OPINIÃO
10/10/2014 12:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

E no segundo turno? O que você fará?

Eleições 2014 - Votação no primeiro turno das eleições no Colégio Dom Orione, no Lago Sul, em Brasília.

Foto: Marri Nogueira/Agência Senado
Senado Federal/Flickr
Eleições 2014 - Votação no primeiro turno das eleições no Colégio Dom Orione, no Lago Sul, em Brasília. Foto: Marri Nogueira/Agência Senado

Ao longo de todo o primeiro turno, eu tive que lidar com um questionamento constante cujos ares me lembravam uma ejaculação precoce: "em quem você votará no segundo turno?". Tal pergunta é concomitantemente precipitada e sintomática. Precipitada, porque estávamos no primeiro turno. Sintomática, porque mostra bem a obsessão das pessoas com o chamado "voto útil". Pois bem, estamos no segundo turno e agora faz sentido me perguntar: "Alexey, e o segundo turno? O que você fará?".

Como eu não posso votar nem se eu quisesse, pois por razões pessoais estarei em trânsito, eu vou confiar no bom senso de vocês. E, quando falo em bom senso, defendo a necessidade de um voto crítico por seja lá quem vocês escolherem. Não consigo me apaixonar por nenhuma das alternativas postas, e não me movimentarei por isso. Seja lá quem for o candidato eleito, torço para que essa pessoa acerte nos rumos que dará ao nosso país. Torcer pelo melhor não adianta muito, pois não acredito em eflúvios que escapem de minh'aura reluzente, beneficiando esse ou aquele. Mas adianta muito ter uma postura crítica em relação a quem for eleito.

Vou me permitir dar alguns conselhos aos que militam entusiasmados por Aécio ou Dilma. São conselhos dados de graça [meus conselhos geralmente custam caro], segue-os quem assim quiser, ou não. Elenco-os, todos numeradinhos:

1. Se vocês querem convencer as pessoas que votaram em Luciana, Marina, Eduardo e os que votaram nulo no primeiro turno, saiba que você não conseguirá nada agindo de maneira ofensiva a quem está indeciso. Você acha mesmo que um eleitor de Luciana Genro votará em seu candidato depois de, por exemplo, uma postagem como esta:

"Quero ver em quem os aloprados da esquerda histérica da LucianTa vão votar" - disse a pessoa que milita por um dos atuais candidatos.

Uma pessoa que está indecisa precisa ser convencida com argumentos sólidos, não com ofensas. Sabem o espancamento moral perpetrado contra Marina e seus eleitores no primeiro turno? Eles lembram. Não se trata, no final, de "rancor", mas de cautela mesmo. Quanto mais um grupo se porta como louco, mais eu me afasto. Eu. Imagine os outros.

2. No Brasil, quem ataca mais baixo, perde. Sério. Lembrem das outras eleições. As pessoas não são burras, apesar de desde ontem vocês insistirem que o Estado de SP é burro porque votou no Alckmin e que a Bahia é burra porque elegeu um candidato petista.O argumento da burrice alheia é fácil, não exige nenhuma grande elaboração, apenas expõe a própria dificuldade para evocar argumentos melhores.

Sei que para muitos é difícil acreditar nisso, mas a questão é mais densa, não é mera burrice. Há diversas razões envolvidas, e duas pessoas não votam no PT ou no PSDB pelos mesmos motivos.

Quando me refiro a evitar ataques baixos, não falo em "não atacar". Ambos os candidatos e partidos são altamente merecedores de críticas pesadas. Mas se foquem em pontos significativos, demonstráveis. Chamar Aécio de "cocainômano", Dilma de "presidAnta" ou partilhar memes caricaturais só funciona com quem já não gosta de um ou de outro. Vocês querem convencer quem já está convencido? Quem é burro aqui? Vai ver, vocês não querem votos em seu candidato. Vocês querem apenas ofender os outros. Se for esse o caso, tomem consciência disso e sejam felizes!

Acreditem: os indecisos não são indecisos porque são burros. Ao contrário: eles pensam tanto, mas tanto, que não decidem.

3. Pessoas não são massa de manobra, têm mais pensamento próprio do que se pensa. Por exemplo: muita gente votou em Eduardo Jorge no primeiro turno, e ele anunciou apoio a Aécio Neves no segundo turno. Quem votou no PV não votará em Aécio apenas porque Eduardo recomendou isso. O mesmo se dá com os eleitores de Marina. Eles não são robôs programados por ela.

Por fim, um palpite:

Não será o fim do mundo se Dilma vencer ou se Aécio vencer. Ambos cometerão erros, que serão mais ou menos graves, mas o Brasil sobreviverá. Qualquer um que vença, vai passar bastante mal, pois terá praticamente metade do eleitorado contra si. Não se governa um país apenas com metade de apoio popular. A pessoa que vencer precisará atrair para si este apoio de metade da população.

SE Dilma vencer, vai ter que fazer um milagre para recuperar a moral do PT nos próximos quatro anos. Eu definitivamente não pertenço ao time dos antipetistas endoidecidos que só veem a corrupção petista e fazem de conta que a psdbista inexiste. Eu sou um eleitor antigo do PT: votei em Lula em todas as eleições, e não me arrependo. Mas agora, nesse momento, eu não reconheço no PT o que me fez nele votar. Lamento muito por isso. Espero que isso se recupere no futuro.

SE Aécio vencer, espero que o PT aproveite o tapa na cara e se reinvente, ponha a mão na consciência e pense "no que erramos? onde podemos melhorar?". Sério. Chega de ficar colocando a culpa em fatores exógenos. Se reinventem, pelo amor de todos os deuses.

Quem quer que vença, acompanhem essa pessoa criticamente. Poucas coisas são piores do que um voto empolgado e repleto de paixão cega, que faz vista grossa contra os erros do partido. Amor demais por um candidato, na política, incorre em decepções profundas. Da minha parte, desejo ao vencedor ou vencedora que acerte. Não sou suicida, e quero o melhor para o nosso país. "Quem" é esse melhor, eu não sei. Se eu pudesse votar, provavelmente escolheria pensando "no menos pior". Sim, eu sou o eleitor indeciso: o sujeito a quem vocês precisariam convencer a votar nesse ou naquele. Façam isso com civilidade e algumas almas vocês arrebanharão. Se preferirem continuar com o discurso de ódio nas redes sociais, enfim... cada um dá o que tem dentro de si.

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