OPINIÃO
09/09/2014 17:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

"O cara que divulgou as fotos tá errado, mas ninguém manda tirar foto pelada!"

Embora os estupros raramente tenham qualquer coisa a ver com o comportamento ou vestimenta da vítima, as campanhas de conscientização são voltadas para as mulheres e trazem de "não faça algo que poderia levá-la a ser violentada".

Model:Aly Rae SantosAD:Christine Marie KatasMUA:FeraleneandShiran Yamen-MariasovHair:Dean SprouleCamera: Nikon D300 Digital SLRNikon 35-135mm f/3.5-4.5 AFStrobist: Elinchrom BX500Ri in 66 cm Portalite softbox, above the subjectElinchrom BX500Ri in a Octa Light Bank 74", left of the subjectDescription: Usually I don't post images from work, but these are from a recent Creative Commons project for the Voices For Dignity organization. The intention of this project is to provide resources for bloggers and journalists seeking visual tools to impact change. Share the message.A fantastic day shooting I will never forget. Fantastic working with the crew, models, and other photographers. This is Aly, I've photographed her and posted here. Her makeup seemed to be coming off by the time she got to my camera. I want to shoot more film with her soon, what a great model!Links:Follow ontwitterLike onfacebookVisit todayVoices For Dignity" data-caption="Model:Aly Rae SantosAD:Christine Marie KatasMUA:FeraleneandShiran Yamen-MariasovHair:Dean SprouleCamera: Nikon D300 Digital SLRNikon 35-135mm f/3.5-4.5 AFStrobist: Elinchrom BX500Ri in 66 cm Portalite softbox, above the subjectElinchrom BX500Ri in a Octa Light Bank 74", left of the subjectDescription: Usually I don't post images from work, but these are from a recent Creative Commons project for the Voices For Dignity organization. The intention of this project is to provide resources for bloggers and journalists seeking visual tools to impact change. Share the message.A fantastic day shooting I will never forget. Fantastic working with the crew, models, and other photographers. This is Aly, I've photographed her and posted here. Her makeup seemed to be coming off by the time she got to my camera. I want to shoot more film with her soon, what a great model!Links:Follow ontwitterLike onfacebookVisit todayVoices For Dignity" data-credit="dualdflipflop/Flickr">

"É claro que o cara que estuprou é o culpado, mas as mulheres também ficam andando na rua de saia curta e em hora errada!"

"O hacker que roubou as fotos dessas celebridades nuas está errado, mas ninguém mandou tirar as fotos!"

"Se você trabalhar duro vai ser bem-sucedido, não importa quem você seja. Quem morreu pobre é porque não se esforçou o bastante."

Você sabe o que essas afirmações têm em comum?

Há algum tempo falei aqui sobre como os humanos têm diversas formas de se enganar em relação à ideia que têm de si mesmos, quase sempre para proteger sua autoestima ou para saciar sua vontade de estar sempre certos. Mas nosso cérebro não nos engana só em relação a como vemos a nós mesmos: temos também a tendência de nos iludir em relação aos outros e à vida em geral. E as frases acima exemplificam uma maneira como isso pode acontecer: por meio da falácia do mundo justo.

Por exemplo, embora os estupros raramente tenham qualquer coisa a ver com o comportamento ou vestimenta da vítima e sejam normalmente cometidos por um conhecido e não por um estranho numa rua deserta, a maioria das campanhas de conscientização são voltadas para as mulheres, não para os homens - e trazem a absurda mensagem de "não faça algo que poderia levá-la a ser violentada".

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Muitos estudos revelam outras formas de culpabilização da vítima. Em 1966, os pesquisadores Melvin Lerner e Carolyn Simmons pediram a 72 mulheres para assistir a uma atriz resolvendo problemas e recebendo choques elétricos (que eram de mentirinha, mas elas não sabiam) quando errava. Ao final do experimento, as mulheres tiveram de descrever a atriz - e muitas a desvalorizaram, criticando seu caráter e aparência e dizendo que ela havia merecido os choques.

O mesmo aconteceu em questões relacionadas a dinheiro. Lerner fez outro experimento, desta vez com dois homens resolvendo quebra-cabeças. Ao final, um deles recebeu uma grande quantia de dinheiro. O prêmio foi totalmente aleatório, e isso foi dito aos observadores. Mesmo assim, quando tiveram de avaliar os dois homens, eles disseram que quem havia recebido o prêmio era mais inteligente, mais talentoso, melhor em resolver quebra-cabeças e mais produtivo.

De lá para cá, muita pesquisa foi feita e obteve resultados semelhantes. Em um estudo sobre bullying feito em 2010 na Universidade Linkoping, na Suécia, 42% dos adolescentes culparam a vítima por ser "um alvo fácil".

Para os pesquisadores, esses julgamentos estão relacionados à noção - amplamente difundida na ficção - de que coisas boas acontecem a quem é bom e coisas más acontecem a quem merece. A tendência a acreditar que o mundo é assim é chamada, na psicologia, de falácia do mundo justo. "Não importa quão liberal ou conservador você seja, alguma noção dela entra na sua reação emocional quando ouve sobre o sofrimento dos outros", diz o jornalista David McRaney no livro Você não é tão esperto quanto pensa. Ele acrescenta que, embora muitas pessoas não acreditem conscientemente em carma, no fundo ainda acreditam em alguma versão disso, adaptando o conceito para a sua própria cultura.

E dá para entender por que somos levados a pensar assim: viver em um mundo injusto e imprevisível é meio assustador e queremos nos sentir seguros e no controle. O problema é que crer cegamente nisso leva a ainda mais injustiças, como o julgamento de que pessoas pobres ou viciadas em drogas são vagabundas e têm mais é que se ferrar, que mulher de roupa curta merece ser maltratada ou que programas sociais são um desperdício de dinheiro e uma muleta para preguiçosos. Todas essas crenças são falaciosas porque partem do princípio de que o sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece.

É importante notar que não estamos falando aqui sobre consequências de ações: se você não trabalha ou gasta todo o seu dinheiro com coisas inúteis, é bem provável que acabe sem grana nenhuma; se for escroto com todo mundo, é bem provável que tenha muita dificuldade em ter amigos de verdade - são escolhas ruins que costumam levar a resultados ruins. O problema é que, nesse caso, a falácia do mundo justo desconsidera os inúmeros outros fatores que influenciam quão bem-sucedida a pessoa vai ser, como o local onde ela nasceu, a situação socioeconômica da sua família, os estímulos e situações pelas quais passou ao longo da vida e o acaso. Programas sociais e ações afirmativas não rompem o equilíbrio natural das coisas, como seus críticos podem crer - pelo contrário, a ideia é justamente minimizar os efeitos da injustiça social. Uma pessoa extremamente pobre pode virar a dona de uma empresa multimilionária, mas o esforço que vai ter de fazer para chegar lá é muito maior do que o esforço de alguém nascido em uma família rica que sempre teve acesso à melhor educação e a bons contatos. "Se olhar os excluídos e se questionar por que eles não conseguem sair da pobreza e ter um bom emprego como você, está cometendo a falácia do mundo justo. Está ignorando as bênçãos não merecidas da sua posição", diz McRaney.

Em casos de abusos contra outras pessoas, como bullying ou estupro, a injustiça é ainda maior, pois eles nunca são justificados — e aí a falácia do mundo justo se mostra ainda mais perversa. Portanto, toda vez que você se sentir movido a dizer coisas como "O estuprador é quem está errado, é claro, mas...", pare por aí. O que vem depois do "mas" é quase sempre fruto de uma tendência a ver o mundo de uma forma distorcida só para ele parecer menos injusto.

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