ENTRETENIMENTO
19/12/2018 17:31 -02 | Atualizado 09/01/2019 16:07 -02

Os 9 livros mais marcantes de 2018, na opinião de 9 escritores renomados do Brasil

A pedido do HuffPost Brasil, autores compartilham seus livros de cabeceira.

O mercado editorial brasileiro enfrenta uma crise provocada pelo recente colapso da Livraria Cultura e da Saraiva, duas gigantes do varejo no País. Em outubro passado, a Cultura fez um pedido de recuperação judicial. Estima-se que as dívidas da empresa ultrapassem a casa dos R$ 200 milhões. Em novembro foi a vez de a Saraiva fazer o mesmo. As dívidas da rede são de R$ 675 milhões.

As empresas justificam o cenário crítico citando questões como a recente crise econômica do Brasil, os preços agressivos praticados pela Amazon no País, a defasagem no preço dos livros, além da falta do hábito de leitura do brasileiro. Em contrapartida, profissionais do setor ouvidos pelo site Nexo afirmam que a origem da crise, nos dois casos, está na má gestão das empresas nos últimos anos.

Mas como a crise nessas duas grandes redes pode afetar todo o mercado editorial brasileiro? Primeiro, a influência é substancial, já que as empresas respondem por cerca de 35% das vendas do setor. Segundo, a negociação entre pequenas, médias e grandes editoras com essas redes segue tradicionalmente o modelo de consignação. Na prática, as redes recebem os livros das editoras, mas só efetuam o pagamento depois que os exemplares são vendidos.

Para citar um exemplo da gravidade da crise no setor, o editor e sócio da editora Martins Fontes, Evandro Martins Fontes, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo no início de dezembro que deixou de fornecer exemplares às duas redes em outubro de 2016 por falta de pagamento e que, juntas, elas têm uma dívida superior a R$ 200 mil com a sua editora.

Nesse cenário que pode dizimar editoras de todos os portes, nasceram diversos movimentos nas redes sociais (como o #DesafioDasLivrarias) incentivando a compra de livros – de grandes e pequenas editoras – como presente nas festas deste fim de ano.

A fim de colaborar com essa corrente, o HuffPost Brasil convidou 9 escritores a compartilharem indicações das leituras que foram mais marcantes neste 2018.

Montagem/Divulgação
Miriam Leitão

Miriam Leitão indica Ser Republicano no Brasil Colônia, de Heloisa Starling (Companhia das Letras)

"O livro de Heloisa Starling não poderia ter chegado em melhor hora. Foi publicado no difícil ano de 2018 em que muitas vezes duvidamos das nossas convicções democráticas.

O livro nos leva numa caminhada através da História para antes ainda do Império em uma visita às raízes mais profundas dos nossos valores republicanos. O Brasil era um País ainda em formação, mas lá estavam brasileiros em vários pontos do território em rebeliões e conjurações em favor da ideia de um governo de iguais e para todos.

A historiadora não se limita contudo a contar os eventos, nesta obra com um texto de grande qualidade literária. Ela traz também a reflexão original de que quando afinal é proclamada por militares em 1889, a República perdeu parte das virtudes políticas com as quais os conjurados sonharam."

Miriam Leitão é jornalista e autora de História do Futuro: O Horizonte do Brasil no Século 21 e Tempos Extremos, entre outros livros.

Montagem/Divulgação
Cidinha da Silva

Cidinha da Silva indica Amora, de Natália Borges Polesso (Não Editora)

“O livro que mais me marcou em 2018 foi Amora, de Natália Borges Polesso. Quando li a prosa de Natália, me senti tão enternecida e desperta para a vida que criei uma personagem que dormia com o Amora sobre o peito, como uma compressa que liberasse as tensões e aquecesse um velho coração.

