OPINIÃO
07/03/2014 19:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Ser mulher é ser um pouco menos

Viver como mulher é ser um pouco menos do que poderia ser todos os dias. É, todos os dias, fazer um pouco menos do que poderia fazer.

Quando eu nasci, minha família ficou muito feliz. Nasci saudável, gordinha e cor de rosa. Mas a verdade é que meu pai ficou um pouco triste por não ter com quem jogar bola aos domingos e ficou muito preocupado pensando nos perigos que a vida ia me proporcionar.

Quando era criança, ganhei bonecas e maquiagens enquanto meu irmão mais novo brincava com carrinhos e dinossauros. Uma vez, ganhei uma mini vassoura para já aprender a varrer. Só fui aprender a varrer na adolescência. Quando cada um ganhou seu próprio quarto, o dele era maior, mas só porque o meu banheiro tinha um bidê, que é coisa de menina. Nunca usei aquele bidê. Na hora de tirar a mesa, depois do almoço, meu pai e meu irmão sentavam na sala para ver TV e eu e minha mãe cuidávamos da louça.

A adolescência foi outro período complicado. Meu pai, que "sabia o que os homens pensavam e do que são capazes afinal eu já fui um moleque também", não deixava eu ficar até tarde nas festas. Aos poucos entendi o que meu pai quis dizer sobre o que os homens pensavam. Com catorze anos, de roupas de ginástica pelas ruas, ouvi de um homem que ele queria chupar minha buceta. Foi horrível. Me senti culpada, nojenta, me senti muito menos, tive vontade de vomitar. Ainda sinto isso toda vez que falam alguma coisa para mim na rua.

Meu pai não me deixou viajar com a turma do colégio porque um namoradinho meu ia também. Meu irmão podia. Namorar? Só com a porta aberta e nem em sonho você pode viajar com ele. Meu irmão ganhava camisinhas. Quando pedi para ir à médica tomar pílula anticoncepcional, meus pais quase morreram. Quando disse que queria continuar tomando pílula mesmo depois de terminar meu namoro, eles agiram como se eu fosse a pessoa mais promíscua do mundo.

Falando em promiscuidade, eu não podia falar sobre minhas experiências sexuais. Desde muito cedo ficou claro que os meninos gostavam de moças que mandassem bem na cama, mas que não tivessem transado muito. Aprendi muito jovem a expressão "rodada" e as coisas paradoxais que seriam esperadas e exigidas de mim. Pornografia para mulheres é uma coisa muito difícil de encontrar e, aliado ao fato de que ninguém queria falar comigo sobre sexo ou masturbação, eu fui aprender sobre sexo muito mais velha que os meninos. Não entendia as piadas deles e sexo veio como uma surpresa pra mim.

O assunto era tabu entre as minhas amigas. Tentava fazer perguntas e entender qual era a experiência delas, mas era rapidamente cortada. Fui conversar mais sobre sexo com meus amigos homens. Foi aí que vi, também, que as meninas têm muito pudor com algumas coisas, como sexo oral ou transar de quatro - como se só papai e mamãe fosse coisa de moça respeitável. A virgindade para muita gente era também tabu. Não entendia isso. As meninas tinham esse apego à primeira vez e muitos amigos meus transavam com prostitutas para "não fazer feio" com as namoradas.

Percebi que os homens entendem pouco ou quase nada do prazer feminino e fazem feio, sim. Que pode esquecer o ponto G, muitos deles não sabem nem o que fazer com clitóris. Fiquei desolada quando percebi que muitas mulheres também não sabem, que não se tocam e não se conhecem.

Aprendi a andar rápido na rua, a me sentir culpada se uso shorts, a passar calor correndo de top e camiseta ao lado de homens sem camisa. Aprendi a andar com a chave de casa nas mãos que é para entrar rápido ou usar a chave como arma, se necessário. Aprendi que se tenho uma opinião sobre algo, sou mal comida; se quero casar e ter filhos, sou antiquada; se não penso sobre isso, sou esquisita. Meus orgasmos são mal vistos, minhas tristezas e melancolias desprezadas e minhas emoções generalizadas de maneira simplista.

No trabalho, aprendi que se estiver concorrendo com um homem para uma mesma vaga, chances são de que ele vai ser escolhido. Afinal, que estranho é uma mulher com a mesma experiência que um homem mandando nele, né? O Fulano tem mais autoridade, mesmo. Não é machismo, é que ele tem uma postura de líder. Aprendi a esconder meu choro e ignorar minha raiva porque se demonstrar emoções vou estar agindo "como uma menininha". E a ter chefes homens e ganhar menos que colegas homens. Ouvi de bocas de pessoas que respeito que "se contratar mulher, vai ter que pagar licença maternidade depois".

Aprendi, também, que mulheres extrovertidas são divertidas e interessantes. Assim como mulheres inteligentes e críticas. Elas são atraentes. Mas não pode ser muito de nada disso. "Tem muito homem que não dá conta de mulheres confiantes, mesmo". Eles se sentem inseguros, então é melhor ser um pouco menos.

Me acostumei a me sentir oprimida o tempo todo. Ser um pouco menos do que queria ser --ou aparentar ser um pouco menos. Um pouco menos questionadora, um pouco menos engraçada, um pouco menos inteligente, um pouco menos ambiciosa, um pouco menos sensual, um pouco menos feminista, um pouco menos livre.

Me acostumei a me sentir sempre um pouco inadequada. Um pouco gorda demais, um pouco feia, um pouco decotada demais, um pouco mais velha, um pouco chamativa, um pouco culpada, um pouco inconveniente. O tempo todo um pouco. Algumas vezes um muito.

E aprendi que tenho que viver isso todos os dias e todos os momentos. Que muitos homens mal imaginam o peso de ter de ser sempre um pouco menos. Pior, que muitas mulheres estão tão acostumadas com essa vida que nem sequer percebem a opressão que vivemos. Aprendi que não posso reclamar, ou ouço que é "femimimismo". E não posso lutar contra, isso faria de mim uma "feminazi". Aprendi a viver uma vida com a sensação de que você é um pouco menos do que poderia ser ou faz um pouco menos do que poderia fazer.