OPINIÃO
13/07/2018 10:27 -03 | Atualizado 13/07/2018 10:27 -03

O que poderia derrubar Neymar, de verdade?

"É fundamental refletir sobre como a escolha de patrocinadores da Copa do Mundo impacta a cultura alimentar e como afeta a saúde de crianças."

Henry Romero / Reuters
Antes da eliminação, o camisa 10 da seleção brasileira figurou diversos comerciais televisivos da rede McDonald's, ao lado de seu filho.

Por Marina Pita e Renato Godoy*

O que aconteceria com o Neymar se ele comesse com frequência os produtos alimentícios produzidos por empresas patrocinadoras da Copa do Mundo de Futebol da Fifa? Estaria ele apto a jogar toda a partida de 90 minutos correndo de um lado para o outro? Ou a alimentação a partir dos produtos anunciados na Copa derrubaria o rendimento do atleta? Pois é, na euforia de acompanhar o campeonato, um fato está passando despercebido: a publicidade de produtos alimentícios e bebidas não saudáveis para consumo regular.

Marcas como Coca-Cola, McDonald's e Budweiser (sim, cerveja!) ganham uma baita exposição com o torneio, inclusive entre crianças e adolescentes, durante os jogos, intervalos e além. No caso da seleção brasileira, o patrocinador oficial Guaraná Antarctica, da Ambev, também entra na lista dos mais vistos.

Antes da eliminação, o camisa 10 da seleção brasileira figurou diversos comerciais televisivos da rede McDonald's, ao lado de seu filho.

É urgente atentarmos para a publicidade de junk food em eventos esportivos. Pesquisa lançada em março deste ano, nos Estados Unidos - onde o tema está em debate público -, mostra que três entre quatro anúncios e metade das promoções de bebidas exibidos ao longo dos dez mais importantes eventos esportivos, assistidos também por crianças, são de produtos com alto índice calórico ou de açúcar.

A responsável pela pesquisa, Marie Bragg, em entrevista à Reuters, explica que "existe uma mensagem inerente aos eventos esportivos sobre a importância da atividade física e da saúde, e a dieta é parte importante do bem-estar e da saúde" e "ter organizações esportivas altamente populares servindo de veículo para a promoção de junk food para crianças envia uma mensagem contraditória, incompatível com a manutenção de uma dieta saudável".

Em meio ao debate do avanço da obesidade no Brasil, é fundamental refletir sobre como a escolha de patrocinadores de um torneio esportivo impacta a cultura alimentar e, em especial, como afeta a saúde de crianças e adolescentes.

Seria irônico, não fosse triste, que produtos ricos em gordura, sódio e açúcar sejam aqueles atrelados aos atletas de alto desempenho, que figuram no imaginário social como heróis e exemplos, especialmente para pessoas em fase de desenvolvimento.

Em primeiro lugar, vale lembrar que, em dez anos, a prevalência da obesidade no Brasil aumentou em 60%, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016, segundo dados do Ministério da Saúde. Ainda, o número de crianças brasileiras obesas aumentou dez vezes nos últimos quarenta anos. Essa condição eleva o risco de desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão em idades ainda precoces e pode ter efeitos metabólicos, cardiovasculares, entre outros, com impacto também na saúde emocional de meninos e meninas.

O aumento da obesidade infantil no Brasil e no mundo é considerado uma epidemia, que sobrecarrega os sistemas de saúde dos países e é explicada por uma série de fatores, sendo cada vez mais questionável a predisposição genética como relevante, conforme explica o pesquisador Henrique Barros, epidemiologista que coordena o projeto STOP (Science and Technology in childhood Obesity Policy), apoiado pela União Europeia. Para ele, se fosse apenas uma questão genética, o percentual de obesos não cresceria em décadas, porque este não é um tempo razoável para alterações genéticas na população.

É fundamental, então, observar os fatores socioambientais. Segundo especialistas, vivemos em um ambiente obesogênico, com exposição excessiva a alimentos ultraprocessados e com baixo valor nutricional. Esta exposição se dá não só no comércio, mas também - e especialmente - por meio da publicidade - seja na televisão, na internet, ou no campo de futebol e no fundo da entrevista do jogador-ídolo. As crianças são consideradas alvos relevantes para a publicidade, porque influenciam a compra das famílias e, se atingidas precocemente, podem se tornar clientes leais de marcas por toda a vida, segundo os próprios publicitários.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, é preciso avançar na redução do impacto do marketing de alimentos e bebidas com baixo teor nutricional nas crianças para enfrentar a obesidade infantil. Mas enquanto esta batalha é ganha nos veículos tradicionais, inclusive com empresas assinando compromissos públicos de deixar de anunciar para crianças, os espaços de patrocínio, dos eventos esportivos por exemplo, continuam intocados e inquestionados.

Não à toa, diversas organizações de direitos do consumidor, da infância e adolescência, bem como alianças regionais pela saúde de diversos países da América Latina, lançaram uma petição para exigir que a FIFA retirasse o patrocínio da Coca-Cola ao evento.

"Precisamos ter uma visão mais crítica a respeito de quem patrocina eventos esportivos. No passado, as empresas de tabaco estavam presentes nesses eventos, mas a contradição de ter um produto prejudicial à saúde como patrocinador foi reconhecida", afirmou Paula Johns, diretora da ACT Promoção da Saúde.

Alguns esforços regulatórios já foram apresentados nesse sentido no Brasil. O mais recente deles foi o PL 4910/16, de autoria do deputado Alfredo Nascimento (PR/AM), que estipulava limites para a divulgação comercial de refrigerantes e bebidas gaseificadas. Entre essas limitações estava a vedação da publicidade desses produtos durante eventos esportivos. O esforço, no entanto, não surtiu efeito: após reação veementemente contrária do setor de bebidas e dos dirigentes esportivos, o próprio autor do projeto solicitou seu arquivamento.

Este é um debate que está acontecendo em diversas partes do mundo. Já em 2010, a World Cancer Research Fund criticou a escolha de patrocinadores pela Fifa (no caso, na Copa do Mundo de Futebol da África do Sul). Este ano, textos levantando esta bola foram publicados em veículos internacionais de renome, como o jornal inglês Telegraph. A World Obesity Federation fez uma análise da recorrência da obesidade entre os países cujas seleções participam da Copa e todos estão enfrentando este problema.

Então, que tal discutirmos os impactos da publicidade de junk food em eventos esportivos, estudarmos este tema no Brasil, para entender quais medidas devem ser tomadas?

*Marina Pita é jornalista e consultora do programa Criança e Consumo; Renato Godoy é jornalista, cientista social e assessor de Relações Governamentais do Alana

**Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.