Opinião

Acreditar no amor não deveria depender de casais famosos

Enquanto vivemos a vida de outros por meio da cultura de massa e da abusiva cobertura de celebridades, nos perdemos em espetáculos e automatismos dos casais perfeitos, mesmo os não famosos. Afinal, íntimo e privado nunca estiveram tão expostos como estão agora, sobretudo nas redes sociais. Mas o que temos, a partir de nosso voyeurismo, é uma falsa intimidade. Por maior que seja a exposição, nunca teremos acesso ao que se passa entre aquele casal - e entre qualquer outro. O amor das brigas, conflitos, ciúmes e tretas mil pode até estar fora da cena, mas não da realidade.
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Na terça-feira do 20 de setembro, o amor praticamente tomou um 7 a 1 na visão de algumas pessoas depois que Angelina Jolie e Brad Pitt anunciaram a separação.

Acabou a esperança, disseram outros. O ipê amarelo que estava florindo pra antecipar a primavera atirou as flores no chão, o cacto morreu de secura, o último par de meias lavadas foi usado, o Caetano deixou de estacionar o carro no Leblon, a luz acabou nos minutos finais de Justiça. Deu tudo errado.

Na tentativa de lidar com essa bomba do entretenimento, o humor chegou inspirado. A internet ofereceu suas melhores tiradas e memes, e ficamos a rir enquanto paralelamente pensávamos em amor (e fim deste).

Entre uma graça e outra, foi decretado que acreditar no amor estava difícil, especialmente depois das separações de Fátima e Bonner, Joelma e Chimbinha. Quando faltam referências, se acredita em quê?

O que entendemos por amor diz respeito às referências que temos dele, sejam elas reais ou completamente fictícias. Tais referências - desde nossos pais ou Romeu e Julieta - vão, ao longo do tempo, construindo a ideia que temos a respeito do amor.

A noção de amor está fundamentalmente ligada à linguagem, e portanto, à cultura: como esse amor é falado e por quem é falado? Por meio de quais palavras e atitudes ele se manifesta?

No filme O Mundo de Leland, o personagem de Ryan Gosling pergunta a um professor o que é o amor e aponta para a linguagem, de maneira bastante literal:

- Não sei qual é a definição do amor.

- Bom, você sabe o que é quando está amando.

- Mas o amor não está no coração. O amor está é na língua. É uma palavra, só isso.

Bem sabemos que o amor não estaciona na palavra... Ele se multiplica em inúmeros sentidos; alguns particulares, outros mais universais.

O amor romântico é um desses sentidos e talvez o que mais prevaleça em nossa cultura ocidental. A propaganda sobre ele é ostensiva e não menos sutil, quase sempre embrulhada pela "leveza" do entretenimento. Idealizamos o amor pelos filmes, novelas, discos, literatura e juras amorosas dos programas de TV. Lemos as narrativas de amores impossíveis e reprisamos o sofrido romantismo da segunda geração por meio de Pablo, a voz romântica.

Enaltecemos o amor desesperado e estético de Romeu e Julieta, que conviveram por pouco tempo e muito provavelmente se separariam na primeira tampa do vaso deixada levantada. O historiador Leandro Karnal, aliás, lembra que o amor do célebre casal vai de domingo à noite até quinta-feira pela manhã e se questiona se "isto vale como modelo de amor".

É que o amor de fato tem muito mais a ver com a realidade do possível e do limitado do que com as ideias que nosso imaginário construiu. Ele não chega com verniz ou música apoteótica. Quase sempre vem silencioso, sem alarde, e planta horinhas de descuido na sutileza do dia a dia.

"Muitos veículos da cultura romantizaram a versão de que o amor permite a completude e que é uma questão de tempo.... que não precisa de reflexão nem experiência, que a vida já tem reservada a pessoa ideal em algum lugar -- quase sempre por perto, que não precise se deslocar muito para achar a tampa da panela (risos)", comentou anteriormente o psicanalista e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP Claudio Cesar Montoto ao HuffPost Brasil.

Enquanto vivemos a vida de outros por meio da cultura de massa e da abusiva cobertura de celebridades (imprensa e audiência em um pacto sem responsabilização), nos perdemos em espetáculos e automatismos dos casais perfeitos, mesmo os não famosos. Afinal, íntimo e privado nunca estiveram tão expostos como estão agora, sobretudo nas redes sociais. Mas o que temos, a partir de nosso voyeurismo, é uma falsa intimidade. Por maior que seja a exposição, nunca teremos acesso ao que se passa entre aquele casal - e entre qualquer outro. O amor das brigas, conflitos, ciúmes e tretas mil pode até estar fora da cena, mas não da realidade.

Se optamos por viver a vida dos outros, nos baseamos nos outros e tentamos ser os outros, negamos nossas particularidades e nos angustiamos por nos afastarmos daquilo que realmente diz respeito às nossas próprias experiências. Nosso percurso particular pode nos render muito mais emoções e conquistas do que imaginamos, justamente por conta da imprevisibilidade da vida.

A cultura vai continuar nos trazendo um amor fantasioso, espetacular e mediado pelos olhares dos outros, ao passo que a realidade seguirá impondo a necessidade do esforço e do cultivo de relações.

Representações do amor em famosos vão aparecer ou se dissipar, mas a crença no amor não precisa se abalar por separações, desde que façamos da vida um território nosso. No anônimo e no mundano, podemos escolher construir esse sentimento, cultivá-lo com paciência e dedicação e expandi-lo para além da palavra e da foto do Instagram.