Os contos de Natália surpreendem pela humanidade multifacetada, negada às personagens lésbicas tanto pelos olhares discriminadores, quanto pelos olhares afirmativos que tendem a encapsulá-las em clichês afetivos, ora de sofrimento e dor, ora de superação e heroicização. Natália, por meio de técnica de escrita refinada, constrói personagens lésbicas consistentes e polifônicas no livro Amora.”

Cidinha da Silva é autora de Um Exu em Nova York (Pallas), entre outros livros.

Montagem/Divulgação
Eduardo Giannetti

Eduardo Giannetti indica O Vazio do Poder, de Eduardo Rombauer (Arapoty)

"'Os desertos externos estão aumentando no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos', escreveu o papa Francisco na encíclica Laudato si'. Vivemos tempos complexos – tempos de fragmentação e polarização, mas também de novos horizontes e radicais possibilidades. A transformação do mundo externo, comum a todos, depende da transformação do nosso mundo pessoal e interno, inerente a cada um. O Vazio do Poder trata com maestria da dialética desta dupla transformação.

Ao narrar sua formação e trajetória, o jovem ativista Eduardo Rombauer nos oferece não um credo político ou respostas prontas, mas um instrumento de trabalho: uma ferramenta para o exercício pessoal e coletivo da maiêutica socrática — a arte de partejar o que há de melhor em cada um de nós na criação de nosso futuro comum.

O ser político de que nos fala Rombauer combina utopia e pragmatismo; saberes tradicionais e ciência; ambição e vontade de servir; convicções firmes e disposição de ouvir e aprender sempre. Divididos naufragamos. Que o chamado à reinvenção do ser político de O Vazio do Poder impulsione e preencha a fome de futuro dos brasileiros."

Eduardo Giannetti é economista e autor de Autoengano, O Valor do Amanhã e O elogio do vira-lata e outros ensaios (Companhia das Letras), entre outros livros.

Montagem/Divulgação
Ana Paula Maia

Ana Paula Maia indica Alguns Humanos, de Gustavo Pacheco (Editora Tinta da China)

"São 11 contos que fogem do lugar comum, que emocionam e nos fazem refletir. Um passeio por várias partes do mundo, olhares múltiplos e histórias envolventes."

Ana Paula Maia é autora de sete romances, incluindo Assim na Terra Como Embaixo da Terra (Editora Record), ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura deste ano, na categoria Melhor Romance do Ano.

Montagem/Divulgação
Andréa Pacha

Andréa Pachá indica Nix, de Nathan Hill (Intrínseca)

"Não foi fácil atravessar 2018 sem doses necessárias de literatura, que tem garantido minha sanidade nos últimos tempos. Envolvida com a revisão do meu livro recém-lançado, com as atividades acadêmicas, com a política e com a realidade, por pouco não cheguei ao fim do ano sem a leitura de romances, contos, poesia.

Na bancada da livraria, a curiosidade despertada pelo título incompreensível me levou a NIX, livro de estreia do jovem Nathan Hill. Como não se seduzir por uma obra que parte do abandono materno e constrói uma trama que permeia as profundas transformações experimentadas pela América e pelo mundo, na contemporaneidade?

Atravessando gerações e reconstruindo o passado sistêmico e social, um escritor fracassado é confrontado com sua própria identidade, com as dores do abandono e com uma família que pouco se conhece e se relaciona. Um alento encontrar essa tragicomédia, com narrativa tão complexa quanto as mudanças sociais e a perplexidade individual diante do egoísmo e do abandono."

Andréa Pachá é juiza e autora Velhos São os Outros, A Vida Não é Justa e Segredo de Justiça (Intrínseca).

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Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto indica Contos Completos, de Caio Fernando Abreu (Companhia das Letras)

"Um lançamento muito significativo em 2018 foram os Contos Completos, de Caio Fernando Abreu (Companhia das Letras). Pela primeira vez, toda a produção do autor em prosa breve aparece reunida em um volume.

