OPINIÃO
30/10/2018 07:44 -03 | Atualizado 30/10/2018 07:45 -03

Polarização transforma 'amigos' em haters compulsivos

Não há sentido em manter-se vinculado a pessoas tóxicas, sabendo que a incitação de sua raiva é um dos objetivos do algoritmo.

MaryValery via Getty Images
Haters compulsivos destilam fúria maníaca pelas redes sociais.

Um fenômeno que já se tornou folclórico no Facebook é a aparição inesperada de antigos amigos, ou de colegas que você não via há anos, mas que, de repente, ficam obcecados com seus posts e se tornam insistentes, implicantes, aborrecidos, antipáticos, malcriados e progressivamente agressivos. Alguém já se deparou com essas criaturas?

Debates democráticos sobre as diferenças são muito estimulantes. Mas o padrão que tenho observado é uma compulsão doentia que, além de não tornar as nossas vidas digitais melhores e mais criativas, se corrompe em um inútil e desagradável desperdício de tempo.

A dinâmica funciona mais ou menos assim: um indivíduo qualquer, que a gente nem se lembrava mais que existia — porque, até então, estava fora das nossas bolhas — aparece de surpresa com um comentário indignado em algum de nossos posts. Por educação, a gente responde. Em seguida ele reaparece com uma provocação. Por civilidade, a gente ignora.

Mas depois ele aparece com ironia. Depois com sarcasmo. Quando chega neste ponto, a gente apenas toma o cuidado de clicar na opção para deixar de segui-lo, na esperança de que ele fique fora do alcance dos algoritmos que regem o nosso universo particular e nos deixe em paz.

Ressentido com o nosso silêncio, porém, o outro se torna um maníaco passivo-agressivo, tal como um Dr. Jeckyl se decompondo progressivamente em um Mr Hyde. Lamenta que você não pensa como ele, expressa que está decepcionado... E assim ele começa a mandar memes para ridicularizá-lo. Começa a bater boca com os seus amigos nos comentários de seus posts. Até que, enfim, dá vazão às suas mágoas.

E aí a fúria se torna definitivamente maníaca. O antigo amigo ou colega se torna um stalker histérico e odioso em um frenesi insuportável. Sei que deve ser uma espécie de doença temporária das eleições. Mas a vida é muito curta para ser desperdiçada com esse apocalipse zumbi, não é?

Enfim, temos que nos lembrar sempre que bloquear gente esquisita no Facebook não faz mal a ninguém. Ao contrário: faz bem a ambos. O maníaco vai se sentir melhor, porque não vai sofrer ao ler os seus posts. E você não vai mais se aborrecer com a compulsão do outro que drena a sua energia ao reivindicar a sua atenção. É preciso lembrar que isso não tem nada a ver com intolerância às diferenças. Ao contrário, é um procedimento profilático que deve ser empregado precisamente para garantir um ambiente de diálogo plural e respeitoso.

Felizmente, essa doença contagiosa não infecta os verdadeiros amigos, ou tampouco aqueles que se respeitam na vida real. Também não contamina aqueles que, por reconhecer as virtudes do outro, optam por deixá-lo à vontade quando expressam opiniões politicamente antagônicas em seus próprios perfis nas redes sociais. Sim, em vez da opção pela grosseria, existe a opção pelo respeito.

Há quem diga que a discussão política não pode servir de pretexto para destruir amizades. Concordo. O que está em questão, contudo, é o próprio conceito de amizade artificial que as redes sociais promovem para garantir mais lucros.

Não há sentido em manter-se vinculado a pessoas tóxicas, sabendo que a incitação de sua raiva é um dos objetivos do algoritmo programado para motivar e ampliar a sua frequência nessas plataformas de coletas de dados e de propaganda. E além disso, às vezes, é melhor se desconectar daquele "amigo estranho" que você não conhece mais, até para manter a memória feliz do antigo amigo da infância.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.