OPINIÃO
29/07/2014 14:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O antissemitismo vai para o campo de futebol

E onde está a Fifa, que tanto pregou contra o racismo durante a Copa de 2014? Em seu site, sem menção à agressão. Se abster não é a melhor solução.

Reprodução/Twitter

Na quarta-feira passada, dia 24, o jogo amistoso de futebol entre a equipe francesa do Lille e a israelense Maccabi Haifa, realizado na cidade de Bischofshofen, na Áustria, foi palco de um ato intolerante por parte de alguns torcedores. No final do segundo tempo, quando o placar apontava 2 a 0 para os franceses, cerca de 20 jovens militantes pró-Palestina invadiram o campo e partiram para cima dos jogadores israelenses com voadoras e socos. O árbitro encerrou o jogo e a polícia interveio, sem que fosse relatado algum ferido. No caminho para o vestiário, os jogadores e a comissão técnica do Maccabi Haifa ainda foram apedrejados pelos manifestantes de origem turca. Os autores da invasão foram identificados e denunciados pelas autoridades do país.

O estranho é que muitos veículos de comunicação brasileiros, inclusive este no qual escrevo semanalmente, não publicaram uma linha sobre o ataque. O futebol, que sempre foi vetor propagador da paz, sofreu um duro golpe como se o fato nunca houvesse ocorrido. A razão não se sabe. Talvez, a imparcialidade pregada pela profissão esteja sofrendo com a mutilação da guerra, que tanto amargura os dois lados e deixa centenas de vítimas inocentes e um ódio extremo condenável.

O Maccabi Haifa, fundado em 1913, é um time tradicional de seu país (já jogou a UEFA e a Champions League) e possui em seu elenco jogadores árabes mulçumanos e de outras nacionalidades, transparecendo sua política de pluralidade de que não importa sua crença e sim a esportividade (técnica, tática e física) dentro de campo em busca da vitória. Assim como os milhares de times espalhados pelo planeta e seus jogadores, que honram suas camisas.

Não estou aqui tratando sobre o conflito Israel-Palestina, em Gaza (e nem adianta esbravejar pois xingamentos são diretamente proporcionais à ignorância no tema), e sim do que aconteceu na Áustria, por meio do esporte. Foi um exemplo claro de um ato antissemita. Recentemente, estas hostilidades banais vêm se espalhando pela Europa, principalmente na França e Alemanha, que assistem às manifestações de fundamentalistas usando da violência contra comunidades judaicas locais e destruindo sinagogas com maior frequência.

O próprio chanceler austríaco, Werner Faymann, condenou a ação sofrida pelos jogadores do Maccabi Haifa: "Ataque contra atletas que fazem pré-temporada na Áustria são absolutamente intoleráveis. A Áustria defende uma convivência pacífica e assim deve ser o futuro". O Maccabi Haifa emitiu nota endossando a atitude covarde dos manifestantes, reforçando de que ação não teve viés futebolístico. No site do Lille não há nada em referência à partida, em seus 60 anos gloriosos de história, embora já esteja marcada nela para sempre.

E onde está a Fifa, que tanto pregou contra o racismo durante a Copa de 2014? Em seu site, sem menção à agressão. Se abster não é a melhor solução. E, ao meu ver, deixar de discutir, esquecer ou abandonar o fato é dar autorização para que novos casos surjam. Não importa se é contra A, B ou C. É preciso recriminar de qualquer maneira. Senão, daqui a pouco, qualquer jogo ou confronto esportivo será um campo de guerra motivado por diferenças raciais, de crença etc. E nós, brasileiros, infelizmente somos habituados a ver brigas por paixões clubísticas todos os finais de semana como algo natural. Isso não é normal! Nunca será.

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