OPINIÃO
05/08/2014 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Marcelinho Huertas: "Somos respeitados no mundo inteiro novamente"

Getty Images
Brazilian forward Marcelinho Huertas runs with the ball during his team's London 2012 Olympic Games men's quarterfinal basketball match against Argentina in London on August 8, 2012. AFP PHOTO /MARK RALSTON (Photo credit should read MARK RALSTON/AFP/GettyImages)

O armador é a posição 1 em um time de basquete. Sua função primordial é de liderar as jogadas ofensivas, criando oportunidades de cesta para os outros quatro jogadores, além do primeiro combate na parte defensiva. Um armador inteligente é aquele que sabe ler o jogo rapidamente, acelera ou cadencia, esperando a hora certa para iniciar a jogada ou se infiltrar. Marcelinho Huertas, de 31 anos, é o armador titular da seleção brasileira que vai disputar o Mundial a partir de 30 de agosto, na Espanha. Desde as primeiras aparições no time principal, em 2004, Marcelinho vem se destacando por sua habilidade e experiência adquirida de quem veste a camisa do F.C. Barcelona Regal, equipe de ponta do basquete europeu, com propriedade. É um típico armador.

Na seleção, junto com jogadores que atuam na NBA, como Leandro Barbosa, Thiago Splitter, Anderson Varejão, Nenê, entre outros, Huertas ajudou a resgatar o orgulho do esporte bicampeão do mundo - 1959 e 1963 - ao levar o Brasil novamente a uma Olimpíada, a de Londres 2012, depois da seca de 16 anos.

Eu sou do tempo em que Guerrinha comandava um timaço com Oscar e Marcel, que venceu o Pan de 1987, em Indianápolis (EUA), contra os donos da casa, e da equipe campeã mundial feminina, em 1994, na Austrália, que tinha Magic Paula e a Rainha Hortência jogando juntas. Este blog conversou com exclusividade com Marcelinho Huertas sobre o momento atual do Brasil, que pode ir longe neste Mundial - embora tenha garantido presença por meio de um convite - e alcançar as glórias do passado. Elenco nós temos. Leia abaixo os principais trechos.

O que você evoluiu desde a primeira vez convocado para a seleção brasileira, em 2004?

Foi uma experiência muito boa aquela Copa América em Santo Domingo (República Dominicana), de jogar uma competição profissional. Foi o primeiro contato. Coisas de jovem. Foi uma experiência muito boa, saímos de lá campeões. Já estou entrando no décimo primeiro ano de Seleção e a verdade é que sonhava com isso, de estar em uma seleção tão forte. É um passo importante. Sempre fui companheiro, positivo, quis o bem da seleção. Mesmo sem jogar, tive paciência. Fui melhorando como jogador, ano após ano na Europa.

Qual é a sua relação com a seleção brasileira?

Desde que fui chamado em 2004, mesmo sendo uma seleção só para amistosos, foi uma oportunidade em que você jamais pode dizer não, de defender seu país, de estar neste seleto grupo de jogadores, na elite de um esporte tão grande no mundo inteiro e que, no Brasil, continua crescendo. Jogador que não tem orgulho, não tem vontade de representar seu país não pode vestir a camisa da Seleção. E eu me sinto muito orgulhoso de ser brasileiro. É porque realmente você sente algo a mais, o orgulho de defender esta nação. É difícil de explicar.

Quem te inspirou no começo da carreira?

É claro, quando você é criança tem muita NBA e você acaba vendo jogadores como ídolos. Quando já jogava no começo da carreira profissional, no Paulistano, no Pinheiros, em 2002, 2003, eu olhava para jogadores mais próximos dessa realidade, como o Jason Kidd e o Steve Nash, que eram jogadores que estavam em outro patamar. O mais importante é reconhecer e admirar o que os outros jogadores têm de virtudes e tentar aprender com eles, os mais velhos ou mais novos. É primordial para todos os atletas.

E você agora se acha ídolo dos mais novos?

É legal ver que existe reconhecimento pelo trabalho que me dediquei, não só nos clubes mas na Seleção. Hoje vejo na molecada o que eu era antigamente. É importante você ter ídolos. As pessoas têm essa relação com jogadores brasileiros e não só Michael Jordan. É preciso ter um ídolo perto de você.

Que imagem você guarda da derrota no Mundial da Turquia 2010 (contra a Argentina, nas oitavas)?

É mais uma imagem de frustração, de ter saído muito cedo da competição. A gente começou bem contra a Argentina, grande parte do jogo ficamos na frente e acabamos perdendo. Doeu muito. Não só pra mim. Fizemos uma ótima primeira fase, tivemos um arremesso para ganhar os jogos dos Estados Unidos. Enfim, isso são coisas que acontecem. Fica a lição e a cicatriz, e a gente realmente acreditava em ir mais longe.

E para este Mundial, o que você espera quatro anos mais tarde?

