OPINIÃO
12/03/2016 09:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

'Se fizer bom tempo amanhã, eu vou'

As ditas lideranças pró-impeachment por todo o Brasil, aliás, são figuras que só me causam enfado. Uma pessoa com mais de 12 anos que enxerga naquele rapazote Kim um herói político-intelectual, não passa no meu exame psicotécnico de bom senso. O mesmo vale para entusiastas de grupelhos como "revoltados online", "movimento brasil não sei o que", ou coisas do gênero. Todas essas figuras me soam demasiadamente aborrecidas.

ASSOCIATED PRESS
A demonstrator arrives by bike with a placard written in Portuguese

"Mas se, por exemplo, chover. Não vou."

O que Dorival dizia pra Maricotinha, é exatamente meu posicionamento sobre os protestos deste domingo.

Acredito ter ido em todos as manifestações realizadas aqui em Brasília pelo pessoal pró-impeachment.

Não por ser entusiasta da causa, mas porque sempre fez bom tempo.

Domingo é dia de pedalar pelo eixão e os protestos ficam no meio do meu caminho.

Por isso fui. Por isso, talvez vá.

O primeiro protesto foi realmente impressionante. Ao que consta havia mais de 30 mil pessoas. Aquela serpente verde-amarela que se arrastava pela Esplanada dos Ministérios, parecia capaz devorar Dilma.

Já o último foi bem chumbrega, chocho.

Conheço pessoas capazes e esclarecidas que participam das manifestações, mas desconfio se eles são a regra.

Observar essas passeatas é o equivalente sociológico de ir a um show de horrores, um zoológico imaginário. O que mais se vê por lá são espécies que não se pode crer reais. Ornitorrincos políticos, que parecem ter sido feitos não pelo criador, mas por algum taxidermista alcoolizado.

No último evento eu abri bem os olhos e ouvidos para perceber em plenitude aquele estranho mundo em que eu me encontrava.

Quando comecei a ouvir o que falavam os grupinhos ao meu redor, tive uma mistura de medo, vergonha-alheia e preguiça (deve haver alguma palavra em alemão que traduza esse sentimento).

A primeira coisa que eu topei foi um grupo de acampados pedindo uma tal de "intervenção militar constitucional". Saibam: existem pessoas burras, existem idiotas completos e existem os que escrevem faixas em inglês pedindo intervenção militar. Esses são os moradores das masmorras do poço profundo da jumentice.

Adiante, um rapaz recém-saído da puberdade tentava me convencer dos benefícios da volta da Monarquia. Vossa mercê há de me perdoar, mas me inclua fora dessa.

Caminhei rumo a saída do evento com medo de encontrar uma turma pedindo a volta do paleolítico.

Nessa tentativa de fuga daquela matrix danificada, dei de cara com um carro de som. Em cima dele, alguma criatura despreparada e desarticulada falava coisa sem sentido.

Perto de mim um grupo de adolescentes de 16 ou 17 anos com uma camisa escrita "Olavo tinha razão".

Ah, o horror!

E lá pelas tantas, o povo danou-se a cantar o hino nacional.

[Minha única decepção foi não ter visto ninguém dançando o axé do impeachment - "seja patriota vem lutar pela nação..." - Eu não gostaria de morrer sem ver essa bisonhice ao vivo]

Nenhum desses grupos me representa. Prefiro ser governado por uma junta de cavalos do que por qualquer um deles.

Além do mais, nessas manifestações todo mundo é muito patriota, tem cara de gente séria, que paga impostos, temente a de Deus, respeitadores da moral, de bons costumes. É virtude demais para este pobre coração pecador. Como no poema em linha reta, eles são campeões em tudo, enquanto em não sei nem preencher cheques.

As ditas lideranças pró-impeachment por todo o Brasil, aliás, são figuras que só me causam enfado.

Uma pessoa com mais de 12 anos que enxerga naquele rapazote Kim um herói político-intelectual, não passa no meu exame psicotécnico de bom senso. O mesmo vale para entusiastas de grupelhos como "revoltados online", "movimento brasil não sei o que", ou coisas do gênero. Todas essas figuras me soam demasiadamente aborrecidas.

Já as lideranças partidárias de oposição também não são lá grandes coisas. Eu não lutaria para colocar FHC de volta no poder. Lembro muito bem do seu segundo mandato, isso me impede de sentir qualquer saudade parecida com saudade.

Aécio Neves é insosso e está constantemente próximo de coisas não muito bem explicadas.

E pior, FHC e Aécio são o que de menos ruim há nessa raquítica oposição. Depois deles seguem Bolsonaro, Ronaldo Caido e outras figuras do mesmo porte.

Mas, como já escrevi antes, eu sempre fui cético sobre as possibilidades de impeachment. Agora, creio ser um resultado nada improvável.

Novas eleições estão fora do jogo. Não há como entregar a presidência do país, seja por um dia ou um mês, nas mãos de desprezíveis figuras do naipe de Cunha ou Calheiros. Caso isso ocorra, é melhor pedir a saideira e fechar esse cabaré.

O mais provável é que neste momento estejam ocorrendo conversas de bastidores para um eventual governo de transição sob a liderança de Michel Temer. Arranjo similar ao que foi feito com Itamar. Há muitos interesses em jogo e, ao contrário dos tempos de Itamar, há o expediente da reeleição, o que complica tudo ainda mais.

Não é a saída ótima, mas se ocorrer o impeachment, as coisas devem caminhar por aí.

Dilma não tem mais condições de resolver os impasses econômicos e políticos que ela mesma criou com suas desastradas decisões.

Ela é um desastre, um fracasso completo. Com sua usual prepotência dos despreparados, ela nos condenou a mais uma década perdida.

Se ela cair, não sentirei saudades.

Enfim, é isso: irei, mas só se não chover.

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