OPINIÃO
15/06/2015 16:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Sakamoto em NY, Feghali em Paris e o fim da história de Fukuyama

O que eles querem é viver e passear em um País que ofereça o que a humanidade produziu de melhor até hoje: liberdade política e liberdade econômica.

Em 1989 o pensador Francis Fukuyama escreveu um ensaio intitulado "O Fim da História". Trata-se de um trabalho de primeira grandeza. Provocador, instigante e controverso, como convém aos bons trabalhos em humanidades.

Sobre as ruínas do socialismo, Fukuyama afirmava que não havia mais alternativa, o liberalismo (político e econômico) era a forma final de organização da humanidade.

Por liberalismo político entende o autor os princípios da Revolução Francesa e da Americana. Liberdade de pensamento, de reunião, de expressão, de imprensa, de religião. Separação dos poderes, sufrágio universal, etc.

O liberalismo político suporta vários desenhos diferentes. O presidencialismo americano, o parlamentarismo alemão, a monarquia parlamentarista inglesa e o presidencialismo de mesada do Brasil, são todos regimes políticos "liberais".

Por liberalismo econômico entenda-se os sistemas nos quais há espaço para a livre iniciativa, a propriedade privada dos meios de produção e da busca pelo lucro.

O liberalismo econômico suporta também vários desenhos alternativos. O capitalismo mais laissez-faire dos países anglo-saxões ou o maior intervencionismo estatal dos países nórdicos. Da social-democracia mais intervencionista, ao Estado-mais-do-que-mínimo, o que temos são diferentes gradações do liberalismo econômico.

Durante o século XX duas alternativas ao liberalismo foram apresentadas.

A primeira é o fascismo. Sob o regime de Hitler, Mussolini, Vargas, Franco e companhia limitada, apesar da maior intervenção do Estado na economia, o liberalismo econômico (entendido como a possibilidade de livre iniciativa e posse privada de empresas) é mantido, enquanto o liberalismo político é abandonado. Não há liberdades individuais, não há liberdade de imprensa, não há separação dos poderes. O ditador é o Estado.

Ainda que o fascismo tenha ocorrido em vários países nas mais diferentes décadas, ele deixa de ser uma alternativa relevante ao liberalismo a partir do final da segunda Guerra Mundial. Coisa que resistiu em países da série B do campeonato mundial de desenvolvimento humano.

Alguém consegue imaginar um novo Hitler na Alemanha? Um novo Mussolini na Itália?

Seria tão surreal quanto imaginar a volta do império de Genhgis Khan.

A segunda alternativa ao liberalismo foi o marxismo-leninismo. Esse teve vida mais longa, sendo ainda um adversário de peso até o final dos anos 1980. No leninismo não há liberalismo político, nem há liberalismo econômico.

Mas o marxismo-leninismo não é mais uma alternativa há muito tempo. Países que precisam de muros - físicos como na Alemanha Oriental ou institucionais como em Cuba dos dias correntes - para impedir que seus cidadãos fujam, são países que fracassaram.

Enquanto nos anos 1940, 1950, 1960 e 1970, por exemplo, o leninismo e suas variantes encantavam multidões de intelectuais, estudantes, operários e camponeses em vários países do mundo, hoje os partidos comunistas são apenas zoológicos do século XX. Irrelevantes e tragicômicos.

O leninismo perdeu poder de persuasão pois ficou evidente o fracasso do modelo soviético. Não é preciso abandonar o capitalismo para acabar com a pobreza e reduzir a desigualdade de renda - os tigres asiáticos estão aí para quem quiser ver - como também não é preciso apelar para ditadores como Stalin, Mao, Fidel e Pol Pot para resolver os problemas políticos da sociedade moderna. Antes pelo contrário, esses tiranos apenas criaram novos(e gravíssimos) problemas.

O mais recente movimento que quis provar que a história não chegara ao fim foi o Bolivarianismo de Chavéz. O que se vê hoje é que aquele é um sistema defunto, capaz de atrair a simpatia apenas de alguns militantes e cientistas sociais enlouquecidos. A Venezuela não corre o menor risco de dar certo sob o "socialismo do século XXI".

Marx alertava para a persistência de alguns elementos da superestrutura quando de mudanças na infraestrutura. Ideias feudais reacionárias ainda atrapalhavam o desenvolvimento do capitalismo nos séculos XVIII e XIX, como vemos nos escritos de Adam Smith (1776) e David Ricardo (1817) por exemplo. Da mesma forma, ideias socialistas retrógradas e sem sentido ainda persistem na mente de uns e outros, mesmo após quase um quarto de século desde o fracasso final e definitivo daquelas experiências.

Quando vemos Sakamoto tomando café em Nova Iorque e Jandira Feghali indo pra Paris de primeira classe, estamos apenas assistindo o fim da história em fotos.

O que eles querem é viver e passear em um País que ofereça o que a humanidade produziu de melhor até hoje: liberdade política e liberdade econômica.

Jandira pode ser uma deputada comunista e dona de restaurante graças ao liberalismo que ainda prevalece no Brasil.

Ela prova em atos - muito mais relevantes que palavras ditas e escritas - que é uma grande defensora do liberalismo. Uma discípula empírica de Friedman e Fukuyama.

O resto é conversa fiada para agradar a nicho de mercado que garante o pão de cada dia de uns e outros.

E fim de papo e de História.