OPINIÃO
02/12/2014 10:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Pelo coração

Como muitas mães, quero que meus filhos sejam bondosos. Quero que eles entendam a sorte que têm. Quero que eles doem e vivenciem a alegria dessas ações caridosas. Inocentemente, achei que isso fosse acontecer meio que por conta própria - por genética ou osmose.

Steve Debenport via Getty Images

Como muitas mães, quero que meus filhos sejam bondosos. Quero que eles entendam a sorte que têm. Quero que eles doem e vivenciem a alegria dessas ações caridosas. Inocentemente, achei que isso fosse acontecer meio que por conta própria - por genética ou osmose. Mamãe gosta de doar = filhos gostam de doar, certo?

A primeira vez em que fui voluntária, tinha 22 anos e era recém-formada na faculdade. Me sentia privilegiada e procurava um sentido para a vida, além das cervejas e dos rapazes. Comecei a trabalhar entregando comida para uma senhora. Ela era cega e morava num prédio caindo aos pedaços, em um bairro meio suspeito. Eu era tímida na época e ficava nervosa conversando com ela na pequena cozinha do apartamento. Durante uma pausa na conversa, perguntei se ela precisava de algo da loja de conveniência. Voltei 15 minutos depois com papel higiênico, pasta de dente e chicletes Trident.

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Quando fui embora naquele dia, senti um barato provocado por minha ação humanitária, como o personagem do musical da Broadway Avenue Q que, ao doar dinheiro a um amigo pela primeira vez, grita "Me sinto uma nova pessoa! Uma pessoa boa!" e sai cantando. Depois daquele episódio, fui voluntária regularmente. Passava o dia de Natal visitando velhinhos sozinhos na época das festas. Fiz o mesmo com sobreviventes do Holocausto durante as festas judaicas. Participei de uma equipe que completou uma maratona ciclística para arrecadar fundos para vítimas de leucemia, e doei comida para entidades que alimentavam famílias carentes.

Avance alguns anos, até o nascimento de meus dois filhos: Ethan, agora com 8, e Jonas, de 7. Logo descobri que o espírito de doação, apesar de não completamente ausente, não estava enraizado nos dois desde o nascimento. Então tentei envolvê-los em atividades de doação sempre que possível. Por exemplo, todo ano nossa família inteira participa de uma caminhada pelo câncer do ovário, em memória de minha mãe, a avó que eles nunca conheceram. Às vezes peço que eles empacotem roupas e brinquedos velhos para que doemos a instituições de caridade.

Infelizmente, é tênue a ligação dessas atividades com os valores que quero instilar nos dois. Dependendo do dia, meus meninos podem dar de boa vontade para "as crianças que não têm brinquedos" ou então podem reclamar aos gritos, querendo ficar com os brinquedos esquecidos há anos. Quanto à caminhada do câncer, suspeito que eles estejam mais interessados nos prêmios que são sorteados. Ainda assim, tenho esperanças de que essas tentativas plantem uma semente em suas jovens psiques, da mesma maneira que as caixas de enlatados doadas pelo meu pai plantaram sementes nas minha.

No ano passado, porém, todos os meus planos de lavagem cerebral humanitária foram interrompidos repentinamente por um diagnóstico de câncer de mama. Aos 44, fui operada e passei por quimioterapia e radioterapia. Meus filhos acompanharam tudo. Às vezes faziam perguntas, outras passavam a mão e beijavam na minha cabeça careca. Amigos e médicos me aconselharam a não fazer muitas atividades durante este período, e adiei o projeto de começar a dar mesada para meus filhos. Um amigo sugeriu usar três potes para o dinheiro: um para gastar, um para economizar e um para doar. Em setembro passado, já melhor, apresentei minha ideia.

"Cada um de vocês vai receber seis dólares", disse, mostrando orgulhosamente os novos cofrinhos.

"Coloquem dois no de gastar, dois no de economizar e dois no de doar."

"O que?", perguntou Ethan, bravo. "Não vou doar meu dinheiro."

"Você ainda tem o dinheiro de gastar e o de economizar", respondi. "E podemos escolher as instituições, talvez uma que ajude animais. Ou crianças."

"Animais!", gritou Jonas. "Quero ajudar os animais."

Mas Ethan começou a chorar. "Não é justo! Não vou doar meu dinheiro."

Fiquei olhando para ele, paralisada por sua frieza. Foi como se tivesse dado à luz um pequeno pão-duro. Por um instante, esqueci que ele era só uma criança.

"E se fosse uma instituição de combate ao câncer de mama?", perguntei, surpresa por ter feito essa pergunta e por me sentir vulnerável enquanto esperava a resposta.

A expressão dele mudou. "OK", disse ele.

Voltando da escola alguns dias depois, ele me disse todo orgulhoso que tinha feito pulseiras para vender. O dinheiro das vendas seria doado para pesquisas de câncer de mama. Mais uma vitória.

Não quero dizer que o câncer seja uma maneira de invocar o espírito doador dos seus filhos. Não desejo isso para ninguém. Mas tornar a questão pessoal ajuda. A ideia de doação fica mais clara. Entra não pela cabeça, mas pelo coração.

Este post é parte de uma série produzida para comemorar a #TerçaDeDoação, que vai acontecer no dia 2 de dezembro. A #TerçaDeDoação é o pontapé inicial na temporada de doações de festas, assim como a Black Friday e a Cyber Monday abrem a temporada de compras de presentes. O Huffington Post vai publicar posts da #TerçaDeDoação durante o mês de novembro inteiro. Para ver todos os posts da série, clique aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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