OPINIÃO
12/03/2016 19:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Não perca os amigos (nem a cabeça) nos protestos

No próximo domingo (13), milhões de pessoas em mais de 150 municípios brasileiros deverão ocupar as ruas para protestar a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra o partido dela, o PT. Agressões entre manifestantes têm se tornado comum, lamentavelmente. Discordância sobre e na política vai haver sempre, e é bom mesmo que haja. Mas não vale a pena perder amigos e a cabeça por uma opinião ou por um posicionamento político.

Reuters

Marca-se um protesto, manifestação, ato em prol ou contra alguém ou alguma coisa (partidos, impeachment, corrupção, projetos de lei, discriminações e legalizações).

Lamentavelmente, na hora de tais protestos, temos visto muitos episódios em que o diálogo e a tolerância entre manifestantes tomam chá de sumiço. São prontamente substituídos pela intolerância, pelo estranhamento e pela total falta de empatia.

É voadora pra cá, pedrada pra lá, e se houver só gritos, é lucro. E depois de umas caminhadas com gritos de guerra, selfies e garrafinhas d'água, o resumo é mais ou menos esse:

"Fui para uma manifestação a favor/contra _____________________ e:

( ) Expus meus argumentos e não ouvi os dos outros.

( ) Expus meus argumentos e saí com a mesma opinião que tinha quando cheguei.

( ) Expus meus argumentos e vociferei contra qualquer um que tentasse falar o contrário.

( ) Não deu tempo de discutir, tomei um fatality antes."

O curioso é que as pessoas que se confrontam enérgica e violentamente nos protestos de cunho político muito provavelmente estiveram lado a lado no mesmo bloquinho de Carnaval. Ou falaram umas amenidades na fila da padaria lotada. Ou comentaram a previsão do tempo quando pegaram o mesmo elevador. Ou estudaram juntas. Ou frequentaram o mesmo supermercado. Ou tiveram curtidas recíprocas no Facebook. Ou pertencem à mesma família. Ou são amigas! <-- ênfase no "amigas" porque as amizades são convivências que escolhemos.

O que acontece com algumas pessoas para que o debate inflame a ponto de descambar para a agressão? E mesmo que não chegue à violência, vale a pena um desentendimento virtual e o rolo compressor das exclusões no Facebook? "Que babaca, falou um monte de idiotice, BLOCK."

Neste domingo (13), e nos dias que o antecedem e que o sucedem, vai se falar muito em política. Há protestos contra e a favor do governo atual. O País passa por uma crise com repercussão internacional, com grande descrença em partidos e também nas figuras que orbitam em torno deles. Fala-se em investigação, fala-se em punição, e ainda assim persiste uma grande sensação de desconfiança, completamente compreensível em um país tão afeito ao véu e às artimanhas encobridoras.

Será que sofrer calado(a) os efeitos e prejuízos de uma crise política e econômica não está alimentando uma raiva incontrolável e imprevisível? É natural que haja identificações com lideranças, mas é preocupante ver que essa identificação beira ao fanatismo que não permite a coexistência de um "outro". Será mesmo que "os outros" são tão diferentes assim?

Abra seu guarda-roupa. Existe alguma chance de ele abrigar roupas amarelas, verdes e vermelhas? Se sim, você enxerga algum tipo de incompatibilidade? Para usar uma cor, precisa aniquilar a outra?

No fundo, a maioria da população, e me incluo, queremos a mesma coisa. Andar de transporte público eficiente e sem transtornos. Almoçar e não se sentir assaltado pela inflação. Comprar tomate italiano na feira por menos de R$ 8 o quilo e NÃO ser Black Friday. Passar na casa de câmbio e transformar R$ 2 em um dólar e R$ 3 em um euro.

Trabalhar, trabalhar, trabalhar e ver que seu ofício permite pagar uma vida razoável, fazer planos, quem sabe poupar ou investir. Trabalhar, trabalhar, trabalhar e, quando chegar a aposentadoria, não precisar ficar trabalhando mais do que nunca para complementar a renda máxima paga pelo INSS.

