OPINIÃO
22/04/2014 13:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Como evitar spoilers (ou: a arte de ser sensual sem ser vulgar)

Por que não seguir o bom exemplo de narradores que deixam uma pista aqui, um indício acolá de que haverá alguma surpresa ao longo da trajetória de uma história, incitando a curiosidade sem precisar estragar um mistério?

Há alguns anos, a Folha de S. Paulo tinha uma política estranha sobre matérias ligadas a certos filmes e programas de TV. Quando Os Suspeitos, filme de Bryan Singer com Kevin Spacey e Benicio del Toro no elenco, estreou nos cinemas brasileiros, ganhou matéria de capa no caderno Ilustrada. Até aí, nada de mais. O problema: havia uma nota na qual a reportagem avisava que o maior segredo do filme era a identidade do seu grande vilão, Keyser Soze. E arrematava: se você quisesse saber quem era ele, bastava conferir a informação no rodapé da matéria, escrita de cabeça para baixo.

Pergunta retórica: adivinhem se fui capaz de resistir à minha curiosidade?

O pior é que aquela não tinha sido a primeira vez em que a Folha havia atiçado meu senso de bisbilhotice. Expediente similar havia sido adotado quando a Ilustrada publicou uma matéria sobre Twin Peaks, a série criada por David Lynch, dedurando no rodapé quem havia matado Laura Palmer. Mais uma ocasião na qual agi feito um incauto incapaz de resistir a uma curiosidade besta.

Admito que não tenho moral para reclamar daquelas matérias. Afinal, fui previamente avisado de que, se não quisesse estragar o choque que provavelmente teria com o final de Os Suspeitos, bastava ter desviado meus olhos daquele maldito rodapé. Mas aprendi, a duras custas, a lição. Quando O Sexto Sentido estreou nos cinemas, e soube que precisaria driblar quaisquer spoilers se quisesse manter intacto meu estarrecimento diante da trama, evitei acessar quaisquer fóruns online. Fiz bem: vi o filme na primeira sessão que consegui, meus miolos foram parar no teto no cinema diante da grande revelação e, só depois, entrei na internet a fim de ler críticas e conferir opiniões de outros espectadores. Como era de se esperar, não precisei navegar muito para encontrar estraga-prazeres de plantão: logo na primeira tela do principal fórum de discussões da época, esbarrei em três tópicos cujos títulos delatavam o final surpreendente do filme de M. Night Shyamalan: "Fulano é...".

Lembrei dessas histórias ao ver a indignação que se alastrou na internet por causa dos spoilers sobre o 2° episódio da 4ª temporada de Game of Thrones, exibido recentemente pela HBO. Um comportamento cada vez mais cíclico, nestes tempos de segunda tela e de espectadores que assistem a episódios de séries como True Detective, How I Met Your Mother e Breaking Bad, e não pensam duas vezes ao comentar em tempo real tudo que veem na TV em suas redes sociais.

Ok, entendo que pessoas queiram usar redes sociais para expressar sentimentos e opiniões. E que, quando são fortemente impactadas por uma obra, não represam suas vontades e comentam informações que nem todos os seus contatos gostariam de descobrir antes de ler, ver ou ouvir a história em si. E esta, para mim, é a questão-chave que me fazia criticar essa atitude: por que um desejo pessoal de compartilhar informações deve se sobrepor à vontade que muitos têm de não desejar saber antecipadamente revelações sobre uma história?

Antes de redigir este post, perguntei, em meu perfil no Facebook, o que pessoas achavam de spoilers: mais de cem comentários foram postados, com diversas opiniões exaltadas e divergentes sobre o assunto.

Certas opiniões corroboraram meu ponto de vista, outras me ajudaram a rever algumas convicções. Eis algumas das minhas conclusões:

1) Em um mundo ideal, spoilers viriam sempre acompanhados previamente por mensagens de alerta, 100% da população mundial possuiria bom senso e todos os problemas da sociedade contemporânea poderiam ser resolvidos por um coral de gente bem intencionada cantando "Imagine" de mãos dadas.

Como este mundo edulcorado de ficção científica é apenas um delírio inverossímil, não adianta fazer mimimi caso você se depare com um spoiler gritante num post no Twitter ou numa captura de tela exibindo a cena final de um episódio que você ainda não viu. Afinal, a linha de tempo de uma rede social é composta por dezenas de pessoas que você escolheu seguir por livre e espontânea vontade. E um coletivo tão heterogêneo jamais tomará o mesmo cuidado de uma Folha de S. Paulo que ao menos alertava sobre spoilers em suas matérias.

