ao escrete brasileiro que irá disputar a Copa? O que Telê pensaria? "Ele acharia a Seleção de hoje meia-boca. Não sei como seria a relação dele com Neymar. Não tinha estrela no time dele. Futebol é um conjunto de força. Ele tentaria passar isso para os onze que vão jogar", sugeriu André Ribeiro.

Particularmente, gostaria que ele ainda estivesse trabalhando na área, elevando o nível de excelência do futebol, extraindo o melhor de cada jogador. Talvez, o futebol brasileiro não vivesse uma crise de identidade, em que a defesa se sobressai ao ataque. Talvez, ele comandasse mais uma vez a Seleção. Eu apoiaria. Viva Telê e seu verdadeiro legado ao futebol brasileiro!