OPINIÃO
09/04/2014 10:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

"Me sinto revoltada, não vou brincar", diz Maurren Maggi

"Grandes nomes do esporte olímpico vieram me procurar para saber se é uma boa iniciativa a arrecadação pela internet. E eu falei que foi a melhor coisa que me aconteceu."

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RIO DE JANEIRO, BRAZIL - MAY 17: Brazilian Maurren Maggi, long jump gold medalist in the Beijing Olympic Games, during the GP Rio Caixa 2009 on May 17, 2009 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Felipe Dana/Fotoarena/LatinContent/Getty Images)

Para fugir um pouco do tema central da atualidade, a Copa do Mundo, conversei com Maurren Maggi, campeã olímpica do salto em distância em Pequim, 2008, no início da semana, sobre sua iniciativa de promover uma ação de crowdfunding (financiamento coletivo via internet), que se encerrará no final do mês. A atleta está sem patrocínio desde o início do ano espera arrecadar mais de R$ 100 mil (até agora foram quase R$ 40 mil) em doações que servem para custear treinamentos, a dedicação de profissionais à sua volta, além dos gastos de viagens e hospedagens para se manter competindo em alto nível.

O semblante sério de Maurren Maggi, durante a entrevista realizada no Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, em São Paulo, transparece seu engajamento em persistir no esporte e o desejo de disputar os Jogos do Rio, em 2016, quando terá 40 anos. Ao longo da entrevista, Maurren se mostrou indignada pela situação precária em que se encontram ídolos de diversas modalidades e fala em entrar para a política depois de se aposentar. Leia, abaixo, os principais trechos.

A ação de crowdfunding superou suas expectativas? Como foi a receptividade de seus fãs?

A gente sabe que é uma iniciativa muito boa, tomada com muita consciência, ainda mais porque tenho muito cuidado com o meu nome. Está super bacana, arrecadando demais e estou muito focada nos treinamentos. Muita gente comentou, mais pela revolta com relação a uma atleta campeã olímpica ter de fazer vaquinha na internet para arrecadar fundos e continuar a competir em alto nível.

Demorou muito para tomar esta decisão, de partir para a 'vaquinha'?

Foi depois que eu coloquei na internet que iria abandonar o esporte se não tivesse patrocínios para poder continuar com a carreira. Apareceu muita gente disposta, mas muita enrolação também. Até hoje não consegui nenhum patrocínio, mas estou investindo nesse site da Kickante, que foi uma iniciativa de um amigo para fazer a reunião. O Nélio (Moura, meu treinador) também falou sobre isso. Eu estava desacreditada porque apareceram muitos picaretas neste decorrer de minha jornada em buscar patrocínios. Eu mesma vou conversar pessoalmente, dar a cara a tapa, para que as pessoas me conheçam e sempre há picaretas, mas nada que eu não conseguisse lidar. O site da Kickante está muito bacana, muito positivo.

Você espera arrecadar mais de R$ 100 mil. Este dinheiro é para o planejamento até a Olimpíada de 2016 ou para sua aposentadoria?

Esse dinheiro é para treinamento, viagens, para este ano. Espero que, no ano que vem, eu tenha patrocínio para competir no Panamericano do Canadá. Não quero ficar dependendo do crowdfunding este tempo todo. Então, espero mesmo conseguir um patrocínio e que as coisas melhorem. Acho que depois da Copa do Mundo, esse tumulto todo do futebol, as coisas vão melhorar.

Teve gente que falou que você estaria pedindo 'esmola'. Você se sente ofendida com estas críticas?

Eu não (me sinto ofendida). É a realidade do País. Pelo contrário, grandes nomes do esporte olímpico vieram me procurar para saber se é uma boa iniciativa a arrecadação pela internet. E eu falei que foi a melhor coisa que me aconteceu. Muitos aderiram e temos mais de 15 atletas que entraram depois de mim. Alguns são grandes nomes e eu disse para investirem, falem quem são, seus motivos. Qualquer ajuda é boa para quem busca uma medalha em 2016 sem precisar de ninguém, empresa. Hoje, eu dependo de meu técnico de estar todos os dias comigo aqui na pista, o resto eu estou indo atrás.

