OPINIÃO
30/12/2018 07:34 -02 | Atualizado 30/12/2018 07:34 -02

Por um 2019 em que metas sejam sinônimos de propósito, e não falhas

Você tem mais chances de alcançar 100% da meta se, quando você chegar nos 50%, estiver satisfeito e vibrando pela sua "pequena" vitória.

Caiaimage/Chris Ryan via Getty Images

Todos os finais de ano eu costumo separar um momento para listar tudo aquilo que eu fiz e aquilo que eu desejo realizar no ano que está por vir. Em 2018 não foi diferente. Abri o meu celular e bem ali no bloco de notas estavam as listas de metas mensais que me propus ainda no fim de 2017.

Ler mais, correr x quilômetros, me dedicar a atividade y, ter uma rotina equilibrada de alimentação, gastar menos, estudar mais, comprar apenas de marcas que eu conheça a produção. Viajar para tal lugar, ligar todos os dias para a minha mãe, controlar a ansiedade, reclamar menos. Trabalhar mais, realizar z coisas, cuidar de outras y atividades. Encontrar o meu objetivo de vida. Enfim.

A medida em que li a lista, percebi que, de todas as metas que havia estabelecido, talvez eu tenha realizado no máximo 3. Algumas não chegaram nem perto de sair do papel, outras eu simplesmente falhei, a maioria delas eu sequer lembrei que existia.

Eu sempre acreditei que estabelecer objetivos e planejar uma rotina me ajudariam a ter uma vida mais feliz. Mas desde que parei para pensar sobre o significado de "autocuidado", desenvolvi a tese da "redução de danos" para tudo o que me circunda.

Funciona mais ou menos assim: Não consegui me alimentar bem durante a semana inteira? Não tem problema, pelo menos comi saudável por dois dias. Vida que segue. Afinal, 50% é melhor que nada, ou como me disse a Cecília Barretto, especialista em neurociência e psicologia positiva, "há beleza no intermediário".

Mas foi ao fazer o balanço de 2018 que me peguei questionando: afinal, o que é melhor, ter metas ou não?

Eu acredito que deve ter pessoas que funcionam melhor sem elas. Que conseguem lidar muito bem vivendo um dia de cada vez e não sentem a necessidade de um "compromisso" a longo prazo para se sentirem "no caminho certo". Mas eu diria que o padrão da nossa sociedade é ter metas. E muitas delas.

Só que o fato de ter metas não significa que sabemos lidar com elas. Como estabelecer, o que priorizar e como realizar cada uma das metas ao longo do tempo... bem, isso é outra história.

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Conversei com Cecília Barretto, especialista em neurociência e psicologia positiva, sobre como desenvolver um plano para 2019 que realmente funcione. Aqui estão algumas dicas:

Em quais momentos a meta se torna um problema?

Quando a meta for inalcançável, se ela é muito desafiadora, se está muito além do que a pessoa pode alcançar.

"Um exemplo: meu noivo colocou uma meta de ler 30 livros esse ano, mas ele trabalha o dia todo e tem um tempo limitado para ler. Na época, eu avisei que esse número talvez tenha sido muito alto, mas ele disse que era plausível. Já eu, que praticamente trabalho com a leitura, porque eu sou autodidata, coloquei como meta ler 12 livros esse ano. Ele até brincou comigo e disse que eu estava sendo pouco desafiadora. O que aconteceu? O meu noivo deve ter lido apenas 3 livros esse ano. Se ele tivesse estabelecido 10 livros, talvez ele tivesse conseguido", compartilha a especialista em psicologia positiva.

De acordo com o relato, o que aconteceu com ele é que, ao perceber que não ia conseguir atingir o determinado ritmo de leitura, ele se deparou com aquele efeito "foda-se", que é literalmente uma "barreira" e tem a ver com quando você chega a um estado total de desânimo porque você percebe que aquilo que você tinha estabelecido é totalmente inalcançável.

Ou seja, é melhor ter uma meta mais palpável do que ser tão ambicioso e acabar não realizando nada.

