OPINIÃO
01/01/2015 12:45 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Uma presidente partida ao meio

O segundo mandato de Dilma será ou um retorno ao petismo neoliberal da era Lula, ou uma aposta ainda maior no fracasso desenvolvimentista.

roberto stuckert

O que veremos em 2015 é uma presidente partida ao meio.

Até 31 de dezembro de 2014 a história de 12 anos do PT no poder pode ser dividida em duas fases. Um período ortodoxo (de 2003 a 2008) e outro heterodoxo (de 2008 a 2014).

Em 1998 Lula formou uma chapa de grande simbolismo com Leonel Brizola. O líder da esquerda pós-ditadura associado ao líder da esquerda pré-ditadura lutando juntos contra o "neoliberalismo". Simbolismo, porém, não enche a barriga de ninguém. Pra ganhar, Lula trocou o expropriador da Bond and Share pelo expropriador de mais-valia José Alencar (e justo do setor têxtil, o primogênito do capitalismo industrial). Mudou os ternos, os dentes, a barba e o velho discurso com hálito sindical. Lula versão coxinha.

Vitorioso, coloca um "ex-banqueiro tucano no BC", como dizia a capa da Folha de S. Paulo de 13 de dezembro de 2002. Meirelles manteve a diretoria com os indicados de Armínio Fraga. Para a Fazenda, Antonio Palocci. Por detrás de Palocci - o mais importante - estavam economistas ortodoxos como Joaquim Levy (nosso futuro Ministro da Fazenda), Murilo Portugal e Marcos Lisboa.

Mercadante e Suplicy, para alegria do mercado, nunca estiveram tão distantes da Fazenda. A santíssima trindade do câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário foi honrada e reverenciada. O BC nunca mais foi tão independente quanto nos tempos de Meirelles.

Em uma época gloriosa da economia global, com a China crescendo como que exponencialmente, com grande quantidade de dólares circulando pelo mundo em busca de tomadores, com o preço das commodities disparando, com grande quantidade de capital e trabalho ociosos no país, Lula navegou com o vento ao seu favor. A economia cresceu, desemprego, pobreza e desigualdade caíram, o dólar se apreciou, as reservas internacionais se multiplicaram, a SELIC caiu pela metade. Tudo deu certo. Todas as variáveis econômicas e sociais apresentaram melhora, como costumam recordar em forma de tabelinhas nossos amigos petistas no Facebook.

Palocci já era passado no início de 2006, graças ao vergonhoso episódio da quebra do sigilo de Francenildo. Mantega saiu do Planejamento e iniciou em março daquele ano a mais longa carreira de Ministro da Fazenda em nossa história. Seus atritos com Meirelles foram imediatos.

Em 2006 Lula flerta com a heterodoxia.

Em 2008 vem a crise e o flerte torna-se namoro. Nada sério ainda, coisa temporária chamada à época de política anti-cíclica. Na hora do aperto todo ateu reza e todo liberal vira keynesiano. Os bancos públicos de modo voluntarista ampliam o crédito, o BNDES recebe grandes volumes de recursos. Começam as desonerações a setores como o automobilístico, na busca de retomar o nível de atividade industrial. O BC, porém, manteve-se imaculado.

Quando Dilma assume o governo em 2011 o namoro com a heterodoxia vira casamento. Ela assume os cargos de Ministra da Fazenda, Ministra do Planejamento, Secretária do Tesouro, Presidente do Banco Central e outros. Dilma é economista, o que é um grave defeito. E como economista sua alma mora na UNICAMP, um dos principais e mais tradicionais centros heterodoxos do país.

Como Presidente do BC, Dilma decidiu que o objetivo não era mais atingir o centro da meta de 4,5%, bastava que o IPCA encerrasse o ano abaixo do teto de 6,5%. Nas atas do COPOM ela escrevia um palavrório sobre "não-linearidade da inflação" só pra disfarçar. Dilma também segurou como pode qualquer elevação da SELIC às vésperas das eleições, mas bastou garantir a vitória que ela aumentou os juros como quem não quer nada. Adeus BC independente! Adeus meta de inflação!

Como Secretária do Tesouro Nacional Dilma inovou na contabilidade. Transforma-se despesa corrente em receita futura, transforma-se expectativa de receita em receita corrente. Como já dizia o velho Orwell: 2+2=5. E não bastasse isso, no desespero, Dilma distribuiu favores de forma a cumprir uma bisonha meta de superávit primário que há muito significa absolutamente nada. Adeus superávit!

A economia e as instituições se degradaram gravemente durante o primeiro governo Dilma. Mas o desemprego continuou baixo, a inflação seguiu tolerável, os salários cresceram. E isso foi o bastante para o eleitor.

Agora Dilma está como o Visconde: partida ao meio. Dado o fracasso de sua gestão como Ministra da Fazenda e Presidente do BC, Dilma decidiu (ou decidiram por ela?) chamar Joaquim Levy para colocar as coisas em ordem. Sugerindo uma mea culpa com a ortodoxia. Mas pelo que se comenta em Brasília e pelo que se vê na superfície, Dilma não é pessoa de delegar, quanto mais de aceitar que um subordinado tome decisões livremente. Pra mim, qualquer movimento ortodoxo terá vida curta.

Por conta da perda de credibilidade construída nos últimos anos, Dilma terá que fazer significativas elevações na SELIC para trazer o IPCA para 4,5%. Para dar novamente credibilidade à política fiscal será preciso um gigantesco aperto de cintos. E ainda assim nada garante que o crescimento econômico voltará em um futuro breve.

A melhor forma de perder votos e popularidade é fazendo ajuste fiscal e aumentando juros. Dilma venceu por uma margem bastante estreita. Seguindo a receita do neoliberalismo malvado que tira comida da boca de criancinhas, o PT ficará sem discurso em 2018. Pode não conquistar o voto dos mais direitistas, e pode perder votos entre os mais esquerdistas. Pode não agradar aos assinantes da VEJA, e desagradar os da Caros Amigos.

A oposição saiu fortalecida, o que encoraja os descontentes no Congresso.

Graves denúncias de corrupção não param de surgir e se desdobrar. O depoimento de ex-diretores e doleiros com uma lista telefônica de políticos parece que vai emergir, e ninguém sabe o que pode acontecer.

O cenário é desolador para nossa presidente. Ela deve estar agora angustiada enquanto come brioches comprados no cartão corporativo na cozinha do Alvorada.

O segundo mandato de Dilma será ou um retorno ao petismo neoliberal da era Lula, ou uma aposta ainda maior no fracasso desenvolvimentista.

Acho que Dilma vai morrer abraçada com seus erros.

Sua única esperança de sucesso é que a economia global retome parte da pujança daqueles gloriosos anos iniciais de Lula. Mas isso parece pouco provável, ainda que Armínio Fraga - economista muito mais respeitado do que eu - diga que a crise já acabou. Mas acabou foi é nada.

É pouco provável que 2015 e 2016 sejam anos de alegria.

Aos leitores meus votos de um feliz 2017.

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