O crowdfunding sustenta então o teu staff?

Tenho uma equipe grande. Tenho médico, o Nélio e a Tânia que são meus técnicos. Tenho minha psicóloga, minha nutricionista. Na verdade, eles sempre cuidaram de mim se pedir nada em troca. Sempre tive como agradecer, bonificar as pessoas que me ajudam Hoje, eles continuam me ajudando mesmo sem patrocínio mas não é o que eu quero. Sempre fiz questão de agradecer da maneira possível o que fizeram por mim.

Em 2016, você terá 40 anos. Ao pisar, na pista de atletismo do estádio olímpico no Rio de Janeiro, como você se sentirá? Terá condições de buscar a medalha de ouro?

Com certeza, se eu entrar não vai ser para brincar. Ainda mais do jeito que estou me sentindo dentro da pista, revoltada. Não vou entrar para brincar. Claro, é um passo de cada vez. Estou pensando primeiro no Panamericano do ano que vem para depois focar na Olimpíada.

Há outros atletas que já partiram para esta iniciativa. Este é o caminho, uma saída para esta falta de apoio da iniciativa privada, do governo?

Tomara que sim porque é muito ruim você depender de um patrocínio, sendo que temos empresas estatais que são muito ricas e nós somos atletas baratos em comparação ao futebol. Qualquer empresa poderia nos patrocinar, é uma vergonha. E não temos incentivo.

Qual é a tua análise do projeto olímpico brasileiro para os próximos Jogos? Estamos perdendo a chance de investir em uma infraestutura, em material humano no esporte?

Temos alguns casos isolados. Hoje, no mercado, a gente tem a Lei de Incentivo ao Esporte, o bolsa-atleta, e os atletas têm de aproveitar. No meu começo, isso não tinha. Já temos material humano para a Olimpíada. Não vai aparecer um herói novo. Já sabemos quem são. Tem que investir nessas pessoas que estão aí.

E quanto à infraestrutura?

Falta um grande nome lá em cima, no poder, digo no âmbito federal, estadual, para fazer acontecer. Eu mesma já levei projetos para o Ministério do Esporte mas eu sou só a campeã olímpica, nada mais. Se eu tivesse o poder, teria muita coisa a mudar. Tenho um projeto, o Troféu Maurren Maggi, que obriga as crianças de 7 a 12 anos a estar matrícula em alguma prática de esporte para participar da competição. Ganha camiseta, lanche, aqui em São Paulo. Hoje, só acontece na capital, mas temos pedidos para levar ao interior. Mas é uma iniciativa minha, não tinha de ser. Não seria eu quem deveria tomar esta iniciativa. Peço para alguém patrocinar e é mais fácil ajudar a criançada do que a mim. É um projeto que deu certo e é uma iniciativa que quero levar para o Ministério.

Passa pela sua cabeça o que vai fazer depois de largar as pistas de atletismo?

Passa muita coisa pela minha cabeça. Mas não é algo que eu queira pensar agora. É a hora de estar focada dentro da pista. Depois, eu quero entrar para a política. Tem muita coisa para a gente melhorar. Gosto muito de política.

E qual será a tua plataforma política? Atletismo?

