OPINIÃO
03/10/2014 11:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Disrupção Eleitoral

divulgação

"A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos" (tradução livre). A reflexão do britânico Winston Churchill datada de 1947 nunca pareceu tão contemporânea já que os sinais de fadiga do atual modelo levam a pensar que realmente é chegada a hora de algo novo.

No entanto, em que pese o aparente pessimismo do britânico, há atualmente um convite à inovação e experimentação de caminhos democráticos que respondam à nova cidadania e ao espírito dos tempos. Nesse sentido, as eleições certamente abrem um campo de teste atraente na direção dessa experimentação. E várias iniciativas tem se apresentado para o desafio.

Ao redor do mundo o processo democrático tem funcionado como um celeiro de startups cívicas com as mais diversas soluções. O fenômeno começou a ganhar força nas eleições presidenciais americanas de 2008 quando o então desconhecido candidato Barack Obama contou com o suporte de diversas startups que alavancaram o impacto da campanha política do candidato democrata. Mais recentemente nas eleições da Índia em 2014, várias startups foram responsáveis por disponibilizar ferramentas tecnológicas que informassem e incentivassem, especialmente, mais de 150 milhões de eleitores jovens entre 18 e 23 anos que, pela primeira vez, poderiam exercer seu direito ao voto.

No Brasil, a situação não é diferente. Desde a última eleição presidencial de 2010, é crescente

o número de startups cívicas e políticas que fazem uso da tecnologia para desenhar soluções que de alguma forma facilitem a vida dos eleitores, qualifiquem e aperfeiçoem o processo de escolha dos nosso representantes. As eleições de 2014 contribuíram para acelerar algumas novas startups, como o divertido Voto x Veto (também conhecido como o Tinder das eleições), a Politize, um portal de educação política que aposta no conteúdo de alta qualidade para cidadãos engajados com a transformação do país, além do Projeto Brasil, plataforma que oferece ao eleitor a possibilidade de conhecer, avaliar e comparar propostas dos vários candidatos à Presidência da República e já acumula quase 800 mil avaliações realizadas no site. Curiosamente, essa última recebeu um aporte de capital semente de um programa governamental de aceleração de startups, o SEED - Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development.

Além da tecnologia, muitas das soluções dessas startups buscam interfaces simples e amigáveis e uma cuidadosa arquitetura de informações que facilite a interação, simplifique a compreensão e, principalmente, ajude o processo decisório desses eleitores. Segundo Cesar Hidalgo, cientista do MIT Media Lab, as possibilidades de amplificar a democracia através da tecnologia necessariamente passam pela superação do "desafio dos 30 cm", em alusão à distância que separa os olhos de um cidadão da sua tela de computador para interpretar dados e informações relevantes. De fato, a tecnologia eleva essa possibilidade a um outro campo de jogo criando condições para a verdadeira renovação da democracia em larga escala no futuro.

O Brasil que já produziu evoluções importantes no processo democrático, como o orçamento participativo nos anos 90 e mais recentemente o uso extenso da urna eletrônica, tendo inúmeras outras inovações surgido ao longo desse período. Nessa experimentação, seria o país mais uma vez forte candidato a iniciar uma nova onda de inovação na democracia com nossas startups cívicas? Quem sabe? :)

*Post em colaboração com a amiga Izabela Corrêa, doutoranda em Ciência Política pela London School of Economics and Political Science (LSE) e especialista em 'transparência pública', além de co-Fundadora do Projeto Brasil.

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