OPINIÃO
03/05/2014 13:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Morte de Senna inspirou a Seleção de 94?

Para mim, a imagem que tenho hoje do aperto de mão entre o capitão da Seleção no amistoso Raí e o tricampeão Senna era de passagem do bastão. Um dos dois seria tetracampeão. Quis o destino que a alegria fosse pelo futebol.

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Eu estava entre os milhões de paulistanos que foram às ruas de São Paulo saudar o cortejo de Ayrton Senna até o Cemitério do Morumbi, dias depois do acidente fatal em Ímola, há 20 anos, no GP de San Marino. Naquele tempo, eu ainda não tinha 18 anos e somente aspirava um dia trabalhar com jornalismo esportivo.

Na verdade, eu queria era que a seleção brasileira de futebol voltasse a levantar a taça na Copa dos Estados Unidos, em julho de 1994, quebrando a maldição de 24 anos sem o título mundial. Durante este período, as vitórias de pilotos brasileiros na Fórmula 1 honravam o orgulho nacional no esporte, uma vez que o vôlei ainda era incipiente. E Senna foi o principal responsável por fazer a bandeira verde-amarela tremular dentro do cockpit de seu carro ou no ponto mais alto do pódio. Quando o futebol estava em baixa, o automobilismo enchia meu peito de patriotismo e fazia meus olhos marejarem nas manhãs de domingo em que a Globo transmitia um Grande Prêmio.

A morte de Senna pegou todos nós de supetão e, para muitos, serviu de motivação para aquele grupo de jogadores brasileiros que, meses depois, conquistaria o tão sonhado tetracampeonato. O próprio Roberto Baggio, o camisa 10 da Azzurra, que desperdiçou o último pênalti na decisão da Copa, credita ao piloto o motivo do seu erro. "Acho que foi Senna quem me fez perder o pênalti. Foi ele quem pegou a bola e a puxou para cima", brincou o italiano em entrevista à Globo, em 2010.

O volante brasileiro do escrete de 94 era Mauro Silva. Em conversa comigo, o ex-jogador confirmou que o exemplo de Senna era comentado dentro do vestiário e que ele foi inspiração para a conquista. "Sim, falávamos dele. Quem não iria falar? Eu comecei a ver Fórmula 1 por causa dele. Ayrton foi uma referência para nós, em um momento que o país carecia de referências políticas ou de alguém para admirarmos. Ele era um atleta vencedor, com valores e princípios, de determinação, de paixão, de garra. Fazia todo mundo se sentir orgulhoso. Isso, de certa forma, nos serviu de motivação".

Mauro Silva participou do amistoso que a seleção brasileira disputou contra um combinado do Paris Saint Germain-Bordeaux, no estádio Parc de Princes, em Paris, em abril de 94, no qual Senna deu o pontapé inicial da partida. "Lembro de ter cumprimentado ele no amistoso. Foi meu único contato. Na final da Copa, já tínhamos a ideia de homenageá-lo. Mas a história da faixa ficou em segredo. Realmente, era inevitável não falar dele", revelou ele que ajudou a erguer a faixa com os dizeres 'SENNA...ACELERAMOS JUNTOS...O TETRA É NOSSO!' na comemoração do tetra.

Paulo Júlio Clement, comentarista do canal pago Fox Sports, também estava naquele amistoso de Paris, trabalhando como repórter do jornal O Globo, e emitiu sua opinião: "Sinceramente, não acho que haja qualquer relação entre a morte de Senna e a conquista da Seleção. Os jogadores o conheceram naquela ocasião, claro que gostavam dele e certamente ficaram chocados com o episódio dez dias depois. Contudo, a obsessão daquele grupo na vitória era maior do que qualquer coisa. Não necessitavam de motivação extra e tampouco iriam se deprimir".

Para mim, a imagem que tenho hoje do aperto de mão entre o capitão da Seleção no amistoso Raí e o tricampeão Senna era de passagem do bastão. Um dos dois seria tetracampeão. Quis o destino que a alegria fosse pelo futebol. Senna deixou a vida de herói e se tornou mito. Tanto ele como a Seleção entraram para a história. Mais ele do que os 11 de Parreira.