OPINIÃO
22/03/2016 13:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Em tempos de crise política, Justiça e democracia existem nas redes sociais?

Não importam as provas. Não importa a Justiça. Na retórica dos "cyber-rábulas", se é amigo, é inocente, mesmo que provem o contrário. Se é adversário, é culpado, mesmo se mais tarde for inocentado. Mas como, na prática, não houve sequer julgamento formal, o suspeito naturalmente não é punido pela justiça - às vezes até porque a falta de provas tornou a denúncia inconsistente e revelou apenas a tentativa de difamação. Ainda assim, a imagem do inocentado é sumariamente linchada pelo público adversário. Isso não é justiça. É barbárie. É injustiça. Temos que sair dessa armadilha.

danleap via Getty Images
Democracy and Disagreement.

O que fazer quando é impossível defender um governo desastroso, mas é também impossível confiar e, pior ainda, apoiar uma oposição igualmente corrupta que quer tomar o poder para obter impunidade?

A resposta não é tão difícil assim. A solução é apoiar de forma incondicional a Democracia, a Justiça e o Estado de Direito para fortalecer a capacidade da sociedade de corrigir os seus próprios erros de forma democrática, justa e civilizada.

O que isso significa, em tempos de redes sociais?

Em primeiro lugar, não podemos fingir que não sabemos que as redes sociais estão "envenenadas" por uma prática recorrente de calúnias e difamações. Essa prática vem das assessorias dos partidos, de militantes voluntários, blogueiros amadores e profissionais, e também de cidadãos simpatizantes de todos os partidos e ideologias, sem exceção, incluindo é claro o PT, o PSDB e as demais agremiações de esquerda e de direita, além dos movimentos supostamente apartidários.

Em uma palavra, o debate sobre as ideias políticas tem sido sobrepujado por memes, páginas, comunidades e blogs de difamação. Como vemos, isso chegou à imprensa, que inclui esse artifício na pauta e alimenta o ciclo de desinformação sob o discurso da neutralidade da notícia.

Não podemos ser cínicos nem ingênuos na nossa relação ativa com a Internet. Cínicos ao produzir ou compartilhar conteúdos traiçoeiros que visam apenas caluniar o adversário para puni-lo com as nossas próprias mãos - ou melhor, com o nosso próprio clique; ou ingênuos ao formar nossa opinião a partir desse material falsificado.

Por exemplo: quem não é petista percebe com mais clareza que qualquer crítico que se contrapõe ao PT é enxovalhado e pintado como fascista, elitista e golpista pelos governistas. Petistas têm mais dificuldade para enxergar os seus próprios haters porque não são alvo deles.

Do outro lado, quem se arrisca a defender uma sociedade mais justa, a criticar todos os tipos de discriminação e a pensar formas de corrigir as desigualdades de oportunidades é imediatamente acusado por antipetistas de ser petralha, comunista assassino e cúmplice da corrupção. Mesmo se você não é petista, mesmo se você critica o PT.

Tanto governistas caluniadores como antipetistas histéricos se igualam nessa campanha de difamação que não ajuda nada e só atrapalha. Ambos são igualmente nocivos para o debate político no Brasil. Ambos têm as mesmas justificativas para perpetuar a deslealdade: o outro lado faz igual. Assim, ambos reproduzem o mesmo erro e corroem a possibilidade de construir um clima de lealdade democrática para que os antagonismos sejam claros.

Ao perceber que ficamos reféns da absoluta falta de regras que caracterizam esse jogo de difamação, é preciso tomar consciência de que essa barbárie produz injustiça, pois promove a obsessão pelo linchamento público - metafórico e às vezes literal - no lugar da justiça. Promove o ódio ao adversário em substituição à política - que foi desenvolvida precisamente para que partidários possam discordar com liberdade, expor seus antagonismos com clareza e disputar naquilo em que divergem.

Sabemos que quando um político ou militante quer difamar o adversário para se beneficiar, ele inventa boatos, distorce uma declaração, descaracteriza uma suspeita e espalha conteúdos mal-intencionados para blogs e para as mídias do seu círculo de influência (isso quando eles mesmos não são os detentores dessas mídias), mídias essas que, além de corações e mentes, estão sempre ávidas por audiência e por cliques. (O livro Acredite, Estou Mentindo: Confissões de Um Manipulador Das Mídias, de Ryan Holiday, explica em detalhes os bastidores dessa dinâmica).

Além disso, as redes sociais estão repletas de sites e blogs desconhecidos que se aproveitam da justa indignação das pessoas e veiculam boatos forjados por eles mesmos para conquistar o clique e lucrar com anúncios, sem se importar com a desinformação.

