OPINIÃO
08/10/2018 19:07 -03 | Atualizado 08/10/2018 19:08 -03

Em meio à polarização, é preciso criar ferramentas para lidar com a melancolia

Nas redes sociais, o clima desta segunda-feira (8) é de luto.

Ansiedade e tristeza permeiam o clima de polarização política.
Reuters
Ansiedade e tristeza permeiam o clima de polarização política.

No último domingo (7) o Brasil dormiu dividido. O contexto que se desenha para as próximas três semanas em que se disputa o segundo turno das eleições presidenciais é o de confronto não só de ideias, mas de projetos políticos que parecem erguer um muro no País.

Nas redes sociais, o clima desta segunda-feira (8) é de luto. O medo e a ansiedade tomam conta dos brasileiros que não se identificam por este ou aquele projeto político.

E nesse contexto, o resultado das eleições é o que menos importa. O que deixa marcas em nosso imaginário é aquilo que se dispõe para cada um de nós em meio a travessia.

As sociedades tendem a ignorar sentimentos como o luto e a incerteza por medo de reconhecer a impotência diante do inevitável.

Felizmente, reconhecer os nossos sentimentos, sejam eles raiva, tristeza ou revolta abre espaço para que possamos quebrar o silêncio sem censura, mas com respeito às nossas emoções.

É preciso de muita sensibilidade nessa transição para entender que a vida permite recomeços. E que há dias em que sorrir é tão difícil quanto lutar por valores que temos como inegociáveis.

Mas antes, é preciso reconhecer que a primeira luta acontece dentro de cada um quando resistimos em renunciar à nossa própria subjetividade.

Nesse momento, é preciso se valer de ferramentas que nos auxiliem. Falar é uma delas. Elaborar, compartilhar, significar e colocar para fora o que nos corrói por dentro.

Depois, ouvir pode ser de grande valia. E é por isso que convocamos a música como ferramenta carregada de símbolos que nos auxiliam nesse momento que pode, sim, ser de recolhimento.

O difícil de toda essa situação é que as eleições passam, mas o muro fica.

E independente do resultado que se desenhe entre a disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) a sociedade brasileira, como coletividade, vai precisar encontrar estratégias para lidar com esse muro.

Ignorá-lo não é uma opção e, na verdade, é até um risco: atrapalha a visão de futuro, dificulta a possibilidade de diálogo, distancia qualquer chance de nos reconhecermos em nossas diferenças.

Não se pode achar admissível a possibilidade de negarmos 50 milhões de brasileiros eleitores de Bolsonaro. Ou de deletarmos os 30 milhões que decidiram votar em Haddad.

Além de refletir sobre o próximo homem que ocupará a cadeira da presidência, o Brasil precisará enfrentar a complexa tarefa de pensar em estratégias para que o muro possa dar lugar a novas pontes.