OPINIÃO
06/10/2014 18:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Como o governo de São Paulo subverte o conceito de civilização

Brazil Photo Press/CON via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - MAY 22: Sao Paulo Governor Geraldo Alckmin during the announcement of measures of the program Sao Paulo Against Crime at Bandeirantes Palace on May 22, 2013 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Adriana Spaca/Brazil Photo Press/LatinContent/Getty Images)

Não foi a humanidade que inventou a hierarquia. Qualquer espécie que vive em bando está dividida entre líderes e subordinados. Matilhas de lobos caçam seguindo os comandos do lobo-chefe. Chimpanzés se aliam para matar o macho alfa do grupo, quando sentem que podem usurpar o trono. Humanos que vivem em estado de barbárie, como crianças de condomínio, também elegem seus líderes. O chefe mirim do prédio pode ser a criança mais forte, ou a mais carismática. Ou, mais usual, a que é mais forte justamente por ser a mais carismática. Ninguém ensina isso para a molecada, nem para os macacos, nem para os lobos. A formação de grupos com líderes e subordinados é tão natural entre as coisas vivas quanto a formação de nuvens é entre as moléculas de vapor d'água suspensas no ar.

Mas a formação de cidades, estados, governos, não. Não é algo que brota da natureza. É algo que inventamos justamente para controlar a natureza. Até por isso a primeira civilização propriamente dita, com cidades e governos, surgiu num lugar onde a própria natureza nunca colaborou muito: a Mesopotâmia, onde hoje fica o Iraque.

Começou quando os proto-iraquianos hackearam o solo. Em estado natural, só 0,1% da biomassa de um terreno consiste de algo digerível por humanos. O resto das plantas e dos animais são ou veneno ou coisas que o nosso corpo não sabe converter em nutrientes (caso do capim, que exige quatro estômagos e muita ruminância para se transformar em calorias).

Mas quando a agricultura apareceu, você sabe, as coisas mudaram de figura. Ao selecionar e cultivar as plantas mais interessantes para o nosso estômago, os caras fizeram a quantidade de biomassa por metro quadrado saltar daqueles 0,1% para coisa de 90%. Além disso, a maior parte dessas plantas interessantes eram grãos (trigo, cevada). Grãos digeríveis na forma de pão e de cerveja, armazenáveis na de farinha e, de quebra, conversíveis em ração para animais. Aí pronto, a natureza estava oficialmente hackeada, e domesticada: a vida nômade, com a obrigação de matar um bisão por dia, se tornava obsoleta. E a humanidade ganhava tempo livre para desenvolver a mais profunda das formas de arte: a engenharia.

É que a maior parte do terreno da Mesopotâmia era árido (e ainda é). Só as áreas próximas aos rios prestavam. A agricultura para valer, numa extensão decente de terra, só seria possível se o pessoal construísse canais e reservatórios Mesopotâmia afora. Aí eles aproveitariam as eventuais cheias dos rios para transformar terra seca em solo arável. Foi o que fizeram, por volta de 4000 a.C. Esses canais e reservatórios se tornariam os primeiros projetos de engenharia da história. E marcariam o início de algo ainda mais importante do que isso: a Suméria, primeira civilização de todos os tempos.

O projeto mesopotâmico de irrigação só teve como sair do papiro porque contou com algo inédito até ali: centenas de indivíduos cooperando num plano de longo prazo. Longo mesmo, porque não bastava canalizar e armazenar água das cheias. Tão importante quanto era racionar o uso dos reservatórios nas épocas de chuvas magras. Sem esse controle não haveria como alimentar todo mundo. E quem fornecia esse controle era um comando central, dividido em vários níveis hierárquicos, cada um com funções pré-definidas. Era a primeira forma de organização que dava para chamar de governo. Ou seja: o próprio conceito de Estado surgiu na Terra justamente para controlar o suprimento de água.

Mas agora, 6 mil anos depois, essa ordem virou de cabeça para baixo. Outro Estado, o de São Paulo, trocou o gerenciamento da água pelo de outro recurso, menos nobre: seu projeto de manutenção de poder. Se as chuvas continuarem magras, talvez nem dê mais tempo de racionar o consumo - não vai sobrar água para consumo nenhum, nem esbanjado nem racionado. E tudo porque a palavra "racionamento" não soaria bem no meio da campanha. Ao deixar de lado a racionalização do suprimento de água por marquetagem, o governo Alckmin consegue uma façanha épica: subverte o conceito de civilização. E devolve seus próprios eleitores à barbárie.

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