OPINIÃO
06/04/2015 15:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

'O futuro somos nós': crianças do Complexo do Alemão pedem paz

ALEX RIBEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO

"Eles falam de paz, mas só fazem guerra", diz um dos moradores. "Bala perdida não! Foi uma bala muito certa", grita uma das manifestantes, referindo-se ao caso do menino Eduardo de Jesus, 10, morto com um tiro na cabeça, no último dia 02. "Se a favela parar o Rio de Janeiro para. Não vai ter empregada, não vai ter motorista...", fala um dos organizadores, ao microfone.

Estão todos reunidos por uma mesma causa. Foram quatro pessoas mortas por tiro apenas nos dois primeiros dias de abril deste ano no Alemão, Zona Norte do Rio. Em protesto a essas e às outras mortes, cerca de mil pessoas caminharam da entrada da Favela da Grota, uma das doze do Complexo, até a Praça 24 de Outubro, em Inhaúma, neste sábado (04). No meio dos coros de "Fora UPP" e "Sem hipocrisia, essa polícia mata pobre todo dia", conversei com algumas pessoas durante o trajeto e aqui destaco o relato de dez crianças presentes na manifestação. Crianças como Eduardo, o menino morto na porta de casa, enquanto brincava no celular. Moradores dizem que não havia tiroteio na hora. A polícia fala que houve confronto com traficantes. O que será que essas meninas e esses meninos pensam sobre uma realidade que sangra tanto?

Dez crianças, de idades e pensamentos distintos, e um pedido que as une: paz. Elas falam sobre seus sentimentos, seus medos e sonhos. Respondem aos meus questionamentos de: o que é paz? Como você se sente por morar aqui? O que você sentiu quando soube da morte do Eduardo de Jesus? O que mais gosta de fazer no Alemão?, entre outras perguntas que iam surgindo no meio das conversas.

ADRIANE MENDES DA SILVA (11 anos)

"Eu me sinto em perigo. Não posso sair de casa."

"Eles (os policiais) sofrem muito no treinamento, que a minha tia disse. Chegam aqui e querem se vingar."

"Não querem saber se é criança ou adulto. Eles metem bala."

"Eu não acho que todos os policiais são maus como pessoas, mas eles deveriam prender os que vendem drogas, não matar inocentes."

JULIANA GLÓRIA (15 anos)

"Você não pode sair de casa para ir à padaria porque o próximo pode ser você."

"Paz seria se eles não vivessem dando tiro."

Adriane e Juliana perderam dois amigos baleados no fim do ano passado. Pela memória do Lucas e do Gabriel, elas cantam "eu só quero é ser feliz..."

LARISSA ALMEIDA (11 anos)

"Não estou aqui só por mim, mas por todos os moradores."

"Vim de branco pela paz."

Larissa Almeida foi a única com quem conversei que não mora no Alemão, mas tem família no Complexo. A casa da menina fica nas redondezas, e de lá também se ouve tiroteios. "É assustador", diz.

LARISSA BRITO DE OLIVEIRA (17 anos)

"Essa manifestação representa a paz que a gente quer e não está tendo."

"Quando eu estava voltando do enterro da tia Beth*, passei perto da UPP e um PM veio falar assim pra mim, ó 'headshot!'. Minha tia me perguntou na hora 'o que isso significa, Larissa?'. Eu falei 'no jogo de tiro, tia, significa matei. Ele quis dizer: matei. Matei, tia!", conta a menina, em tom de desamparo.

*Elizabeth de Moura, 40, morta no dia 01 de abril de 2015.

BRUNO DA CONCEIÇÃO (11 anos)

"A polícia em vez de trabalhar tá é matando morador. Eu me sinto ameaçado."

"Foi assim no dia 25 de março. Eu tinha ido para a festa do meu primo, estava sendo divertido, né? A gente estava brincando numa área aberta. Mas no final todo mundo foi embora correndo porque começou um tiroteio."

"Ainda não decidi bem o que vou ser (quando crescer)... até esqueci o nome. Mas quero fazer pesquisa em laboratório."

Bruno me contou que é muito amigo de um garoto que mora em frente à casa em que morava Eduardo de Jesus. Quando perguntei o que ele sentiu quando soube da morte do menino, disse: "Senti muita tristeza". Sobre o que mais gosta de fazer no Alemão, respondeu breve, sem titubear: "ah, de brincar!".

ALESSANDRA COSME DA SILVA (10 anos)

"Paz é ter calma."

"Eu vim pedir justiça. Os PMs têm que parar de ficar dando tiro porque estão matando muitas pessoas inocentes."

"Quero ser veterinária. Nunca gostei de ver as pessoas maltratando animais."