O grupo é praticamente o mesmo. Experiente, que se conhece há bastante tempo, muito rodado internacionalmente nas suas equipes, jogadores vencedores. O mais importante é ter esta maturidade que a maioria já adquiriu não só no nível técnico, pois cada um pode melhorar ainda mais, mas de ter maturidade, inteligência, de saber o que fazer dentro da quadra. De tomar boas decisões, ter a tranquilidade de acalmar o ritmo de jogo quando as coisas não caminham bem. Pequenos detalhes que fazem a diferença. Então, todos nós somos mais experientes, tivemos golpes duros para aprender a não cair na mesma armadilha. Temos de ser inteligentes, é um time capacitado. Somos respeitados no mundo inteiro novamente.

Seria frustrante não ir mais longe do que o Mundial passado?

Frustrante não saberia dizer, depende de como iremos jogar. A gente sabe que a fase de grupos é uma coisa e, a partir das oitavas, é mata-mata e um jogo pode te condenar a não brigar por medalhas. Mas como falei, tem de estar tranquilo, num dia de inspiração, preparados. Quando você joga em uma situação de mata-mata tem que fazer ajustes ali na hora e é muito difícil. Não podemos pensar na frustração mas de ter a ambição de chegar longe, jogo após jogo. Tomara que a gente possa chorar de alegria e não de tristeza.

Onde você estava naquela vitória da seleção contra os Estados Unidos em Indianápolis, em 1987, e no Mundial feminino de 94? Batendo as primeira bolas?

Em 87 eu realmente era muito pequeno. Tinha quatro anos e não lembro. Comecei a jogar basquete naquela época, quando tinha quatro, cinco anos. A vitória de 94, essa eu lembro, da geração da Paula e da Hortência. Era uma Seleção incrível. Marcou época, foi um prazer ver a Paula e a Hortência jogando juntas.

Depois teve aquele gap (lacuna) em que o esporte decaiu no País, principalmente no masculino, para o surgimento da geração de vocês. O basquete se consolidou como esporte no país, sendo novamente popular como o vôlei, nos últimos anos?

Eu acho que o basquete perdeu muito espaço principalmente com as vitórias do vôlei nos últimos anos. Eles ganharam muitos títulos, uma seleção que dá medo e coincidiu com o momento ruim do basquete. Mas muita gente gosta de basquete e sempre foi um esporte querido. Acho que o povo acabou retomando o gosto de ver o basquete, principalmente depois que voltamos a jogar uma Olimpíada, do grande Mundial da Turquia. Conseguimos resgatar estes valores, que estavam um pouco no esquecimento durante o período de seca olímpicas. O basquete está indo para o caminho certo de novo.

Estamos na véspera do Mundial e a dois anos da Olimpíada no Rio. Você acha que existe já alguma pressão por melhores resultados?

Absolutamente nada. A gente sabe que a Olimpíada será aqui, mas o foco é 100% no Mundial. Ninguém cogitou falar em Olimpíada. Seria uma besteira. Estamos focados só no Mundial da Espanha.

O Brasil está no grupo da morte no Mundial com Espanha, França, Sérvia, Egito e Irã. Qual será o jogo que definirá o desempenho do Brasil?

Todos os jogos. Um despiste com um time considerado mais fraco pode alterar nossa trajetória e os jogos com os times europeus podem marcar muita coisa no jogo, na confiança e colocação dentro do grupo, de cruzamentos para a segunda fase. Então, todos os jogos têm uma importância muito grande e não temos de focar em um outro jogo. A gente tem que pensar jogo após jogo. É importante ter isso na cabeça.

Já com um pouco mais de duas semanas de trabalho, e a experiência do Mundial e de uma Olimpíada, o que mudou neste grupo ou que detalhe?

Para nós jogadores é praticamente a mesma coisa. Alguns têm um pouco mais de bagagem, embora acho que em 2010 a Seleção já era bem rodada. Hoje temos mais experiência. Para o Rúben (Magnano, argentino que treina o Brasil) talvez seja melhor pois, em 2010, era o primeiro ano dele no comando. Agora, ele já conhece cada jogador, sabe o que tirar de cada um, como encontrar as melhores formações. Pra ele facilita muito ter tido este tempo todo para encontrar as melhores armas.

Você tem outros ídolos no esporte? Quem?

Ayrton Senna. Nasci vendo Fórmula 1. A maneira dele de dirigir, a ousadia. Para ele, não valia o segundo lugar, a ambição dele como piloto era espetacular, sempre buscando o máximo. Foi um cara que me inspirou muito. Quando ele morreu, fiquei muito ruim. Faltei alguns dias na escola porque fiquei muito abatido.

Teu contrato termina com o Barcelona em junho do ano que vem. Você ainda sonha em jogar na NBA?

Olha, claro que gostaria de jogar na NBA, mas existem milhares de condições que faz você escolher ir para lá. Tem que ter interesse dos times de lá. Nestes últimos tempos, houve muitas especulações e, acabando meu contrato, pode ser que pinte uma oportunidade. Mas não me preocupo com isso. Penso em jogar bem a próxima temporada no Barcelona. Existe a possibilidade de continuar por lá. Sou muito querido pela torcida e há uma boa relação com o clube. Agora é jogar e, no final da temporada, abrir as cartas sobre a mesa para ver quais são alternativas.

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