OPINIÃO
14/07/2014 13:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Apagão na democracia

No ano em que lembramos o cinquentenário do golpe que interrompeu a democracia, é triste e temeroso que os governos têm diminuído os direitos de manifestação, ao invés de ampliá-los.

A esta altura muitos já sabem que na véspera da final da Copa prenderam "preventivamente" ativistas no Rio de Janeiro, sem nenhuma acusação que não fosse quase um exercício de futurologia. Como se vivêssemos no filme Minority Report, onde prendem as pessoas antes de qualquer crime existir. E nem precisa falar em 1984.

No dia final da Copa, domingo, os depoimentos que chegam trazem, além das prisões sem motivo, a violência insana, cruel mesmo, da polícia: braços quebrados, humilhações, espancamentos, com o agravante das risadas dos policiais, a preocupação zero em serem filmados praticando, no mínimo, abuso de autoridade. A fotógrafa Ana Carolina Fernandes, que fez para a Mídia Ninja a imagem acima, contou o seguinte:

"Na manifestação de hoje (domingo), "Fifa Go Home", na Praça Saens Peña, a PM e a Tropa de Choque mais uma vez usaram de extrema violência contra a Imprensa. No mínimo, 11 fotógrafos foram agredidos. Eu inclusive. Caída no chão, tive a minha máscara de gás puxada por um policial com uma mão enquanto com a outra ele disparava um jato de spray de pimenta diretamente nos meus olhos. Jason O' Hara, fotógrafo canadanse, e Filipe Peçanha, da Mídia Ninja, foram brutalmente espancados. Um outro fotógrafo teve o braço quebrado. Mas esse tipo de agressão silenciosa dessa foto, vindo de uma mulher, é uma violência muito maior."

No ano em que lembramos o cinquentenário do golpe que interrompeu a democracia, é triste e temeroso que os governos têm diminuído os direitos de manifestação, ao invés de ampliá-los. Não à toa o escritor Ricardo Lísias comentou que o sábado, com as prisões "preventivas", era "o pior dia para a democracia brasileira desde o AI-5". Monica Mourão fez uma comparação muito boa inclusive sobre os tempos atuais e os de então.

Alguns dos legados desta Copa vão ser as imagens da polícia batendo em civis, violência desmedida, a institucionalização dos policiais não identificados (com números em vez de nomes em seus uniformes), a proibição de manifestação imposta pelo governo federal e mesmo a coerção do debate público, como ocorreu na Praça Roosevelt em São Paulo, quando a Polícia Militar prendeu sem motivo e espancou inclusive um advogado.

A ONG Justiça Global disse que a ação da polícia da véspera da final teve "propósito único de neutralizar, reprimir e amedrontar aqueles e aquelas que tem feito da presença na rua uma das suas formas de expressão e luta por justiça social". A Anistia Internacional destacou que o fato é "preocupante por parecer repetir um padrão de intimidação que já havia sido identificado pela organização antes do início do mundial".

O apagão que é muito triste, que envergonha o Brasil, é esse.

Aqui, a lista de profissionais de comunicação feridos/detidos/agredidos no Rio, segundo lista do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro:

  • Samuel Tosta - diretor do Sindjor -Rio - freelancer - ferido nas costas por estilhaços de bomba
  • Gizele Martins - diretora do Sindjor - Rio - editora do jornal Cidadão - crise de asma por inalação de gás lacrimogêneo
  • Mauro Pimentel - repórter fotográfico do Terra - chutado e golpeado no rosto e nas pernas com cassetete, teve a lente da câmera quebrada e a máscara de gás quebrada
  • Ana Carolina Fernandes - repórter fotográfica da Agência Reuters - teve a máscara de gás arrancada por um PM que a atacou com spray de gás de pimenta
  • Boris Mercado - repórter fotográfico peruano - chegou a ser detido e agredido
  • Jason O'Hara - repórter cinematográfico canadense - internado no Hospital Municipal Souza Aguiar em decorrência dos ferimentos
  • Oswaldo Ribeiro Filho - jornalista da agência inglesa Demotix - teve uma bomba de gás jogada em seu rosto
  • Filipe Peçanha - comunicador da Mídia Ninja - vítima de espancamento por oito PMs e a lente da câmera quebrada
  • Leo Correa - repórter fotográfico freelancer - vítima de agressões físicas por PMs
  • Tiago Ramos - jornalista do SBT Rio - ferido por estilhaços de bomba em um dos braços
  • Luigi Spera - Jornalista italiano - vítima de agressões físicas por PMs
  • Aloyana Lemos - documentarista - detida com violência por PMs e levada para a 21ª DP (Bonsucesso)
  • Bernardo Guerreiro - comunicador da Mídia Ninja - teve sua lente quebrada e foi agredido com spray de pimenta no olho a curta distância
  • Augusto Lima - jornalista do Coletivo Carranca - teve o celular quebrado quando foi agredido a golpes de cassetete
  • Loldano da Silva - repórter fotográfico - agredido com dois golpes de cassetete no braço esquerdo, levado para o Souza Aguiar.

PS: Veja as íntegras das notas divulgadas.

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