OPINIÃO
22/04/2014 10:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Figurinhas, ditadura e mercado

O ano era 1975, e a coisa chamava-se Enciclopédia Escolar. Era, na verdade, uma peça de propaganda da ditadura militar, com as nossas riquezas, as nossas glórias e os vultos da nossa história.

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Nos últimos dias, apareceu um monte de marmanjo colecionando figurinhas da Copa. E já me perguntaram se eu estava nessa também, e, em estando, se tinha "figurinha repetida pra trocar". Embora parte desta expressão já esteja incorporado à língua, dita assim, no seu sentido mais literal, bate lá no canto do cérebro que guarda as memórias mais remotas.

Quando criança, tentei, claro, preencher os meus álbuns. De todos, o insuperável foi aquele dos personagens da Disney; outro, foi o do King Kong do Dino de Laurentiis (aquele do gorila absurdamente errado anatomicamente e com Jessica Lange mocinha); outro bem bacana: Guerra nas Estrelas (é, o primeiro).

Naquela época, pacotinhos de figurinhas eram caros à beça. Hoje é aquela coisa: pelo preço de um café nos Jardins ou no Leblon, leva-se uns 15 cromos pra casa, ou mais. Daí eu, garoto de classe média remediada, nunca ter conseguido completar os acima citados. Mas tudo bem: quem colecionou sabe que esse objetivo, finalíssimo, acabava sendo secundário diante do, como dizem, "processo".

O barato eram a expectativa pela tal figurinha difícil (no da Disney, a do coelho Tambor era quase impossível) e a sua contrapartida - a frustração de achar três iguais no pacotinho, o trigésimo sétimo Pateta que ninguém queria.

Na troca, a tal difícil podia valer dezenas de outras e fazer a vida do sortudo; a micada, por sua, tinha valor de mercado zero. Entre o pregão e a xepa, a troca era um instrumento de socialização, muito mais instrutivo sobre a vida e a economia do que a mera especulação do banco imobiliário.

Mas havia álbuns diferentes. Um que completei. Desgraçadamente, foi o mais feio, grotesco e descarado dos álbuns que já vi. O ano era 1975, e a coisa chamava-se Enciclopédia Escolar. Era, na verdade, uma peça de propaganda da ditadura militar, com as nossas riquezas, as nossas glórias e os vultos da nossa história.

Entre os vultos, estavam lá, na primeira página, o presidente Ernesto Geisel e seu vice... quem se importa? Essa coisa linda, bem desenhada, acima. Sei que, mané, colecionei. Por um motivo, acho, bastante específico: os pacotes eram baratíssimos, enchiam a mão na saída da banca de jornal. Não havia figurinha nenhuma especialmente difícil, nenhuma especialmente fácil.

A ideia, claro está, era não criar empecilhos para o álbum ser completado. Devia, imagino, ser subsidiado, na conta da propaganda do regime. Bem diferente da lógica de mercado que a Disney praticava, a coisa aqui pertencia à esfera estatal. Não seria de estranhar se houvesse por trás uma Figurinhabrás, cuidando para que todo cidadão-mirim tivesse direito aos seu álbum completo, enquanto os militares prendiam e arrebentavam.

Mas era o Estado que se fazia, as vezes, de pai generoso, provedor. Mesmo feio, mesmo mentiroso, tinha seu apelo, como tem para muita gente ainda hoje em coisa mais séria. O bom disso tudo é que, mesmo na época, era uma mentira que não se sustentava - e pela sua própria mecânica. Completado sem emoção, o álbum deixava uma imensa sensação de vazio, de tempo perdido, de que alguma coisa ali estava, claramente, errada.

Mais tarde, a vida, difícil com suas verdadeiras trocas, trataria de esclarecer a farsa. Aprendemos, mas não o que eles queriam. No mundo de verdade, em que é preciso ralar para completar o álbum, o barato é se divertir fazendo parte do jogo.

Tem figurinha repetida aí pra trocar?