Mas afinal, o que é uma meta?

Outra questão muito importante é entender o porquê da meta. A gente gosta de pensar que uma meta é apenas um resultado. Mas ela vai além. É importante você entender o propósito daquela meta, o que está para além de um objetivo específico.

"Quero emagrecer 10kg." Ok, vamos lá. Você tem essa meta porque quer atingir um determinado peso na balança? O que isso diz sobre a sua autoconfiança? O que ela tem a ver com os padrões que são impostos em nossa sociedade? E com a sua saúde? Você quer isso por você ou para que te aceitem de determinada maneira?

Para estabelecer uma meta, primeiro você tem que ter clareza de qual aspecto de sua vida está envolvido naquela meta. Uma meta sempre surge de uma insatisfação com algo. O primeiro movimento é o de a pessoa olhar para a vida dela como um todo e analisar onde é que estão as insatisfações.

Essa capacidade realista de olhar para o futuro é muito importante.Cecília Barretto, especialista em psicologia positiva

Já tenho uma meta, mas como realizá-la?

Todo mundo sempre quer mudar um milhão de coisas. Todo mundo anda meio insatisfeito com as suas próprias vidas. Todo mundo quer melhorar. Mas a gente sabe que esse processo não é fácil. Então, antes de estabelecer as metas, é legal priorizar quais os aspectos que estão precisando de uma melhora significativa. É a sua saúde? Carreira? Casa? Financeiro? Tem sempre um aspecto gerando mais insatisfação que o outro.

"Não pense que você vai resolver tudo no ano de 2019. Então priorize um aspecto, estipule o resultado que você quer alcançar naquele aspecto e é isso", diz Barretto.

Mas o trabalho não termina quando a gente estabelece a meta. Depois disso, é preciso pensar em "como" vamos realizá-la. A partir daí, você precisa traçar planos de ação.

Nesse momento, você precisa entender quais são as partes burocráticas (se inscrever em um curso, comprar uma agenda) e quais são as partes comportamentais (estabelecer um hábito, não se sabotar, desenvolver uma nova competência). Tudo isso diz respeito ao "como" eu vou fazer para chegar aquele resultado.

Quão disposto eu estou para me dedicar?

As pessoas pensam muito naquilo que elas querem. Mas, muitas vezes, a frustração surge porque ninguém se faz uma pergunta mais honesta: O que eu estou disposto a fazer?

"Imagino que muitas pessoas querem emagrecer, comprar uma casa ou ser promovido. Mas o que elas estão dispostas a passar por aquilo que é preciso ao se dedicar para a meta? Porque aí surge um movimento de você analisar se vale a pena criar expectativa sobre essa meta, ou se de repente ela não faz muito sentido para você agora. E tudo bem. Não precisa se enganar. Eu adoraria ter esse resultado, mas não estou disposta a passar por isso. Beleza, tchau, próxima meta. Essa capacidade realista de olhar para o futuro é muito importante", acrescenta a especialista.

Seu plano para 2019 pode e deve ser flexível

É ilusão achar que você vai dar conta de todas as suas metas em uma semana. Quando falamos em concluir objetivos, estamos falando realmente de um planejamento mais a longo prazo. E o que pode acontecer nesse caminho ao longo de 1 ano? Tudo.

Pode ser que o que você imaginou que era importante para você, simplesmente deixe de ser. Ou ainda, pode ser que o cenário mude e você precise rever as suas metas. Pode ser que você ache mais difícil do que você imaginava. Ou mais fácil.

"Eu não gosto da ideia do 'Plano de 2019' que você faz no dia 1º de janeiro e guarda na gaveta. Eu gosto da ideia do 'Plano de 2019' olhando para mim a cada semana. Por que aí eu consigo olhar para ele e dizer: realmente faz sentido; ou não, preciso rever", explica a consultora.

O que a gente precisa ter, então, é um plano de metas que seja vivo. Que eu possa ser atualizado e não aquela coisa inflexível. A gente precisa adaptar o nosso planejamento à nossa realidade, e não o contrário.

