OPINIÃO
17/03/2014 14:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

'Relíquias' que não cabem mais na estante

Os novos tempos vão deixar nossa relação com os livros mais objetiva, "utilitária" no bom sentido, livre de obsolescências que, mais que títulos, dizem respeito a esse monte de frescuras em relação a nossas modestas bibliotecas privadas.

Já fui daqueles que considerava absurda a hipótese de me desfazer de alguns dos livros da minha biblioteca. O apego tinha lá um tanto de afetivo, mas também vinha daquela percepção meio religiosa, bastante comum, de que os livros têm algo de sagrado - como se toda "escritura" tivesse um valor em si, independentemente do conteúdo. E nem adiantava alegar ateísmo: se deixasse de ser relíquia cristã, acabava virando fetiche intelectual.

Nada soava mais sacrílego, por exemplo, do que jogar um livro no lixo: pecado capital, mandava o autor direto pros infernos com os avaros, preguiçosos e iracundos. Doar para um sebo (espalhar a palavra...) era até louvável, embora quem os aceitasse muito provavelmente os encaminhariam para uma caçamba próxima depois de um tempo.

Mas nada que a física, com sua mania de impedir que duas coisas ocupem juntas o mesmo espaço, não fosse capaz de mudar. E quando me convenci de que a falta de lugares vagos nas estantes (e falta de lugares vagos para as estantes) não dava a mínima para essas carolices, ficou claro também que eu podia me livrar de um tanto razoável de livros com a consciência tranquila. Não vou dizer que foram para o lixo: a gente não se livra facilmente de certas heranças.

Foram embora livros que, com alguma boa vontade, tinham sidos úteis quando lançados, mas que tinham sido ultrapassadas pelo tempo e cuja serventia como, sei lá, documento histórico/ antropológico era discutível. Alguns nem isso.

Os livros acima, achados na galeria de Rex Parker do Flickr, servem de ilustração. Títulos técnicos como esses - sobre válvulas de rádio, ondas curtas, fax e maravilhas artísticas que se pode fazer com Paintbrush num Windows 3.0 - nunca tive. Perorações sobre o mundo soviético e afins, tenho de dizer que sim. Imagine um tratado de Stálin sobre a "questão agrária" da URSS... pois é. E o que dizer de panfletos proselitistas disfarçados de biografias como Isto É Nixon, o Homem e sua Obra? Nada como Watergate para colocar as coisas no lugar.

E naquele lugarzinho sobrando na estante vai o Mamãe Arrumou um Emprego, a catástrofe anunciada (e malograda) do bug do milênio ou mais uma edição, lindona de, digamos, Moby Dick? Ao padre, confesso: prefiro o pecado do fetiche.

De mais a mais, tudo isso vai perdendo a relevância. Quem é que vai se apegar afetivamente a um download de um e-book? Quem vai achar que uns bits têm algo de sagrado? E quem, por fim, vai se preocupar com espaço físico, quando exatamente ele deixa de ser um problema? E se eventualmente surgir um interesse documental nas propagandas de Stálin ou Nixon, estão aí as bibliotecas online para conferir essas e outras histórias.

Os novos tempos vão deixar nossa relação com os livros mais objetiva, "utilitária" no bom sentido, livre de obsolescências que, mais que títulos, dizem respeito a esse monte de frescuras em relação a nossas modestas bibliotecas privadas.