"O Eduardo que morreu era do meu tamanho. A mãe dele deve estar muito triste."

"É muita criança morrendo, pra lá e pra cá. Os policiais pensavam que o Eduardo era bandido. Ou pensavam que ele era filho de bandido."

"Eu me sinto muito mal com tudo isso. Eu não queria morar na favela. A gente só quer ter paz."

VANDILSON TARGINO (10 anos)

"Vim para o protesto pedir paz."

"Quero ser bombeiro para salvar a vida das pessoas."

O menino Vandilson me fisgou o olhar quando cantava obstinado: "Fora UPP! Fora UPP!". A voz saía com vigor, a cabeça balançava no ritmo dos pulinhos e a mão direita movimentava um balão branco. Vandilson é filho de nordestinos, como foi o menino Eduardo. Tem 10 anos, como tinha Eduardo. Vandilson quer ser bombeiro. Eduardo também queria.

MATHEUS DOS SANTOS (13 anos)

"Vim aqui pedir paz para o Complexo. Só tenho visto morte e guerra."

"Quero uma vida melhor pra mim. Quero ser jogador de futebol."

"Eu acho que o mundo está acabando com tanta gente morrendo assim. Sempre penso que pode acontecer comigo."

Matheus perdeu um amigo por um tiro nas costas. O garoto tinha 14 anos e, no instante do disparo, comprava uma pipa. "As crianças lá em cima não podem mais brincar. Eles (os policiais) acham que todo mundo é bandido ou filho de bandido", disse a mulher que acompanhava o Matheus.

VITÓRIA FERREIRA (6 anos)

"Vim protestar contra a morte do Eduardo e pedir paz."

"A paz é como a páscoa. Vida nova."

"Quero ser dentista. Porque dentista cuida dos outros."

O que você sente quando ouve os tiros?, perguntei. "Eu sinto medo". Por quê? "Não quero que meus irmãos morram", disse a menina. Vitória me contou também que estudava na mesma escola de Eduardo de Jesus e que já brincou com ele.

LETÍCIA VITÓRIA SILVA (5 anos)

"Eu não durmo mais no meu quarto."

"Não ter paz é quando uma pessoa é perturbada e não para mais."

O que você sente quando começa um tiroteio? "Nada bem...". E o que você faz? "Eu tenho que deitar no chão. Os adultos têm que checar as velas." Checar as velas?, pergunto. "É porque às vezes atiram no transformador e a gente fica sem luz dois, três dias", diz Rosângela Freitas, 53, avó da menina.

"A vovó ia fazer uma casa na árvore, mas do jeito que as coisas estão, nem vai dar mais, não é?", comenta Rosângela com a neta, que responde com meio sorriso.

No final do ano passado, um tiro de fuzil atingiu um quarto da casa da avó, a 15cm da cabeceira da cama. "Deixou tudo sujo...", diz a Letícia. Rosângela não quis fechar o buraco. "Foi no dia 31 de dezembro, você acredita? Estávamos felizes, pedindo que 2015 trouxesse paz, aí vem uma coisa dessas. Eu deixei lá, pra quem quiser ver", diz a dona da casa.

"A vovó deixou lá para entrar um ventinho...", comenta a menina.

Letícia Vitória, 5, comemorava o aniversário de um ano em dezembro de 2010, época em que o Conjunto de Favelas do Alemão passava a ser ocupado pela polícia. Era o começo do processo que pretendia a pacificação do Morro, iniciado em novembro daquele ano. "Ela (a Letícia) estava fazendo um ano quando comecei a ter esperança. Eu realmente acreditei nas UPPs. Achei que meus netos iam crescer num lugar melhor do que o que eu vivi. Nunca pensei que ela fosse ouvir um tiro! E hoje a gente vive pior", conta a avó, com os olhos voltados para a pequena, em desalento. Um gesto em que só cabe dor.

Há pouco tempo, Letícia passou mais de um mês sem ir à casa da avó, que mora no alto do Morro, por causa dos tiroteios constantes. A casa da menina, que mora com a mãe, fica na parte de baixo. "Nesse tempo sem me visitar, a Letícia perguntou à minha filha: mamãe, me fala a verdade. A vovó morreu no tiroteio? Por que você nunca mais me deixou ir lá? Você mentiu pra mim?", conta dona Rosângela, comovida. Letícia é apaixonada pela avó, que diz ter ficado muito emocionada no dia do reencontro. A menina lançou os bracinhos ao corpo da vó, num abraço caloroso e apertado, e logo emendou: "Vovó, não morre, não..."

Crianças no Complexo do Alemão pedem paz