2) Não, não creio que exista um prazo razoável para que um spoiler seja cometido. Não importa que já se passaram 24 horas após a exibição de um episódio, ou 7 anos depois da estreia de um filme nos cinemas, ou 50 anos da publicação de um livro. Quem imagina que é um absurdo alguém não ter visto ainda filmes como Matrix ou O Império Contra-Ataca incorre no erro de só pensar nas pessoas da sua geração. Quando O Sexto Sentido e Clube da Luta entraram em cartaz, em 1999, Emma Watson tinha 9 anos, Neymar era um molequinho de 7 anos e Lorde, a cantora, mal havia completado 3 anos de idade. Não é justo privá-los de se surpreenderem com as reviravoltas dessas produções. E eu, afinal, teria adorado ler Grande Sertão: Veredas desconhecendo o segredo de um de seus protagonistas, ou assistir à saga Guerra nas Estrelas sem ter a menor ideia da revelação ligada ao passado de Luke Skywalker.

3) Um argumento aceitável dos defensores de spoilers é a afirmação de que o mais importante não é descobrir a grande reviravolta de uma trama ou o que acontece no final, e sim saber apreciar a narrativa, o desenvolvimento dos personagens e toda a trajetória que leva a um desfecho. Concordo com isso, e argumentei algo semelhante quando defendi o final de Lost.

Mas grandes obras também buscam proporcionar momentos catárticos, que se tornam ainda mais impactantes na mesma proporção em que sabemos menos sobre seus enredos. Pois há histórias em que certas cenas e detalhes funcionam como indícios e presságios de um acontecimento posterior, e o autor cria toda uma estrutura meticulosamente construída para que sejamos surpreendidos em determinado ato. Isto é, se não formos pegos por aquele garotinho da 5a. série que ainda habita o espírito de certas pessoas que agem como moleques que passam por uma fila de cinema gritando o final do filme que ainda vamos assistir.

Pena que seja quase impossível desfrutar de um longa-metragem como Psicose exatamente do modo como foi concebido por Alfred Hitchcock, que mandou espalhar cartazes nos cinemas pedindo que ninguém revelasse os segredos mais chocantes da história, proibindo ainda que as salas permitissem a entrada de espectadores após o começo de uma sessão, alegando que isso impediria que eles apreciassem devidamente sua trama. Do mesmo modo, lamento por aqueles que não conseguirão se surpreender com o plot twist de O Sexto Sentido e não se divertirão tanto quanto eu, que saí embasbacadamente atarantado da primeira sessão em que o vi. Detalhe: revi o filme de Shyamalan mais duas vezes numa sala de cinema. Na segunda vez, busquei reparar em todas as pistas sobre o desfecho deixadas pelo diretor desde as primeiras cenas. Na terceira, descobri que, por trás da fachada de um filme de terror, havia uma belíssima história de amor. Ter escapado de spoilers, neste caso, manteve minha diversão incólume e só fez aumentar meu interesse pela engenhosidade de sua trama.

4) Evitar cometer spoilers em tempo real demanda um exercício básico de empatia: "Ok, eu não ligo para spoilers e até fico mais curioso em acompanhar uma história quando descubro certas informações, mas será que todos pensam como eu? A minha diversão em compartilhar publicamente o que acabei de assistir não pode, de alguma maneira, estragar o entretenimento de outra pessoa?". Pena que esse esforço básico de procurar se colocar na pele do outro é uma prática cada vez menos comum.

5) Como na maior parte das brigas na internet, as discussões a la Fla x Flu entre vítimas indignadas de spoilers e pessoas que desdenham dessas reclamações, trocando entre si adjetivos como "mimizentos", "caga-regras" ou "babacas", não levam a absolutamente nada.

Gostaria de ver mais pessoas capazes de comentarem as reviravoltas de uma obra sem apelarem para a vulgaridade escancarada de um spoiler explícito. Por que não seguir o bom exemplo de narradores que deixam uma pista aqui, um indício acolá de que haverá alguma surpresa ao longo da trajetória de uma história, incitando a curiosidade sem precisar estragar um mistério? Creio que é perfeitamente possível comentar um livro, filme ou série de TV apenas insinuando um grande segredo, por meio de reticências instigantes, o decote excitante das entrelinhas ou o sorriso oblíquo de uma interrogação. Pensem nisso. ;)