Poder utilizar o sistema de saúde público mais próximo da sua casa ou não precisar pagar R$ 400 mensais de convênio médico que, acredite, não autoriza uma série de procedimentos. Pagar um condomínio que não se aproxime do valor do aluguel. Andar nas ruas com segurança e não achar que a morte do seu conhecido ocorreu porque ele reagiu, mas sim porque não houve o direito básico à proteção.

Ver um governo conciliar cuidados com a natureza e incentivos fiscais para a indústria. Ver que a Justiça vale para todo mundo.

Estudar e ser educado para a vida. Ver professores aplaudidos e valorizados, em vez de ameaçados e oprimidos. Viajar, conhecer culturas, e poder voltar com gosto. Ser amparado pelos direitos trabalhistas e não correr o risco de ser colocado no olho da rua sem rescisão.

Investir em educação e ver que seu conhecimento é valorizado e lhe dá a chance de construir algo. Ter um filho sem precisar fazer um financiamento no BNDES. Adquirir a casa própria sem precisar depositar todas as esperanças em um concurso de margarina. Abrir uma pequena empresa e não ser sufocado(a) pelos impostos. Ver sua empresa crescer e não ser sufocado(a) por impostos. Testemunhar o Leão mordendo fatias beeeem menores dos ganhos com seu trabalho.

Votar e não desconfiar da apuração. Escolher um(a) representante político e não lidar com o descaso dele(a). Votar e saber que o voto tem peso de lei e de mudança, e não simplesmente aquele dia origatório em que a gente pressiona a tecla "confirma" pra qualquer um. Acompanhar um mandato e não encontrar nele a palavra corrupção.

Olhar pro lado e não ter de fingir que o moço dormindo na rua é transparente e "já está acostumado a viver na rua". Olhar pro lado e não ver crianças vendendo pano de prato. Perceber que a senhora vendendo água na esquina agora é artesã, bordadeira numa cooperativa, e exaltada por seu talento. Saber que um menor de idade da periferia não precisa roubar para ter um tênis da moda, pois olharam para a situação desvantajosa dele e lhe deram oportunidade na vida. Constatar que o País não é mais caracterizado pela desigualdade social que tanto faz estragos.

Nós, brasileiros, choramos com os 2 Filhos de Francisco (ok, nem todo mundo, mas o olho ficou marejadinho, suponho). Ficamos emocionados com a solidariedade do Betinho. Nos comovemos com a morte do Ayrton Senna. Achamos incrível o homem ter pisado na Lua... o que une na emoção e na sensibilidade se fragmenta tão facilmente quando se aproxima do tabu que é discutir política!

Discordância sobre e na política vai haver sempre, e é bom mesmo que haja, se pensarmos em sistemas democráticos com revezamento de lideranças no poder e plena participação popular. Enquanto se puder discutir, manifestar nas ruas e ouvir opiniões consideradas "desagradáveis", "absurdas" ou "estapafúrdias", melhor. Porque o dia em que não se puder ouvir as diferenças, aí sim, estaremos todos unidos em um barco em pleno naufrágio. O que vamos ter em comum será o aterrorizante silêncio obrigatório.

Este texto foi escrito para publicação no dia 12 de março, a um dia das manifestações convocadas pelos movimentos Brasil Livre e Vem pra Rua Brasil. No dia 13, milhões de pessoas em mais de 200 municípios brasileiros ocuparam as ruas para protestar a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra o partido dela, o PT.

As Centrais Únicas dos Trabalhadores (CUT) estaduais planejavam realizar uma manifestação no mesmo dia, a favor do PT, e a própria CUT orientou suas centrais estaduais a não protestarem naquele domingo, para evitar confrontos e violência entre manifestantes. As manifestações foram reagendadas para o dia 18 de março, em todo o país.

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