OPINIÃO
11/08/2015 16:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A vida não é um post

Curtis Simmons/Flickr

Visibilidade.

Mensagens diárias, dezenas, de pessoas agradecendo pelos meus posts. Diziam que a vida delas tinha mudado, que era isso que precisavam ler, que eu era uma inspiração.

Lia muitas mensagens, algumas vezes, sentado no chão do quarto sozinho, entre mil problemas da vida real.

A vida não é um post.

A relevância nas redes é o novo CD que todo pagodeiro queria gravar na década de 90, a festa de 15 anos com book que a mãe queria pra filha, a relevância is the new gold.

Mas qualquer um consegue, acredite. Uma história comovente roda as redes, nesse caso, me refiro ao Facebook, onde comecei a escrever em 2011.

No começo, 2 likes. Depois, e por um bom tempo, 3, 4. Alguns anos observando o que as pessoas curtiam e gostavam de ler e pimba: nas 3 últimas semanas de julho de 2015, eu estava com um alcance de 50 mil pessoas, com 12 mil likes somados em todos os posts de um período de 15 dias e mais de 4 mil compartilhamentos de conteúdo que eu mesmo aprendi a produzir com palavras e narrativas.

Um dos textos que promoveu essa escalada foi sobre o Olympe, o dia em que Claude Troisgros me deu de presente um jantar de aniversário. Inclusive, fui convidado a escrever no Brasil Post por conta desse texto. A repercussão foi assustadora: 10 mil likes no post, 26 mil em compartilhamentos.

Entrou gente pra caramba no meu perfil. Solicitações de amizade que levaram meses pra eu conseguir clicar em todas. Fui na Fátima Bernardes falar do texto.

E outras coisas que escrevia davam 400, 500, 700, 1.300 likes, com frequência.

E foi nesse momento que decidi encerrar o expediente.

Entenda: a visibilidade te aprisiona.

Como diz Racionais: Sucesso demais é cão.

As pessoas queriam novos textos, parecidos com o Olympe. Queriam narrativas emocionantes. Queriam romances.

Mas é aí que a coisa pegou. Eu não vivo em restaurantes caros, vivendo histórias de amor, de lágrimas e whatever. Eu sou um cara do subúrbio, morei em favela, a vida é uma luta diária pra manter projetos que desenvolvo e provavelmente, no momento em que escrevo este texto, esses projetos estão sem recursos para 2016, e provavelmente serão fechados.

Pautas LGBT, pautas de minorias, que é o que gosto de escrever, ofendiam as pessoas que queriam um Olympe 2.0. Teve gente dizendo até que eu "deveria ser grato ao Claude por ser visível".

Gente. É o inverso. Eu que escrevi, no meu perfil, sobre o Claude.

Fui eu que narrei. Se eu não tivesse dito, ele muito menos. Porque ele não fez isso por mídia.

Claude foi muito discreto em tudo, depois da repercussão.

Gregório Duvivier, caras. Gregório Duvivier me enviou uma solicitação de amizade. Chupa e engole, mané.

Mas, não fazia mais sentido tanta visibilidade, sem uma definição clara de para quem eu estava escrevendo. Tinha muita gente homofóbica. Tinha muita gente preconceituosa. Quando eu percebi que o cara que amava meus textos era também fã de Malafaia e Olavo de Carvalho, entrei em pânico.

Ok. Na comunicação de massa, você nunca vai controlar as pessoas. Mas você pode se auto definir.

Numa manhã de julho eu respirei profundo, fiz um backup de todos os meus posts, e fechei meu perfil. Na verdade, o transformei em página, em perfil público.

Não via mais timeline. Não era mais visto pelas pessoas, por causa das políticas do Facebook, que incentivam o pagamento para que o conteúdo seja visto, coisa que eu não faço porque qualquer 5 merréis pra mim é uma passagem de trem e sobra uma grana pra bananada.

Abri um outro perfil, com 109 pessoas com as quais realmente me conecto diariamente. Amigos.

Eu tenho 109 amigos.

Minha timeline tá linda. Tenho privacidade. E aprendi a usar a página pública para afinar o discurso sobre minorias, crônicas sobre o Rio, ideias que eu tenho sobre sociedade.

Os posts antigos, devo publicar um livro, quando tiver tempo de fazer uma seleção.

Os primeiros dias sem relevância foi como estar morto entre os vivos. É uma sensação muito estranha. Fui desintoxicando e percebi que o Facebook é uma ferramenta que não é para amadores.

A sensação de poder, de visibilidade, a super-estima, isso vai criando dependências e prejuízos psicológicos na rapaziada.

Ninguém é mais importante no mundo, apenas porque posta uma foto e ganha 10 mil likes. Ou porque fala algo, e ganha 50 mil.

O mundo, aqui fora, as importâncias, são diferentes.

Comecei a ver várias militâncias que só existem mesmo na timeline. Comecei a ver com malícia essa parada toda da comunicação.

Mas, não demonizo. Quem usa o Facebook, somos nós.

Hoje, valorizo meus textos, e prefiro me organizar para escrever de 15 em 15 dias no Brasil Post, que todos os dias, ideias esquizo, que se perdem no barulho, na correria, no metrô, no like.

Nos vemos daqui 15 dias.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: