OPINIÃO
06/03/2015 15:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

As qualificações realmente necessárias para se conseguir um emprego

Getty Images/Blend Images

Esta semana estou assistindo à Conferência sobre o Futuro do Trabalho, que está tendo lugar em Londres, patrocinada pelo The WorldPost. Um painel de discussão do qual estou participando é sobre "A Escassez de Qualificações".

As discussões sobre esse tema geralmente incluem perguntas como "até que ponto é grave a escassez de qualificações?", "o que podemos fazer a esse respeito?" e "como podemos promover uma cooperação melhor entre nossas escolas e empresas?".

Agora, porém, estão sendo levantadas perguntas mais sérias: a própria existência da escassez de qualificações está sendo questionada.

Menos de um ano atrás o colunista do New York Times e economista peso pesado Paul Krugman escreveu que essa escassez não existe. Ele a descreve como o mito das qualificações. E ele voltou a dizer a mesma coisa na semana passada.

Embora eu hesite em discordar de alguém tão erudito e bem posicionado quanto Krugman, é indiscutível que temos, sim, uma escassez de capacitação - ou melhor, uma escassez de empregos.

Chame-a de escassez de qualificações, escassez salarial, escassez educacional - é uma escassez. A lacuna entre vagas de emprego cronicamente abertas e membros da força de trabalho desempregados com frequência existe em muitos lugares.

Um relatório recente da MKinsey sobre educação e emprego nos Estados Unidos constatou: "Na Grécia, onde o índice de desemprego passou dos 55% em 2012, as empresas ainda se queixam de não conseguir encontrar profissionais de nível adequado para contratar para as vagas de mais baixo nível; a situação se repete na Suécia e Grécia." Nos oito países europeus analisados, a maioria das empresas - 61% -- relatou que tem dificuldade em contratar funcionários em número suficiente para atender às suas necessidades.

Empregadores na América Latina, Europa, Ásia central e África também relatam sentir que há uma escassez de mão-de-obra qualificada; ela seria respectivamente de 20%, 19,7% e 18%.

E não são apenas as empresas contratantes que enxergam essa escassez. A Udemy, uma das maiores plataformas que oferece cursos online, fez uma pesquisa recentemente com mil americanos de entre 18 e 65 anos. Dos entrevistados na pesquisa, 61% disseram que "faltam qualificações à força de trabalho atual".

Como tantas pessoas em tantos lugares enxergam essa falta, talvez possamos voltar a falar das razões por que ela existe e de como podemos ajudar a resolvê-la.

AS SOLUÇÕES

Sendo eu alguém que passou sua carreira trabalhando com reforma educacional e lançando programas de formação inovadores voltados, pelo menos em parte, a responder a esse desafio, eis o que vejo e o que penso que podemos fazer.

Primeiro, quando pessoas - empregadores, candidatos a empregos e profissionais - ouvem falar em "qualificações", pensamos em qualificações tecnológicas ou altamente especializadas, como engenharia e codificação de computadores. E, embora parte da falta de qualificações na força de trabalho seja relativa a essas qualificações que envolvem alto nível de formação, isso é apenas parte do problema.

Em 2013, as maiores qualificações de emprego procuradas no LinkedIn eram de natureza técnica, mas também eram procuradas certas qualificações "soft" e abordagens de empreendedorismo. Essas qualificações mais "soft" pelas quais a procura era grande incluíam: habilidades em comunicação (mídias sociais, digitais e marketing online) e habilidades de relacionamento (desenvolvimento empresarial e gestão de relacionamentos). Outras habilidades "soft" frequentemente procuradas são: resolução de problemas, trabalho em equipe, criatividade, gestão do tempo e persistência.

No Reino Unido, a pesquisa anual sobre Educação e Qualificações da Confederação da Indústria Britânica revela claramente o valor que essas habilidades "soft" têm no mercado de trabalho. De acordo com a pesquisa de 2014, 85% dos empregadores relataram que valorizam sobretudo a atitude dos jovens em relação ao trabalho, enquanto 63% valorizam a aptidão real deles para realizarem o trabalho real.

Do mesmo modo, uma pesquisa recente feita com mais de 400 empregadores observou: "...empregadores nos Estados Unidos indicam que as quatro habilidades mais importantes são comunicação oral, trabalho/colaboração em equipe, profissionalismo/ética de trabalho e pensamento crítico/resolução de problemas. Mais de 90% dos empregadores entrevistados declararam essas habilidades 'muito importantes'. Em contrapartida, redação, matemática, ciência e história/geografia ficaram respectivamente em 6º, 15º, 16º e 19º lugar de um total de 20 habilidades."

Essa conclusão não pretende fazer pouco da formação em tecnologia e STEM (a sigla representa "ciência, tecnologia, engenharia e matemática"). Mas deve destacar que os profissionais de hoje e de amanhã vão precisar de capacitação forte para seu trabalho e também de habilidades "soft" bem desenvolvidas.

Poucas coisas que possamos fazer terão impacto maior sobre os resultados futuros em termos de emprego e força de trabalho do que ensinar jovens como utilizar os dois conjuntos de habilidades, como fazem os empreendedores. Pensar e agir como empreendedor cria um vínculo entre conhecimentos de matemática, engenharia e tecnologia e comunicações, colaboração e resolução de problemas.

Existem exemplos a seguir.

No Reino Unido, o governo lançou um programa piloto chamado "Fiver Challenge" (o desafio das cinco libras), em que estudantes recebem £5 (algo como R$23) e, com esse dinheiro, devem criar seu próprio microempreendimento com fins lucrativos. A finalidade é ensinar alunos do ensino primário sobre o papel das empresas e ajudá-las a aprender as habilidades de empreendedores, para lançar seus próprios microempreendimentos e auferir lucros.

Minha organização - a Network for Teaching Entrepreneurship (NFTE, ou Rede para o Ensino do Empreendedorismo) - trabalha com escolas em dez países diferentes para ensinar a mentalidade empreendedora. Nossas pesquisas mostram que os estudantes que fazem aulas de empreendedorismo têm mais chances de abrir suas próprias empresas, têm chances maiores de conseguir emprego e de ganhar mais, em média, que seus pares.

Outra verdade é que, enquanto os sistemas educacionais não estão investindo o suficiente em ensinar crianças e jovens a pensar como empreendedores, as escolas também deixam a desejar quando se trata de ensinar as disciplinas tecnológicas, mais "hard".

No setor da informática, quase todas as tecnologias ficam obsoletas em dez anos. Por essa razão, o ensino fica obsoleto em muito menos tempo que no passado. E, pelo fato de a tecnologia digital permear todos os setores, nenhum campo de ensino deixa de sentir a pressão da inovação acelerada.

Um relatório recente sobre percepções dos jovens sobre o trabalho e o futuro constatou que 63% dos jovens europeus sentem que o sistema de ensino não os preparou com as qualificações ou os conhecimentos necessários para encontrar um emprego que envolva tecnologia.

O fato de as qualificações profissionais necessárias - em tecnologia ou outras - não serem ensinadas talvez seja a razão pela qual a pesquisa Udemy também informou que apenas metade dos americanos considerou que o ensino superior os ajudou a conseguir seu primeiro emprego e que "mais de um terço dos americanos acha que usa no trabalho menos de 10% do que aprendeu na faculdade".

O que podemos fazer em relação a tudo isso?

Nos Estados Unidos, o ensino de habilidades de empreendedorismo é relegado em grande medida às faculdades e a organizações sem fins lucrativos que procuram levar essas habilidades aos estudantes mais jovens, antes que eles façam opções que provavelmente os vão predestinar à pobreza.

Por sorte, líderes europeus parecem enxergar a oportunidade com mais clareza. A União Europeia tem um plano, segundo o qual: "A educação é crucial para moldar as atitudes dos jovens, suas qualificações e sua cultura, e é vital que a qualificação para o empreendedorismo comece desde cedo. O ensino do empreendedorismo é essencial não apenas para moldar a mentalidade dos jovens, mas também para dotá-los das habilidades e os conhecimentos fundamentais para o desenvolvimento de uma cultura de empreendedorismo."

Mesmo na Europa, porém, o ensino do empreendedorismo é visto como algo adicional, que vem complementar outros caminhos educacionais. Os conceitos do empreendedorismo ainda não foram adotados tão completa e profundamente quanto outras reformas do ensino, como o ensino de STEM.

Precisamos de escolas e programas que possam vincular qualificações em STEM e outras qualificações acadêmicas fortes com habilidades e mentalidades empreendedoras que são ricas nessas habilidades produtivas "soft", como as comunicações, criatividade e persistência. O aprendizado misto e baseado em projetos precisa ser a norma, não a exceção.

Mesmo que você pense como Krugman quanto à escassez de qualificações, seria bom ter sistemas de ensino que façam as duas coisas bem. Talvez isso seja algo sobre o qual todos possamos concordar e talvez possamos começar a fazer isso acontecer.

The WorldPost está promovendo em Londres, em 5 e 6 de março, uma conferência sobre o Futuro do Trabalho. Para maiores informações, clique aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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