Consequentemente, quando clamamos por Justiça, aquilo que deveria ser o ponto de partida para uma investigação da polícia, para que, a partir das provas do crime, o suspeito tenha condições de se defender no julgamento e provar a sua inocência - ou então, caso seja condenado, seja punido de acordo com a lei - em vez disso as redes sociais distorcem o senso de justiça, desvalorizando o que prejudica e superdimensionando o que beneficia, tudo em nome de objetivo de caluniar a difamar. Cada um se torna um "cyber-rábula" voluntário, advogando em favor de seu personagem político predileto e contra aqueles por quem nutre antipatia.

Não importam as provas. Não importa a Justiça. Na retórica dos "cyber-rábulas", se é amigo, é inocente, mesmo que provem o contrário. Se é adversário, é culpado, mesmo se mais tarde for inocentado. Mas como, na prática, não houve sequer julgamento formal, o suspeito naturalmente não é punido pela justiça - às vezes até porque a falta de provas tornou a denúncia inconsistente e revelou apenas a tentativa de difamação. Ainda assim, a imagem do inocentado é sumariamente linchada pelo público adversário.

Isso não é justiça. É barbárie. É injustiça. Temos que sair dessa armadilha.

Há um ditado cínico que diz assim:

"Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei." No nosso caso, é pior ainda. É mais ou menos assim: "Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a injustiça." Se não gosto dele, ele é ladrão.

Não se constrói uma democracia sólida sobre essas bases. Há motivos consistentes que demonstram a importância de a justiça ser igual para todos. Culpado é quem foi investigado, denunciado a partir das provas do crime, julgado, defendido e, se for o caso, condenado e punido pela Justiça. Porque quando esse processo não acontece, todos ficamos reféns de uma sociedade na qual quem tem poder conquista o privilégio de cometer injustiças, impunimente.

Era assim na ditadura. E o regime militar só foi possível porque também contava com o apoio de brasileiros que compartilhavam a moral de "que quem tem poder pode tudo". Até suspender a lei, torturar suspeitos e assassinar adversários.

Esse modus operandi autoritário está presente na nossa cultura até hoje. Se você tem um "pistolão", você se salva, você consegue o emprego, você fica impune. "Não dá nada não, o outro é um pobre coitado." Muitos apelidaram esse tráfico de influência a partir da ironia do "Q.I.", que no Brasil costuma querer dizer: "Quem Indica."

Isso é um pensamento absolutamente antiliberal, antidemocrático e autoritário.

Nessa tradição autoritária brasileira, o aspirante a algum privilégio deve buscar auxílio de amigos poderosos para furar a fila de espera e resolver o seu problema pessoal, na frente dos outros e em detrimento deles. É o vereador que dá um jeitinho para você poder driblar a lei.

O cidadão tem o direito, mas o Estado não consegue atender todo mundo. No raciocínio autoritário à brasileira, você deve "se virar" para obter um favorecimento de um conhecido influente para que aquele direito desigualmente distribuído se torne um privilégio para você. E quem não tem amigos poderosos, que se lasque!

É a moral da máfia.

A moral do traficante.

Quem é mais forte faz a lei. O mundo é dos espertos. É a moral do crime corrompendo a ética da justiça. Em vez de lutar por direitos, os cidadãos aprendem a tramar por privilégios.

E outra: essa é a cultura que legitima aquele estado totalitário em que basta suspeitar de alguém para condená-lo. Basta não gostar de alguém para acusá-lo. E se você for poderoso, ou conhecer um poderoso, você conquista o privilégio de destruir a vida de uma pessoa inocente, injustamente. É a vingança substituindo a justiça. E como você "pode", você "faz". Há um meme recente para isso: "Fiz porque quis".

É isso que está em jogo quando os cidadãos abrem mão de defender a democracia para fazer "qualquer coisa" para destruir aquele que não gosta. Quando o cidadão é convencido de que vale abolir as regras para não só vencer, mas aniquilar o adversário, que passa a ser visto como inimigo.

Valores democráticos devem ser o princípio de qualquer ação politica. Tramar pela corrupção desses valores, seja para manter o poder, seja para toma-lo, gera como consequência uma cultura política que se volta contra os próprios cidadãos que destruíram esses valores. Principalmente os cidadãos mais frágeis, que não têm privilégios para se defender.

O apoio decisivo à democracia, à Justiça e ao Estado de Direito é um valor muito maior do que Dilma, Lula, Temer, Cunha, Aécio, PT, PMDB, PSDB ou qualquer outro personagem, partido ou movimento.

Será a defesa e o fortalecimento desses valores que oferecerão a oportunidade histórica de a sociedade brasileira se mostrar melhor do que os seus políticos.

***

Nesta série de vídeos, explico as narrativas que as propagandas ideológicas empregam para construir mitos políticos. Compreender essa dinâmica de demonização do inimigo e sacralização dos próprios heróis é uma forma interessante de analisar parte dos ódios políticos que experimentamos em tempos de crise. Veja a série completa aqui -->https://goo.gl/Nn5J0o

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