OPINIÃO
19/09/2014 17:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Lupicínio Rodrigues era gremista... e negro

Na semana em que compositor celebrou 100 anos de seu nascimento, o clube que adotou seus versos e que abrigou sua inspiração se vê envolvido na maior polêmica envolvendo a questão racial, a negritude, em sua história.

Divulgação

Lupicínio Rodrigues, um dos grandes ícones do samba, completaria 100 anos no último dia 16, sendo sua obra um verdadeiro patrimônio de nossa cultura popular. Autor de clássicos como "Felicidade", "Se acaso você chegasse" (com Felisberto Martins) e "Nervos de Aço", compôs, além de sambas, inúmeras marchas e sambas-canções, estes muitas vezes carregados de melancolia, que o fez ser considerado o inventor do termo "dor de cotovelo" na música popular brasileira.

Em 1953, a greve de bondes que atingiu a cidade de Porto Alegre inspirou o compositor gaúcho a criar uma singela homenagem ao seu clube do coração, o Grêmio. Traçando os versos da canção em um papel de guardanapo e valendo-se de uma caixinha de fósforos para dar ritmo à inspiração, Lupicínio compôs os lendários versos "até a pé nos iremos para o que der e vier, mas o certo e que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver". A forte identificação da música com os gremistas fez com que ela se tornasse o hino do clube, tornando o sambista gaúcho um "imortal" gremista.

Lupicínio era gremista. Lupicínio era negro. E na semana em que compositor celebrou 100 anos de seu nascimento, o clube que adotou seus versos e que abrigou sua inspiração se vê envolvido na maior polêmica envolvendo a questão racial, a negritude, em sua história.

Nesta quinta-feira, a Arena Grêmio recebeu o goleiro Aranha pela primeira vez após o incidente ocorrido na partida de ida das oitavas de final da Copa do Brasil, quando o santista sofreu ofensas raciais. E enquanto o atleta aquecia-se no gramado, antes da partida, e a banda da Polícia Militar do Rio Grande do Sul interpretava músicas de Lupicínio, comemorando seu centenário, os torcedores gremistas vaiavam o atleta, chamando-o de "veado" e "filho da puta".

Uma recepção hostil a um atleta que denunciou o racismo e fez o clube gaúcho ser punido com a exclusão da Copa do Brasil. Os apupos não foram apenas vaias "normais" de torcedores para um atleta de um time rival. Foram vaias que endossaram o comportamento abominável de torcedores racistas. E se no primeiro encontro de Aranha com os gremistas, apenas um pequeno grupo de torcedores o ofenderam com xingamentos racistas, desta vez foi um público bem mais amplo, praticamente o estádio todo, que o vaiou, manchando a história centenária do clube.

Qual seria o motivo das vaias a Aranha? Será que os torcedores concordavam com o ex-presidente do clube Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, que xingar alguém de "macaco" faz parte do "folclore do futebol" e que a reação do atleta às ofensas racistas não passavam de uma "cena teatral"? Será que eles realmente acreditavam nisso? Ou será que estavam acatando o pedido de Felipão que, na véspera, pediu para os jornalistas não "caírem na esparrela" do goleiro novamente?

"É triste, parece que eles concordam com tudo o que aconteceu. Tenho que fazer minha parte. Estou tranquilo, sou profissional. Mas que é triste, é triste", afirmou Aranha, ainda no intervalo da partida desta quinta-feira. "Não ligo para vaia, mas não temos que ser hipócritas. Todo mundo sabe que a vaia hoje foi diferente, por tudo o que aconteceu no outro jogo", completou.

Mas o pior ainda estaria por vir. Ao fim da partida, o atleta foi questionado por repórteres se não achava ser normal ser vaiado. "Você acha normal?" retrucou, visivelmente ofendido.

Vaias nunca são gratuitas. Às vezes são destinadas a um jogador que "virou a casaca" e, de ídolo da torcida, tornou-se um odiado rival. Outras vezes são oferecidas àquele atleta da própria equipe que há tempos não faz uma boa partida. Sempre, porém, há uma explicação para elas. Neste caso, a torcida gremista "acusou" Aranha de ter sido o "culpado" pela exclusão do time da Copa do Brasil. Em uma estúpida inversão de valores, Aranha deixou de ser vítima para se tornar algoz.

Ao não encampar a luta contra o racismo e até mesmo potencializá-lo em uma partida que poderia servir de "redenção" para o Grêmio, a torcida gremista joga no lixo uma história de relação de amor com ídolos negros, atletas que ajudaram a pavimentar o caminho de glórias da agremiação. Denner, Tarcísio Flecha Negra, Tinga, Everaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roger, Emerson e Aílton são alguns destes ídolos negros gremistas, estampados em bandeiras e pavilhões, eternizados no coração dos torcedores.

O diretoria do clube, cabe ressaltar, apressou-se em exaltar a relação do Grêmio com atletas negros ao longo de sua história logo após o incidente ocorrido na primeira partida entre Grêmio e Santos em Porto Alegre. "Sou azul, preto e branco", foi o mote da campanha, que reforçava a tolerância racial e lembrava a declaração do cantor e compositor Gilberto Gil, que certo dia afirmou torcer pelo clube no Rio Grande do Sul pelo seguinte motivo: "Sou gremista porque o céu é azul, a paz é branca e eu sou preto".

Segundo o censo de 2010, apenas 16,2% da população gaúcha declarou-se "preto" ou "pardo", índice superior apenas a Santa Catarina. Os recentes episódios que envolveram o Grêmio com agressões racistas talvez possam servir de reflexão a respeito do tema da negritude no Rio Grande do Sul.

O negro da bandeira gremista vem sendo vilipendiado nas últimas semanas. Estaria caminhando o clube para deixar de ser tricolor, tornando-se apenas alvi-celeste, como a Argentina e o Uruguai, países cuja demografia também apontam um baixo índice de negros? Cabe aos próprios gremistas mostrarem que não. A lembrança de Lupicínio, em tempos de celebração de seu centenário, quem sabe, não possa reforçar no pavilhão do Grêmio, a cor de sua pele.

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