OPINIÃO
03/02/2014 10:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Os comerciais que você nem sabia que eram machistas do Super Bowl 2014

A grande final da liga americana de futebol americano foi ontem (parabéns, Seahawks), mas o evento é muito mais do que o esporte. É o esporte sendo assistido por mais de cem milhões de pessoas ao vivo. E aí, meu amigo, aí tem dinheiro no meio. As propagandas que passam nos intervalos valem milhões de dólares e são famosas por sua criatividade e ousadia.

Já vou ser sincera: não assisti a todas. Achei uma lista que rankeava as dez melhores e passei por marcas que eu conhecia. Fiquei surpresa com duas que eram machistas e tentavam ser sutis a respeito. Como alguém gasta milhões de dólares naquilo e, em pleno 2014, ainda me vem com um resultado machista? Fiquei mais surpresa ainda quando comentei com alguns amigos e nem todos tinham críticas às propagandas.

Vamos a elas? Eram comerciais de (surpresa!) carros.

O primeiro chama "o sexto sentido do pai". Mostra um pai protegendo o filho em diferentes fases da vida até que ele começa a ensinar o moleque a dirigir. O garoto acaba se distraindo com uma menina e quase bate o carro que, por um milagre da tecnologia (sensores, gente, eu sei), freia sozinho.

Gracinha de propaganda, né? Já pensou que legal seria se eles tivessem quebrado com o estereótipo e colocado uma mulher para ensinar a guiar? Por que não um filho aprendendo a dirigir com a mãe? Não, carros são brinquedos masculinos, apenas homens os compram e, portanto, apenas homens dirigem. O mais legal é que apenas uma mulher aparece no comercial inteiro: a mocinha (bonita, claro; moça feia não para o trânsito) que serve para distrair o motorista e quase causa um acidente. Dois mil e catorze e a gente ainda tem de engolir esses cenários.

A segunda propaganda é mais cômica e, admito, eu dei umas risadas. Começa com um pai guiando seu Volkswagen e a filha no banco de carona. Por Deus! Uma menina sentada em um dos bancos da frente, achei revolucionário. Mas, peraí: a menina, óbvio, está ocupada demais com seu celular e não entende a empolgação do pai com aquela máquina que ele dirige. Por um segundo achei que fosse possível uma menina se interessar por carros e não só por bonecas, Volks. O pai explica que cada vez que um Volkswagen atinge certa milhagem, um engenheiro ganha asas. Aí somos transportados para a Alemanha onde, um a um, vamos vendo um engenheiro literalmente ganhando asas. Risos.

Mas, espera um pouco, volta a propaganda que eu não posso estar vendo direito: não existe nenhuma mulher na equipe de engenharia da Volks? Zero? Nada? Niente? É isso aí. Nós acompanhamos mais de dez engenheiros recebendo suas asas e nenhuma mulher à vista (em tempo: há um engenheiro negro, mas, assim, tem de estar atento para vê-lo). Minto: uma mulher, além da menina desinteressada, aparece no comercial inteiro. Não, ela não ganha asas, quem você pensa que ela é, uma engenheira? É uma mulher linda, dividindo o elevador com um engenheiro que ganha asas. As asas do homem acabam tocando na bela moça e ela, indignada com o toque, dá um tapa na cara do atrevido engenheiro. Engraçado, né?

Pode parecer bem pouco, mas propagandas desse tipo só reforçam as ideias machistas e estereotipadas que a sociedade tem das mulheres. A gente precisa abrir o olho para esses "pequenos" reforços do patriarcado. Jura que você não conhece nenhuma mulher que dirige ou se interessa por carros? Eu conheço várias. Quantas mulheres hoje são independentes financeiramente, compram seus próprios veículos e, há anos, se tornaram mercado consumidor e até admiradoras de setores que antes eram apenas reservados para aqueles que nasceram com um XY? Quantas não são engenheiras e estão aí construindo pontes, prédios, rodovias e, portanto, são também merecedoras de um par de asas?

Retratar um mundo sem mulheres -- qualquer que seja ele, não estou falando só do automotivo -- é de um atraso que não condiz com as modernidades que os comerciais tentam propagandear.

ATUALIZAÇÃO: O HuffPost Women publicou um artigo falando sobre como as propagandas foram "(um pouco) menos machistas esse ano". Com algumas importantes exceções, inclusive os dois comerciais acima, e as reações de mulheres no Twitter. Leia aqui (em inglês).