Os contos foram originalmente publicados entre as décadas de 1970 e 1990 e constituem uma das crônicas mais vívidas dos costumes e das angústias existenciais da geração que, no Brasil, fez a transição do regime militar para a democracia. Neles, Caio escreve sobre amor, morte, medo, sexualidade, solidão e alegria. Quase todos os contos vêm dedicados a algum amigo ou à memória de alguém. Obra obrigatória de um autor incontornável."

Alexandre Vidal Porto é diplomata e autor dos livros Cloro, Sergio Y. Vai à América (Companhia das Letras), entre outros.

Montagem/Divulgação
Jarid Arraes

Jarid Arraes indica Fora da Cafua, de Gabriel Sanpêra (Urutau Editora)

"Fora da Cafua foi inteiro escrito pelo celular. Gabriel não tinha computador, então usou o celular para escrever um livro de poemas inacreditáveis. Uma estética híbrida, ousada, destemida. A gente escuta bastante que esse ou aquele escritor possuem algumas das vozes mais originais da literatura contemporânea. Gabriel Sanpêra, sem dúvida, está nesse grupo.

Primeiro destaco sua estética, mas ela arrebata com força porque te agarra entre temas ora violentos, ora corriqueiros. A violência do racismo, a escravidão exposta com o sangue escorrendo. O café como marca da escravidão, mas que em seguida se torna a bebida cotidiana que embala o amor LGBT. Orixás, matas, caboclos. Um livro que te conta poesia em todas as etapas de seu processo."

Jarid Arraes é cordelista e autora dos livros Um Buraco Com Meu Nome, As Lendas de Dandara e Heroínas Negras Brasileiras.

Montagem/Divulgação
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo indica o livro O Feminismo é Para Todo Mundo, de bell hooks (Rosa dos Tempos)

Da pletora de livros que li com prazer neste 2018, o que mais me marcou foi, sem dúvida, O Feminismo é Para Todo Mundo - Políticas Arrebatadoras, da pensadora estadunidense negra bell hooks.

Publicado nos EUA em 2015, o livro é publicado entre nós justo no momento em que a extrema direita conquista o poder pela vontade da maioria do povo brasileiro, circunstância histórica que faz das palavras certeiras da senhora hooks como que um guia prático de resistência ativa, porquanto a sua leitura do feminismo vai muito além do que a mídia e vários de seus acólitos chamariam, desdenhosa e desrespeitosamente, de 'identitarismo'.

Denso e, ao mesmo tempo, de leitura fluente, agradável mesmo, que consegue ser didático sem rebaixamentos de qualquer ordem, crítico e dialógico. Destaque para os capítulos Pelo Fim da Violência e Maternagem e Paternagem Feministas, este último porque mostra, já desde o título, a disposição da autora para o estabelecimento de propostas que apontem para a possibilidade de mulheres e homens se aliarem na luta contra o sexismo patriarcal."

Ricardo Aleixo é poeta e autor dos livros Impossível Como Nunca Ter Tido um Rosto, Modelos Vivos, Antiboi e, o mais recente, Pesado Demais Para a Ventania (Todavia).

Montagem/Reprodução/Instagram/Divulgação
Joselia Aguiar

Joselia Aguiar indica Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (Todavia)

"A autora portuguesa nasceu em Moçambique e ainda jovem chegou a Lisboa. Adulta, decidiu produzir um relato dos tempos de menina no período colonial em Lourenço Marques, atual Maputo.

É uma narrativa devastadora da relação pai e filha tendo como pano de fundo o racismo, um ajuste de contas que, à época de seu lançamento, causou certo abalo sísmico na sociedade portuguesa. Para nós, leitores brasileiros, é um livro muito próximo de nossa realidade e tristemente atual.

Isabela Figueiredo esteve na Flip 2018, e também lançou por aqui A Gorda, seu livro mais recente. Sua narrativa é sempre viva e desconcertante."

Joselia Aguiar é jornalista e autora de Jorge Amado: Uma Biografia (Todavia).