OPINIÃO
08/03/2016 15:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Pra não dizer que não falei das flores

Não somos contra as flores. Muitas de nós gostamos receber flores em qualquer ocasião. Mas de que adianta flores, se a desigualdade permanece, se somos violentadas diuturnamente. De que adianta receber flores se não somos respeitadas? De que adianta flores se o nosso discurso é banalizado? O Dia Internacional das Mulheres ainda é para nós um dia de luta, um dia de marcha, um dia de indignação.

Dimitri Otis via Getty Images
paper cutout men and women

O dia 08 de março é conhecido mundialmente como o Dia Internacional da Mulher.

Como muitas pessoas devem saber, essa data foi oficializada pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) em 1975, entretanto, desde o final do século XIX, em alguns países já havia a ideia de um dia dedicado a luta das mulheres.

Muitos acontecimentos, em diversos países, como Alemanha, Áustria, Dinamarca, Estados Unidos, Suíça e Rússia, envolvendo as condições de trabalho da mulher demonstravam a importância de uma data relacionada a luta por direitos iguais entre homens e mulheres.

Mas um dos fatos que deu maior visibilidade a existência dessa desigualdade foi a tragédia ocorrida em 25 de março de 1911, quando 125 mulheres morreram em um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, nos Estados Unidos.

Esta fatalidade trouxe a tona as condições precárias que estas mulheres, grande parte pobres e imigrantes, trabalhavam.

Sabemos então que o dia 08 de março não deve ser encarado como um dia de celebração, mas deve ser sim lembrado como um dia de luta, de uma busca de igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Infelizmente, essa luta das mulheres, parece-nos inglória.

Mesmo depois de mais de um século de luta, as mulheres ainda não possuem os mesmos direitos.

O relatório "Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: Transformar as economias para realizar os direitos, da ONU Mulheres, por exemplo, apresentou que em média os salários das mulheres são 24% inferiores aos dos homens quando estes exercem a mesma função.

Mas as nossas diferenças não estão só nas relações de trabalho.

Estimativa feita pelo "Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil", alertou para o fato de ser a violência doméstica e familiar a principal forma de violência letal praticada contra as mulheres no Brasil, eis que o número de mortes violentas de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, enquanto o número de feminicídios de mulheres brancas diminuiu 9,8%.

Estes são apenas alguns números que demonstram o quanto vivemos em sociedade desigual.

E é por isso que a cada 8 de Março não queremos receber flores.

Não somos contra as flores.

Muitas de nós gostamos receber flores em qualquer ocasião.

Mas de que adianta flores, se a desigualdade permanece, se somos violentadas diuturnamente.

De que adianta receber flores se não somos respeitadas?

De que adianta flores se o nosso discurso é banalizado?

O Dia Internacional das Mulheres ainda é para nós um dia de luta, um dia de marcha, um dia de indignação.

Nossa luta por direitos iguais é antiga e contínua.

Muitas conquistas vieram, mas ainda não podemos parar.

Ainda precisamos de uma data para lembrarmos a toda a sociedade que a desigualdade nas relações de gênero é um problema de todo nós.

E que a sociedade só será mais justa, quando de fato alcançarmos direitos iguais.

Tudo isso, pra não dizer que não falei das flores.

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