Se não alcancei as metas de 2018, como lidar com a frustração?

"As pessoas tendem a ser muito 8 ou 80, mas eu gosto de falar da beleza do intermediário", explica Barretto.

Se você tiver com um desempenho abaixo do esperado, é o incentivo para que você possa procurar novas estratégias. Esse acompanhamento é importante justamente para você ir se conhecendo.Cecília Barretto

Isso significa pensar que você tem mais chances de alcançar 100% da meta se, quando você chegar nos 50%, estiver satisfeito e vibrando pela sua "pequena" vitória. Então, a ideia é que, ao longo do processo, você acompanhe o seu desempenho e celebre a sua evolução.

"Se você tiver com um desempenho abaixo do esperado, é o incentivo para que você possa procurar novas estratégias. Esse acompanhamento é importante justamente para você ir se conhecendo."

Na maioria dos casos, a frustração vem para ensinar algo à gente. As emoções negativas, em geral, trazem aprendizados se estivermos dispostos a olhar para elas. Uma frustração serve para a gente analisar, também, o que poderia ser feito diferente.

"É por isso que é preciso lidar com a frustração, ao invés de simplesmente escondê-la debaixo do tapete", defende a especialista."É preciso criar a coragem de se enxergar e perceber o que poderia ter feito diferente."

Por outro lado, não adianta ficar se martirizando. Se você não alcançou o que você tinha planejado, é mais importante que você siga em frente. É preciso colocar aquilo como encerrado, enxergar que você aprendeu o que precisava aprender e fez o que podia ter feito.

É preciso, então, exercitar também essa capacidade de superar a sua falha e seguir para o próximo desafio. Pode não ser tão agradável, mas é importante.

"Quando a gente se frustra com nós mesmos, com o nosso resultado, porque é normal - todo mundo falha -, eu gosto de pensar o que eu falaria se fosse outra pessoa passando por isso. Eu seria tão dura? Eu seria mais compreensiva? Eu mostraria a ela que ela ainda tem novas chances? Eu mostraria a ela o que poderia ser melhorado e quais são as oportunidades agora? Então isso pode ajudar, porque muitas vezes temos a tendência de sermos os nossos primeiros carrascos."

O que a gente precisa ter, então, é um plano de metas que seja vivo. Que eu possa ser atualizado e não aquela coisa inflexível. A gente precisa adaptar o nosso planejamento à nossa realidade, e não o contrário.

Alcancei as minhas metas, logo sou feliz?

Quando falamos em felicidade, existe uma tendência natural em perseguir o sucesso para ser feliz. E, na lógica que rege a nossa sociedade, muitas vezes o sucesso está atrelado à carreira profissional.

É mais ou menos assim: eu preciso realizar tudo isso aqui que envolve a minha carreira, que é o meu sucesso, e quando eu alcançar isso aqui será ótimo, porque aí eu serei bastante feliz. Então, a felicidade se torna uma espécie de vantagem competitiva que faz as coisas darem certo.

Mas isso não é 100% verdade. Antes de buscar o sucesso, a felicidade está em cuidar de algo muito particular que é o seu bem-estar.

"Se você cuida de você, do básico, do essencial, para você ser uma pessoa mais feliz, você tem muito mais chance de que as suas metas que envolvem outros campos de sua vida, e não só a carreira, darem certo", explica Barretto.

As pessoas felizes realizam mais. Elas estão mais abastecidas de energia, de humor, elas se relacionam melhor, são mais criativas.

"O nosso bem-estar é o adubo para o terreno. Sem ele, não adianta você ficar pensando em entregar mais no trabalho, ganhar mais dinheiro, ou o que quer que seja. Quando a gente fala em felicidade, eu penso muito no equilíbrio. Como se a nossa vida fosse aqueles vários planetinhas rodando e que precisam estar minimamente alinhados. Óbvio que ninguém consegue estar com tudo perfeito, mas você tem que estar minimamente cuidando deles. Nenhum pode estar 100% negligenciado", completa.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.