Opinião

'Bom dia, linda!'

A história de Maria não é só dela. É a história de milhares de mulheres que há muito tempo deixaram de ocupar o espaço privado (ou seja, deixaram de se dedicar exclusivamente aos trabalhos domésticos) e passaram a ocupar, ainda que de forma singela, o espaço público (sim, pasmem, as mulheres hoje estudam e trabalham fora).
Esta postagem foi publicada na plataforma, agora fechada, do Colaborador do HuffPost. Os colaboradores controlam seu próprio trabalho, que são postados livremente em nosso site. Se você precisa denunciar este artigo como abusivo, envie-nos um e-mail.
Couple having a quarrel on a city street. Woman is standing half-turned to her boyfriend with a dissapointed look on her beautiful face
Couple having a quarrel on a city street. Woman is standing half-turned to her boyfriend with a dissapointed look on her beautiful face

Maria acordava todos os dias 5h30 da manhã. Assim que se levantava, seu companheiro a saudava: "Bom dia, linda!".

Depois, saía para o trabalho e tomava um ônibus. Ao chegar no ponto, sempre ouvia de um rapaz que também utilizava esta linha: "Bom dia, linda!".

Ao passar pela catraca, ouvia do cobrador: "Bom dia, linda!" .

Após descer do ônibus, passava por uma rua bem movimentada e ao longo do caminho, ouvia de desconhecidos que cruzava pela rua: "Bom dia, linda!". Por fim, quando chegava, no trabalho, ainda ouvia do porteiro e também de seu chefe: "Bom dia, linda!".

A história de Maria não é só dela. É a história de milhares de mulheres que há muito tempo deixaram de ocupar o espaço privado (ou seja, deixaram de se dedicar exclusivamente aos trabalhos domésticos) e passaram a ocupar, ainda que de forma singela, o espaço público (sim, pasmem, as mulheres hoje estudam e trabalham fora).

A questão é entender porque precisamos a todo momento sermos abordadas sobre a nossa beleza, sobre nosso corpo, sobre nossa independência.

Muitos vão se questionar se chamar alguém de linda seria assédio. Questiono então: sou obrigada a ser chamada de qualquer coisa, por alguém que eu não conheço ou que não tenha qualquer intimidade?

Deixemos claro que não podemos confundir o assédio com a paquera. O flerte, o gracejo, faz parte do jogo de sedução entre pessoas que querem se relacionar. A diferença está no consentimento e na forma de abordagem.

Muitas de nós gostamos de ser elogiadas por nossos (as) maridos, companheiros (as), namorados (as), amigos (as). Elogio é bom. Gostamos também de ser elogiadas por pessoas desconhecidas (e quem sabe depois deste elogio, deixe der ser desconhecida...). Mas será que ser chamada de linda por quem não esperamos ou desejamos é sempre bom?

Evidentemente que esta invasão que as "Marias" sofrem diariamente ao serem chamadas de linda talvez seja o exemplo mais simples do assédio que sofremos.

As mulheres enfrentam seus assediadores em todos os espaços e as formas de assédio são as mais variadas.

Diuturnamente somos abordadas por estranhos e somos obrigadas a ouvir que somos lindas, gostosas, vagabundas, piranhas... Por vezes, nossos corpos são tocados sem qualquer consentimento, de forma ousada e desrespeitosa.

Mas o assédio não está só nas ruas ou nos transportes públicos. O assédio está também nos nossos ambientes de trabalho. Pouco importa a posição que ocupamos, mas sem dúvida a hierarquia nos transforma em potenciais vítimas.

Dentro da lei brasileira é possível configurar diversos tipos de crimes que os assédios poderiam se enquadrar, como os crimes de ato obsceno, de assédio sexual (que necessita de uma relação de superioridade entre as partes), de importunação ofensiva ao pudor e até mesmo crime de estupro.

Mas, afinal, o que queremos ao reconhecer que o assédio acontece com todas? Queremos a punição daqueles que nos atacam?

Acredito que não.

O que queremos é uma transformação. Queremos ser respeitadas. Queremos ter o direito de transitar livremente. Queremos uma transformação social e cultural.

Nossas "Marias" só querem poder sair de casa com tranquilidade.

Terem um bom dia.

E ter certeza que a igualdade é linda.

Afinal, "é preciso ter coragem para ser mulher nesse mundo. Para viver como uma. Para escrever sobre elas."

Também no HuffPost Brasil:

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: