OPINIÃO
04/04/2016 18:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Eu perdi um pouco da minha mãe

Há um mês, o que eu imaginei que seria um desafio emocionalmente intransponível tem se mostrado uma jornada de aprendizado. Tenho vivido conflitos diários, mas descoberto também diariamente o que merece o investimento das minhas energias.

Reprodução/IMDB.com

Meses atrás saí do cinema mais tocado do que de costume. Tinha acabado de assistir ao filme Mia Madre, do diretor italiano Nanni Moretti. A trama acompanha a conturbada vida de Margherita, uma cineasta que está enfrentando problemas com as filmagens de seu novo longa-metragem, o fim de um relacionamento e que se vê perdendo a intimidade com a filha pré-adolescente.

Não bastasse tudo isso, a rotina da personagem é guiada por uma questão ainda mais complicada. Margherita divide com o irmão um inevitável sentimento (e por fim a realidade) de perda da mãe  -  uma professora de latim que se encontra hospitaliza, sem chance de recuperação.

Aquele filme havia despertado em mim questionamentos muito íntimos. Por dias fiquei imaginando como eu reagiria se estivesse no lugar de Margherita. No filme, a personagem entra num denso espiral de frustração, solidão e cansaço, que revelou para mim que há experiências de luto muito mais internas que externas.

Não cheguei a conclusão alguma de qual seria minha postura, mas o que eu não sabia é que nem a mais profunda reflexão sobre aquela a história seria capaz de me preparar para os fatos que sacudiriam minha realidade recentemente.

Na manhã de sábado, dia 27 de fevereiro, acordei com um barulho oco na cozinha de casa. Saltei da cama e me deparei com a minha mãe caída no chão, escorada em uma cadeira  - também caída. Havia dias ela reclamava de incômodos na visão. Chegou a desmaiar com sacolas na mão, no meio da rua, quando voltava de sua religiosa feira de domingo.

Diabética a hipertensa teimosa, no hospital levou broncas de diferentes médicos que ordenaram que ela revisse urgentemente seus hábitos e fizesse um acompanhamento cuidadoso das doenças  -  caso contrário, as consequências seriam graves e até irreversíveis. Vi minha mãe acompanhar a descrição dessas consequências com um semblante assustado. Mas acompanhando de perto sua rotina e sabendo de seu discurso que privilegia Deus em detrimento de médicos, tinha certo comigo que aquele susto não chegaria a resultar em mudança.

Doses e mais doses de remédios. Sente aqui, aguarde ali. Uma tomografia agora. Aguardem nesta sala. Senhora Cícera! Consegue andar, mãe? Voltamos para casa. Assim que saímos do carro, começou tudo de novo. Mais um mal-súbito, dessa vez inexplicável. Medicada e com pressão sobre controle, ela voltou a reclamar sobre a "visão escura". Algo de muito errado estava acontecendo e logo a família estava reunida.

Naquela noite, ela pegou no sono e eu não. Na manhã seguinte foi levada novamente ao hospital. Nesse momento tive a estranha impressão de que começava a perdê-la de alguma alguma forma. Talvez por conta de como ela estava quando foi levada de casa: o rosto pálido, falando baixinho, a diccção um pouco alterada.

Naquele domingo, ela sofreria um AVC. A súbita queda de pressão, ocasionada pelos medicamentos de emergência, provocaria também uma convulsão. A UTI foi sua casa durante os dois dias seguintes.

Em uma das cenas mais contundentes de Mia Madre, Margherita se desespera no leito da mãe, quando percebe que ela não consegue mais dar uma simples caminhada. É um trecho breve em que personagem grita e chora, sem saber o que fazer. Num primeiro momento, achei a protagonista leviana. Mas qual seria minha reação se estivesse no lugar de Margherita?

Se no dia que levaram minha mãe para o hospital eu senti uma perda inexplicável de parte dela, foi na primeira visita em seu quarto fora da UTI que encontrei a explicação para isso. Eu esperava um sorriso largo e uma expressão afetuosa. Quando falei seu nome, no entanto, ela se dirigiu a mim com um olhar vago.

O acidente vascular cerebral que minha mãe sofreu é do tipo isquêmico, quando há o entupimento de vasos que levam o sangue ao cérebro. Grave, porém menos sério que AVC hemorrágico, que se dá com o rompimento total desses vasos. De acordo com os médicos, todo o problema ocorreu na parte frontal esquerda da cabeça, acima da região dos olhos. Eles explicaram que, como o nosso cérebro trabalha com as informações cruzadas, o entupimento de vasos do lado esquerdo poderiam ocasionar a paralisação das funções motoras do lado direito dela. A memória recente, assim como a dicção, também poderiam ser afetadas.

Tudo isso, porém, poderia ser recuperado. Os resultados dependeriam da quantidade e regularidade de estímulos (fisioterapia, fonoaudiologia, entre outras) seguintes e da elasticidade de seu cérebro. "Quanto mais jovem, melhores os resultados", me disse uma das médicas que cuidou dela durante sua internação.

Minha mãe sempre foi meu maior referencial de resistência, no sentido mais amplo da palavra. Uma mulher que enfrentou com dignidade situações perversas ao longo de toda a vida. Ela não merecia isso, não merecia enfrentar uma situação como essa. Assim como Margherita do filme, me senti sufocado pela minha própria vida e pelo luto, neste caso parcial, de uma pessoa que amo.

Eu não fazia ideia de como seria dar conta de todos esses problemas na prática. Se você tem vinte e poucos anos como eu deve fazer alguma ideia das aflições sobre carreira, relacionamentos e futuro que vivo. Aí veio a prática.

Há um mês, o que eu imaginei que seria um desafio emocionalmente intransponível tem se mostrado uma jornada de aprendizado. Tenho vivido conflitos diários, mas descoberto também diariamente o que merece o investimento das minhas energias. Tenho entendido a solidão de Margherita como uma solidão própria da vida. Você pode estar rodeado de um amor, amigos e familiares, mas o peso da vida é só seu, não há como dividir.

Nesse dia a dia prático, os papeis foram invertidos. Sou eu e minha irmã que cuidamos da alimentação, do banho, do entretenimento e da hora de dormir da minha mãe. Ela confunde meu nome com o nome do meu irmão mais velho, assim como o da minha irmã pelo da minha tia  - que felizmente se reaproximou da família para "cuidar da irmã até ela ficar cem por cento".

Minha mãe não lembra de muitas palavras e troca muitas outras. Constrói frases desconexas e às vezes prefere o silêncio a completar uma ideia. Sei que várias boas memórias dela foram embora e não voltarão. Mas quando a vejo rindo com minhas sobrinhas, passo a acreditar que talvez essas memórias não façam tanta falta. Ela tem respondido bem à fisioterapia e já arrisca comer sozinha (com a mão esquerda). Aquela olhar vaga que me lançou no hospital já não existe mais.

Perdi um pouco da minha mãe, mas foi apenas um pouco.

*Texto publicado originalmente em Medium

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