Opinião

Que mau hábito tecnológico você quer mudar?

A tecnologia evoluiu e, junto com ela, hábitos desagradáveis passaram a fazer parte do cotidiano de cada cidadão. Proponho um conjunto de regras para o Brasil.

Em 2013, o FCC, que é a Comissão Federal de Comunicações, na sigla em inglês, liberou o uso de aparelhos eletrônicos com internet, como os celulares, nos vôos dentro dos EUA. Por ora, apenas para que os passageiros enviem mensagens de texto, emails e acessem a internet. Ligações não são permitidas. Ainda assim, o ruído contra e a favor segue firme por lá. No entanto, claro que mesmo num país com hábitos e cidadãos "educados" também existe espaço para excessos e incômodos.

Mas, inspirado pelo exemplo americano, e se acontecesse o mesmo aqui, o que você faria? Ou melhor, qual dos novos hábitos provocados pelo (mau) uso da tecnologia (ou pelo uso inadequado desta por pessoas mal educadas) você gostaria que fosse limitado e/ou fiscalizado?

Num país quente, caloroso e calorento, que se gaba de ser receptivo e festeiro, sempre tem e teve espaço para ultrapassar os limites existentes e "pôr na conta do vizinho" aquilo que é de responsabilidade de cada um: o respeito, os cuidados e o bom senso. Depois das facilidades que as novas tecnologias e a web trouxeram, conviver no mesmo espaço público com uma infinidade de tipos de pessoas nunca mais foi a mesma coisa.

Segue, então, uma série de maus hábitos relacionados à tecnologia que certamente incomodam e criam, em mim e em muitos, o desejo quase alegórico que sejam regulamentados ou, ao menos, minimamente respeitados.

Além das ligações por voz

Para começar, já que falamos de ligações, lá no início, que tal se de cara as chamadas telefônicas (principalmente aquelas em voz alta) tivessem um regulamento próprio em lugares públicos? Serviria para ônibus, metrô, filas, restaurantes, praia, lojas e onde mais haja mais que meia-dúzia de pessoas. Serviria até para uma calçada lotada de gente apressada que, por conta de uma criatura dessas que não pensa duas vezes antes de engatar um papo animado no meio da rua, quase sempre se veem tropeços, atrasos e um monte de gente hesitante e quase parada.

Outro dia, num ônibus, uma moça toda graciosa estava resolvendo a vida: deve ter aproveitado os minutos grátis de seus vários chips para ligar para a mãe, para a manicure, para o porteiro do prédio e até para uma loja em meio aos demais passageiros (eu, inclusive), em pleno Aterro do Flamengo. Tratava de todos os assuntos em voz bem alta, sem se importar com detalhes, zero privacidade. Sem se importar com ninguém em volta, na verdade. Indiretamente eu também era parte dos papos, nem tive escolha. Mas é insuportável, viu? E aqueles minutos de suposta tranquilidade até chegar em seu ponto de descida, onde você poderia aliviar sua mente, ordenar uns pensamentos ou mesmo só relaxar?

Enviar SMS no trânsito é outro problema. Quase sempre a gente vê motoristas -- de táxi, de ônibus, particulares -- escrevendo mensagens em seus celulares, sem nem perceber os demais veículos e pedestres. Nem sinais de trânsito, nem o trânsito em si. Mensagens de celular, enquanto ao volante, deveriam dar multa das mais pesadas. E se fossem enviadas usando Whatsapp ou Facebook, mereceria o dobro.

Aproveitando o embalo, aqueles insuportáveis fones bluetooth numa orelha só, tipo um "enfeite "pré-ligações -- quem usa deve pensar algo como "se me ligar, to pronto para atender no ato, cheio de estilo! E sem usar as mãos." -- mereciam perder o sinalzinho azul com o aparelho se a pessoa estivesse caminhando, cheia de pompa, como se estivesse desfilando a última moda.

