OPINIÃO
21/05/2015 11:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Carta póstuma ao Eduardo Coutinho

Nos nossos primeiros encontros cinematográficos, quanto mais eu te descobria, menos as vitrines reluzentes dos shoppings me interessavam. Àquela altura eu já tinha lido muita coisa e muitos autores que falam sobre consumo e toda essa lógica que engana a gente, mas seus filmes me abraçaram para reforçar aquelas ideias.

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Meu querido,

Esse nosso reencontro em tela grande, numa sala escura, silenciosa e fria, me lembrou o nosso primeiro, numa aula da Consuelo Lins, alguns semestres atrás. Você não deve lembrar, porque já estava tudo gravado e pronto no filme, não foi nada muito pessoal, sabe? Diante de mim e da turma toda, nas imagens em movimento, nosso encontro coletivo se firmava. Eu tinha cinco anos quando você dirigiu aquele documentário e lançou no mundo, sem saber que uma hora ele ia me acertar.

Era quase fim de 2013 e eu vivia um rico período na faculdade. A Consuelo, essa professora que você conhece, me fazia ir embora de toda aula com vontade de fazer cinema. Naquela época eu queria ser tudo, na verdade, porque a depender da matéria eu saía de uma aula com vontade ser repórter de jornal, da outra querendo ser professora de universidade... vai saber. Mas o que interessa agora é dizer que foi em Babilônia 2000 que eu te descobri, e durante a descoberta eu tanto ri quanto chorei. No começo de tudo era a voz da Consuelo a me falar sobre você, dando brechas para um encanto antes de te conhecer na vida ou no filme, ou na vida do filme. Encanto consumado diante da tela.

Desde aquele dia, tanta coisa aconteceu! Não imaginei que não teríamos tempo, que eu não poderia mais te contar. Sei que você não é afeito a grandes celebrações, que para você cinema não é genialidade nem coisa e tal, então nem vou te dizer que acho os seus filmes geniais. Eu queria pelo menos te falar que você foi e é importante para a pessoa que fui, que estou sendo e que certamente serei. Mas não é uma importância como são as importâncias tradicionais, é uma importância fundamental, definidora de mundos em mim, ao mesmo tempo aberta para tudo o que eu ainda posso sonhar.

Te descobrir era também descobrir um mundo que dói dentro da gente, mas que pode ser, e é, em alguns cantos, muito melhor do que imagino. Porque esperança também salva e sustenta. As histórias e as pausas e as dúvidas e as humanidades que você captava, tais como às vezes eram, como às vezes se inventavam, sem a gente saber (porque a memória também tem dessas coisas), eram bonitas de ver. Incrível como aquilo me fazia sentir a vida pulsar! Eu, ali pelos meus 19, era um pouquinho de tudo o que eu ouvia em cada uma daquelas pessoas tão diferentes, mas tão iguais a todos nós.

E então nos reencontramos, no cinema, para as últimas conversas. Eu e você. Eu e o seu material finalizado, feito, lançado. Ao mesmo tempo, um filme que poderia ser, um quase, uma arte no meio do caminho de um artista que teve que ir embora depressa. Como poderia ter sido se você ainda estivesse aqui? Não saberemos. O que posso te dizer é que o que se formou é lindo. Seus amigos e companheiros de trabalho capricharam, te trouxeram pra perto de novo. Nem me lembrei que eu sentia saudade... Tudo parecia tão igual ao tempo em que dividíamos o mesmo mundo, a mesma cidade. Como você pode achar que esse filme não daria certo? A cada segundo que avançava, eu tanto me alegrava que te sentia mais vivo do que nunca. Nada tinha mudado. Era como se você realmente estivesse lá, na hora e depois do play. No fundo, penso eu, é uma sensação que tem fundamento. Porque você estava, mesmo. E está.

Quanto amor projetado no alto daquela parede! Um Coutinho meio vô, meio conselheiro, tão doce e tão atento. Um Coutinho rindo de si, mesmo quando parecia discutir, e o sorriso frouxo que escapava com sutileza. O filme que não ia dar certo, dando certo. Me fez rir, me fez chorar, me fez pensar. E, pelo que vi, divertiu também quem estava na sessão comigo. Tantas gargalhadas saíram que você precisava ver! Aliás, você deve ter visto...

Não me incomoda se uma das garotas filmadas é a favor das cotas para negros porque acha justo, se a outra discorda e não vai aderir porque acha injusto, mesmo que eu tenha as minhas posições. Tentar compreender já não é o bastante? Sem qualquer julgamento. Perceber que por trás do discurso de cada uma há história, vivência e trajetórias distintas, que contribuíram para que elas sejam o que são, deixa o mundo muito mais leve para mim. Abre passagem para que elas, e qualquer pessoa, estejam livres para ser. O que quer que seja. Quando você conversa com elas, é assim que eu te sinto: aberto, com disposição para ouvir. E nesse seu olhar, na serenidade, na sua abertura sincera para que o outro seja o outro, moram alguns dos maiores valores que o seu jeito de fazer cinema nos deixou. Ou que imprimiu, pelo menos em mim. E que também vale, ô se vale, na vida fora da filmagem.

Quando cada vez mais elementos cinematográficos foram sendo eliminados nos seus filmes, ao avançar do tempo e da obra, o mais importante ficou: as pessoas. A fala, a troca, a conversa, as histórias que contam de si. É por isso que eu digo que, nas aulas da Consuelo, li textos do João Salles, conheci a Flávia Castro, aprendi sobre o Wiseman, sobre documentário, sobre cinema, mas aprendi muito mais sobre gente. A mesma gente que me emocionou no seu último filme.

Nos nossos primeiros encontros cinematográficos, quanto mais eu te descobria, menos as vitrines reluzentes dos shoppings me interessavam. Àquela altura eu já tinha lido muita coisa e muitos autores que falam sobre consumo e toda essa lógica que engana a gente, mas seus filmes me abraçaram para reforçar aquelas ideias. No final do período, meu grupo do seminário fez um trabalho sobre você, que resolvemos chamar de "Eduardo Coutinho e o cinema do encontro". Horas e horas falando sobre você, imagina? Sobre o que existe hoje, no cinema brasileiro, por sua causa. Foi um dia bom, poético que só.

Quando eu soube da sua morte, me veio de imediato uma sensação meio egoísta: ele se foi e eu não o conheci. Que desencontro! Quanta dureza ter que encarar, ainda, o fato de que que seu assassino, antes de ser o seu assassino, é o seu filho. Morri um pouco ali. A última oportunidade que tive de abraçar você foi no lançamento do livro "Eduardo Coutinho", aquele da capa amarela, bem grande. Eu ia à livraria só para te ver, porque estava sem dinheiro para comprar o livro, e acabei deixando de ir justamente por isso. Nunca pensei que aquela seria uma chance perdida de te ver de pertinho. A última. Mas tudo bem, querido. Viver, a gente sabe, uma hora dá nisso.

Num outro dia a gente conversa melhor e eu te conto em detalhes o que tem acontecido desde que você foi ser outra coisa. Por aqui, prometo seguir tentando tocar o que você deixou de bonito, o que aprendi com a Consuelo e com todas as gentes que ouvi. Por aí, guarda contigo que sou toda gratidão porque, por mais bobo que pareça, todas essas coisas são muito valiosas para mim, para o meu jeito de ser no mundo. Vê só o quanto isso é inspirador?

Desejo que você esteja em paz, Coutinho. Que não existam placas de "proibido fumar" aonde quer que você vá, e que não te impeçam de entrar com seu cigarrinho.

Obrigada por ter existido. <3

Com amor,

Amanda.

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