OPINIÃO
26/05/2014 10:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A Copa de 2014 e o excesso de otimismo no Brasil

O potencializado excesso de otimismo no Brasil acaba não conduzindo a uma "falácia", mas sim a uma total ausência de planejamento: nesse ambiente de caos das políticas públicas, qualquer pequena realização concluída acaba sendo bem-vinda.

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Recentemente (11/5/2014), foi veiculado, na Folha de S.Paulo, um artigo de Hélio Schwartsman abordando a questão da "falácia do planejamento", constatação que é resultado de uma análise empírica de economia comportamental na década de 1970. Em síntese, a "falácia" é decorrente de um excesso de otimismo inerente ao ser humano.

Embora se tenha ciência de que, baseada na própria experiência, uma determinada atividade tomará mais tempo do que o previsto para ser concluída, há sempre um viés otimista no ato de planejar. Dessa forma, acredita-se que, dessa vez, a coisa será diferente - e melhor - do que antes. É aquela velha história: sei que para chegar da minha casa ao trabalho levo em média uma hora, mas vai que hoje o trânsito esteja bom e eu consiga levar apenas quarenta e cinco minutos?

Nessa linha, vale a pena adentrar na questão do excesso de otimismo no Brasil para a infraestrutura, sobretudo nas obras destinadas à Copa do Mundo de 2014. Aqui, esse excesso apareceu elevado ao quadrado - não sabemos se ingênua ou propositadamente - pelo setor público atual.

Em geral, sempre são estabelecidos prazos para a conclusão de um projeto, plano ou programa, mas que sabidamente nunca são (e serão) cumpridos. Isso sem falar dos orçamentos dos projetos de infraestrutura, que costumam ser subestimados no custo e superestimados na demanda. A questão do sobrecusto e sobredimensionamento das infraestruturas é uma constante na história da humanidade, o que mostra que o excesso de otimismo é, na verdade, estrutural (e não conjuntural).

E se o problema é crônico nas obras de infraestrutura e serviços públicos para a Copa, em programas governamentais semelhantes não poderia ser diferente. A título de ilustração, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2012, previa que os Municípios acabassem com os seus lixões até agosto de 2014 e os substituíssem por disposições ambientalmente adequadas (como os aterros). Pouco foi feito até então.

Outro caso é o da iluminação pública: uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica de 2010 previa que os ativos relativos ao serviço seriam transferidos para gestão municipal até 31 de janeiro de 2014. Não tendo cumprido o referido prazo no último ano, os Municípios receberam uma extensão para até 31 de dezembro de 2014. Quem não duvida que, chegando o prazo fato, teremos uma nova extensão até 2015?

A "bola da vez" é a Política Nacional de Mobilidade Urbana: os Planos de Mobilidade Urbana deverão ser integrados aos planos diretores municipais até janeiro de 2015, sob pena de os Municípios ficarem impedidos de receberem recursos orçamentários federais destinados à mobilidade urbana. Estaremos nós muito otimistas?

À primeira vista, pode parecer que a questão do excesso de otimismo é um problema de gestão municipal ineficiente. Porém, ao analisarmos os balanços de realização das obras de infraestrutura destinadas à Copa, verificamos que o excesso de otimismo ocorre em todas as esferas federativas. Afinal, quem não se lembra do lendário trem-bala que estaria pronto para fluminenses conseguirem assistir à abertura da Copa em São Paulo, e paulistas assistirem à final do Mundial no Rio de Janeiro? Atento a isso, alguns internautas já organizaram nas redes sociais um evento comemorativo de sua fictícia inauguração para o próximo1º de junho de 2014.

O potencializado excesso de otimismo no Brasil acaba não conduzindo a uma "falácia", mas sim a uma total ausência de planejamento: nesse ambiente de caos das políticas públicas, qualquer pequena realização concluída acaba sendo bem-vinda (e amplamente explorada na publicidade governamental). O exemplo dos estádios de futebol está aí para comprovar que, por detrás de um pretenso atendimento (com atrasos) ao calendário, o custo acabou sendo totalmente negligenciado, transformando algumas das principais capitais do País em um verdadeiro safári de paquidermes albinos.

Da mesma forma que o subutilizado Ninho de Pássaros virou um monumento para atração turística no final dos tours para a Grande Muralha da China, talvez a Arena da Amazônia siga essa vocação turística e seja o último ponto de parada depois do famoso Encontro das Águas. Para que não sofra o mesmo triste fim que o Pontiac Silverdome de Detroit (palco de jogos da Copa do Mundo de 1994) terá em breve com o leilão do que sobrou do estádio, vamos torcer para que o São Raimundo e o Nacional cheguem, em breve, à Série A do Campeonato Brasileiro. Ou isso também seria um excesso de otimismo?

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