Que os chatos paguem por sua insistência

Ainda sobre telefone, atendê-lo no cinema é algo que deve ser banido imediatamente. Acontece sempre e tem uns inocentes (para não dizer outra coisa) que não desligam o bicho não. Deixa lá, como vibrador, e quando vai olhar, acende aquela luz semi-estroboscópica que reflete na fila inteira dentro da sala escura. Ou seja, não é só a pessoa mal-educada que perde a atenção no filme.

Nesse caso, qualquer multa por insistência no uso deveria ser paga à distribuidora e ao cinema. Além de boa lição que ataca no bolso, ainda contribuiria para melhorar o nível das salas de exibição, em todos os sentidos.

Já os restaurantes da cidade, em horários de pico no almoço ou jantar, poderiam ter permissão da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (endossada pelo Senado e até pela Prefeitura) para cobrar mais que os 10% na conta daqueles que ficassem em seus recintos usando os smartphones (ou, sei lá, tablets: existem doidos de todo tipo hoje em dia!) enquanto ocupam a mesa e aumentam a fila de espera. Já o contrário também seria válido: um desconto para os que segurassem a onda e não usassem seus aparelhos para, por exemplo, postar o detalhe do prato no Instagram. Que estivessem no local apenas para curtir a comida, beber um pouco e conversar entre si, olho no olho.

Quase o mesmo poderia ser aplicado às casas de shows ou aos festivais, que todos os anos acontecem. Nesse caso, a maioria do público pagante desses eventos aprendeu a ver a performance de seu suposto artista favorito através das pequenas telas de seus celulares, que gravam tudo o que acontece no palco freneticamente. Quem está atrás precisa desviar o olhar dos braços esticados que servem de apoio para os dispositivos, numa busca absurda para encontrar o melhor ângulo de visão durante o show. Isso quando não são usados tablets enormes, que são ainda piores e mil vezes mais ridículos.

Se o exemplo da Broadway fosse adotado aqui no Brasil, quem sabe as coisas seriam um pouco, só um pouco, diferentes. Lá, você não pode fazer a menor menção de tirar foto do que quer que seja dentro do teatro sem ser chamado à atenção por algum usher que atua na produção. Aconteceu comigo, e só fui tirar uma foto da cortina do espetáculo do Spider-Man, antes de começar. Aí você vê que mau hábito pega.

Bom senso é tudo

No fim das contas, nos lugares onde menos se espera, sempre tem alguém pronto para demonstrar seu mau hábito tecnológico. Em academias de ginástica, praticamente todos carregam seus iPhones e Androids para cima e para baixo, apertando, cutucando e tocando esses dispositivos em quaisquer aparelhos nos quais estejam para se exercitar. Pausa para respirar, beber água e retomar o fôlego entre uma série e outra de abdominal? Então lá vai o indivíduo checar email, responder mensagens, ver fotos. Tudo tranquilamente durante o uso do aparelho, sem a menor cerimônia com os que ficam à sua volta, aguardando a vez. Já vi até gente brincando com iPad enquanto fazia caminhada na esteira.

Que fique claro que não tenho nada contra essas redes sociais, apenas contra os novos e maus hábitos que vieram depois delas. Contra os mal-educados também.

Facebook, Twitter e todas as demais redes sociais, além de smartphones e tablets, são boas ideias e já fazem parte de nossa realidade. Adiantam nossa rotina. Precisam apenas de uma revisão no uso. Por outro lado, também é necessário, antes de qualquer coisa, uma revisão na mentalidade e na forma de perceber o local e o momento de uso por parte de cada um de nós. Inclusive porque nem toda regulamentação governamental tem que ser restritiva ou punitiva, isso depende muito do ato de cada cidadão.

O que faz toda a diferença, em todos os exemplos citados aqui, é o bom senso. E isso, nenhuma tecnologia, nova ou velha, conseguirá mudar -- é como educação: não se aprende na escola.