OPINIÃO
29/01/2015 18:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Por que tudo é tão caro no Brasil?

Uma primeira coisa que é cara por aqui é o próprio dinheiro. A usura cobrada pelos bancos no cartão de crédito e no cheque especial são dignos de uma esfera VIP no inferno de Dante. No cheque especial a taxa é de 200,6% ao ano. Um bagatela, acredite. Neste mês atingimos a maior taxa de juros do cartão desde 2003. Pagamos surreais 258,26% ao ano.

Rodrigo Amorim/Creative Commons

Começo o texto com um axioma: tudo é pornograficamente caro no Brasil. Alguém discorda?

Uma primeira coisa que é cara por aqui é o próprio dinheiro. O Brasil tem uma das maiores taxas de juros do mundo e o juro é o preço dessa mercadoria sui generis.

A usura cobrada pelos bancos no cartão de crédito e no cheque especial são dignos de uma esfera VIP no inferno de Dante. No cheque especial a taxa é de 200,6% ao ano. Um bagatela, acredite. Neste mês atingimos a maior taxa de juros do cartão desde 2003. Pagamos surreais 258,26% ao ano. Isso significa que se você deve hoje R$ 100 no cartão, em 2016 deverá R$ 358,26 e em 2017, R$ 1.283,50. Nos Estados Unidos em 2014 a taxa média do cartão de crédito foi de 15,02%. Assim, o americano que deve US$ 100 no cartão de crédito hoje, terá uma dívida de US$ 132,29 em dois anos.

Já a poupança rendeu 7,08% durante 2014. Pensando que a inflação registrada pelo IPCA foi de 6,41%, o rendimento líquido obtido foi igual a um saco de amendoim.

Os banqueiros no Brasil são fundamentalmente usurários educados na Suíça. E o governo é parceiro dessa agiotagem (ver definição 2 do dicionário Houssais). Há uma série de fatores que explicam esse assalto - baixa taxa de poupança do país, insegurança jurídica, carga tributária - mas uma que se destaca é ausência de concorrência. Esse é um fator fundamental para explicar a diferença entre a SELIC (12,25% a.a.) e a taxa cobrada pelos bancos aos tomadores (258% a.a.). Fosse eu dono de banco nesse cenário, cobraria era 500% logo.

No Brasil só existe Itaú, Bradesco e BB. O resto é resto. Assim fica fácil escalpelar a nós, os trouxas. Não gostou do serviço do Itaú? Vá para o Bradesco e será tudo igual. E vice-versa.

E qual o motivo de os bancos estrangeiros não abrirem agências no Brasil para tomar seu quinhão nesse butim? Perguntem a Dilma e depois me contem.

O preço das outras mercadorias também é surreal por aqui.

Há um site fantástico que faz graça com nossa desgraça. Como diz aquele frevo antigo: é de fazer chorar. A postagem mais recente compara as lojas IKEA e Tok Stok. Ambas são especializadas em vender móveis rodriguianos: bonitinhos, mas ordinários. Mas elas fazem isso a preços muito distintos. A IKEA, aliás, há muito prometia uma loja no Brasil. Desistiu. Diz-se que por conta dos altos impostos e da burocracia.

E o preço das roupas, dos eletrônicos? Somos todos contrabandistas quando viajamos para o exterior. A Receita Federal da Coreia do Norte, digo, do Brasil, só permite ao viajante trazer US$ 500 em compras por viagens de ar e US$200 por viagem de terra. Acontece que a diferença de preço é tão abissal entre o Brasil e os Estados Unidos (e o bom e velho Paraguai), que tem valido a pena viajar só pra fazer enxoval de criança, decorar a casa, trocar o guarda-roupa, comprar eletrônicos, fazer supermercado, completar o álbum de figurinhas do campeonato brasileiro.

Mas na terra do Pau-Brasil é proibido pagar um preço decente pelas mercadorias. Aí nos tornamos contrabandistas amadores. Há sempre alguém mais escolado para nos aconselhar: "use os sapatos para que eles fiquem com a sola suja", "coloque fotos e alguns arquivos nesse iPad", "deixe as coisas fora da embalagem para que elas percam o cheiro de novo" (Sei de casos de fiscais que cheiraram bolsas de uma mulher para atestar via nariz que elas eram novas. São os sommelier de couro).

E de tanto ver triunfar as nulidades, como diria Ruy, não há honesto que resista a burlar essa lei idiota e escrota. Por isso chegamos no aeroporto ou cruzamos a ponte como que traficantes de cocaína: suando frio, com medo de sermos levados para a "salinha".

O sacoleiro é o novo Tiradentes.

E por que essas mercadorias todas são tão caras no Brasil? Novamente, há uma série de fatores que explicam esse fenômeno, mas a falta de concorrência merece destaque mais uma vez.

O Brasil tem uma tradição mercantilista muito forte. Tudo foi e continua sendo feito para "proteger a indústria doméstica", o que na maioria das vezes significa apenas proteger empresas vagabundas de propriedade de um capitalista amigo do governo.

O fato de nossa economia ser tão fechada faz com que não só nossos preços sejam altos, mas que a qualidade seja baixa e a variedade inexistente.

Alguém pode dizer que isso é mimimi de classe média encantada com Miami. Pode até ser, mas o excesso de protecionismo e a ausência de concorrência em todos os casos citados afetam principalmente os mais pobres. Ricos não colocam dinheiro na poupança. Ricos não gastam quase toda sua renda em consumo. Ricos são os donos das empresas protegidas da concorrência. Ricos são os empresários que pegam empréstimos subsidiados no BNDES. Ricos são os que lucram com esse cenário.

Os ricos amedrontam os pobres afirmando que o livre comércio causaria desemprego e pobreza. Mas como já alertava Benjamin Franklin, nenhum país foi arruinado por conta do comércio.

O Brasil conseguiu parir um capitalismo sem concorrência. Isso é a besta-fera do último livro encarnada. Tão ruim quanto o nosso socialismo sem igualdade.

Os cretinos dizem que os impostos são altos para que os pobres sejam atendidos pelo Estado, mas a maior parte dos impostos incide sobre o consumo. A tributação no Brasil é indubitavelmente regressiva, consome uma fração maior da renda dos pobres do que dos ricos.

Repetindo: o Brasil consegue a proeza de juntar o que há de pior possível no capitalismo (a desigualdade de renda) com o pior do socialismo (ausência de concorrência, burocracia e ineficiência). E nosso Chicago boy vai lá e me anuncia ainda mais aumentos nas tarifas de importação.

Saudades de Milton Friedman. Não se fazem mais Chicago boys como antigamente.

"Oh, the humanity!"

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