A plataforma é o esporte no geral, não só o atletismo. Eu não quero defender só a causa do atletismo porque tem muita coisa errada no País com relação às políticas públicas do esporte. Eu começaria por quem já fez história no esporte e não com quem está por fazer, pois já tem ajuda do bolsa-atleta. Temos de dar valor às pessoas que começaram lá atrás. Não estou falando de mim, estou falando de Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Joaquim Cruz, Robson Caetano, os meninos do 4x100. Falo de quem foi campeão do mundo e está esquecido. Do Jadel Gregório que tem uma medalha de prata em Mundial, inédita, no salto triplo, e que ajudou elevar a tradição do esporte. Dos atletas do vôlei, da natação. Do Arthur Zanetti, que passou por maus bocados. São grande nomes e depois? Do que adianta o atleta ser campeão olímpico e cair no esquecimento? Isto tem que mudar. Se vamos comparar aos heróis deste país, até políticos, em relação à política, a gente não tem diferença. Mas o político se aposenta e ganha uma fortuna. Já os atletas se aposentam e passam fome. É uma realidade muito distante. Eu quero mudar esta situação. Temos grandes campeões trabalhando fora. É o caso de Joaquim Cruz, que trabalha fora do país, e treinou atletas de países vizinhos que ganharam medalhas. Isso não pode ser. Ele tinha de estar aqui. Mas ele tem que ter as condições adequadas. Ele é campeão olímpico, ele tinha de estar aqui com a gente.

Conversou com o Arthur Zanetti, sobre isso? Ele pensou em fazer um crowdfunding?

Ele tem os patrocínios dele, andamos conversando. Ele conseguiu um ginásio para ele treinar. É um caso isolado. Ele tem que buscar o melhor para ele.

Depois de 2016, você acha que o Brasil terá uma realidade melhor no esporte olímpico ou o país perderá uma grande chance?

Eu digo por mim que não vou deixar isso acontecer. Vou fazer de tudo para não deixar o bonde passar. Estou sempre cobrando muito o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) das situações que temos passado depois do Pan de 2007, para gente ter um legado a partir de 2016.

Estamos observando crises institucionais em diversos esportes. No futsal, no vôlei, situações que demonstram não haver uma expectativa de melhora no esporte brasileiro. O que está acontecendo?

Os atletas não estão desperdiçando este momento. Estamos brigando porque tem muita coisa errada, a gente quer mudar. Queria muito chegar na Olimpíada descansada, sem dor de cabeça, sem ficar pensando em patrocínio mas não é uma situação só minha, é de muita gente em outros esportes. A gente tem que parar com esta história de que cada um tem de ganhar um pouquinho mais ali, outro aqui, e ver o que estamos fazendo para o futuro do esporte. Tudo será refletido em 2020, e a gente não vai ter nada se continuarmos neste superfaturamento que temos no mercado. O Brasil é um país caro de se viver, muitos impostos, muita coisa errada e temos de mudar. Está todo mundo metendo a boca.

Falta qualificação para os dirigentes, de quem decide sobre o futuro do esporte no Brasil?

Tem gente que pensa no esporte e tem gente que pensa só no lado financeiro, quer tirar uma lasquinha do que está acontecendo no País. Tem muito dinheiro envolvido e mexe com a vaidade de muita gente. Eu quero material humano ganhando medalhas. Quero que as coisas aconteçam da melhor maneira.

Em 2016 teremos uma performance como nas últimas edições, quando um ou dois heróis ganham uma medalha de ouro, ou será diferente?

Será muito melhor. Vai ser tão sucesso quanto o Pan de 2007, como também o Pan de Guadalajara, em 2011, que foi muito bom, com quebra de recordes. Tem que ser melhor (a performance). Nenhum ano pode ser pior que o anterior, tem que ser sempre melhor. E a torcida vai influenciar e muito. Não se trata de um único esporte. O brasileiro vai estar lá, ele acompanha, ele grita, ele briga e nós somos dependentes de torcida e de calor humano. Não duvido que, apesar de tudo, será a melhor Olimpíada e os melhores resultados.

Quem são seus ídolos no esporte?

Ayrton Senna é o meu ídolo, que eu nunca tive o prazer de conhecê-lo mas eu assistia muito às corridas e sempre me espelhei nas atitudes dele dentro e fora das pistas de Fórmula 1. Sou também muito fã de pessoas anônimas, do meu técnico do Nélio. Gosto muito do Ronaldo, do Pelé. Mas o topo de tudo é o Senna, pela atitude de levar a bandeira, de levantar a bandeira, de ser muito guerreiro, de que não importava o que acontecesse ele queria ganhar. É um exemplo de brasileiro que eu quero levar para o resto da vida.