OPINIÃO
15/12/2014 13:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Ou se é coxinha, ou se é petralha

Não quero morar em Cuba, não quero fugir pra Miami. Acho Lula e Fernando Henrique dois chatos. Dilma tem cara de quem não te dá bom dia no elevador. Aécio tem cara de quem vai de escada pra não encontrar ninguém. O PT é um partido fuleiro e autoritário. O PSDB é clube de leitura de senhoras do Jardim Europa e também é autoritário. Nenhum desses dois paga meu salário, leva meu cachorro pra passear ou lava meus pratos depois da janta.

Paul Brighton via Getty Images

No texto passado eu falei um pouco sobre a estratégia ótima dos Deputados para garantir seu emprego. Relembrando: é preciso apostar em um nicho. Convém ser radical e agressivo com o adversário. Chama-se assim a atenção da imprensa e da população. Falem mal, mas falem de mim. Esse é o mote. É isso que os políticos tatuam junto com "carpe diem" e "caixinha, obrigado". Jair Bolsonaro e Jean Wyllys, por exemplo, devem aparecer mais na televisão e na imprensa escrita do que muitos dos 479 atuais ministros de Dilma.

A mesma estratégia vale para os analistas políticos. Os mais famosos blogueiros e colunistas do Brasil são figuras especializadas em textos inflamados. Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Rodrigo Constantino são os porta-vozes do anti-petismo. Grupo heterogêneo na quantidade de sinapses, mas todos tem uma retórica bastante agressiva. Do lado dos anti-tucanos temos Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, o Brizolinha (que, salvo engano, foi um dos 1.348 ministros da Era petista), Jânio de Freitas e Ricardo Melo. Novamente, a estatura intelectual (na minha modesta e irrelevante opinião) é diversa neste grupo, mas a temperatura retórica os aproxima.

Para uns a conspiração gramscista está em seus estágios finais. Nada dos valores liberais- democráticos-judaico-cristão-capitalistas está à salvo. É preciso denunciar com alarde todos os movimentos sorrateiros da esquerda satanista. Para outros, os udenistas do partido da imprensa golpista demo-tucana privatizadora odiadora de pobres estão em um estado de espírito tal qual o de 31 de março de 1964. Para uns o Brasil entrou para a alta idade média em 2003, para outros, foi aí que leite e mel começaram a jorrar da terra. Uns vêem sovietes no pilotis do prédio, outros vêem agentes da CIA na fila do supermercado.

Pode ser que eles estejam certos no campo teórico, mas certamente eles estão certos no campo prático. É isso que os tornou famosos, amados por tantos, odiados por muitos, donos de blogs e colunas famosas, de textos vorazmente compartilhados nas redes sociais. São todos eles homens bem-sucedidos em seus trabalhos e deveriam ser o modelo para todo aspirante de escrevinhador de miudezas político-econômicas-randômicas como esse que ora vos fala.

Mas eu não tenho interesse em ter seguidores. Eu sou constantemente um desertor de minhas próprias ideias. Pra mim seria muito aborrecido ser eternamente coerente. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e mudo ainda mais eu mesmo. E mais, estou bastante satisfeito coma repercussão dos meus textos. O texto sobre Bolsonaro, por exemplo, teve mais de 250 'likes' em dois dias. Isso pra mim é uma multidão. Minha agenda telefônica deve ter uns 30 números, 250 pra mim é um Maracanã lotado! Estou muito orgulhoso de ter sido lembrado para contribuir com o Brasil Post. E isso me basta. Pago meu aluguel com meu modesto salário de professor universitário (o qual é pago, como diria um professor meu, por "Seu Severino, morador do Córrego da Macaxeira"). Não ambiciono jantares com ricos e famosos, aparecer nas páginas amarelas da Veja, ser entrevistado do Roda Viva. Há uma multidão de gente importante que se leva muito a sério, cheia de opiniões sobre tudo e sobre todos. Eu, por outro lado, sou da turma do camarão ensopadinho com chuchu.

Acredito que o debate político, especialmente por conta do comportamento das pessoas nos comentários de notícias na internet e no Facebook está deteriorado. Ou se é petralha ou se é coxinha. Ou se é ARENA ou VAR-PALMARES. Ou se é Hitler ou Pol Pot. Eu acho isso muito enfadonho. E não esperem de mim radicalismos. Estou velho demais pra acreditar que sei exatamente o que é melhor para o mundo.

Não quero morar em Cuba, não quero fugir pra Miami. Acho Lula e Fernando Henrique dois chatos. Dilma tem cara de quem não te dá bom dia no elevador. Aécio tem cara de quem vai de escada pra não encontrar ninguém. O PT é um partido fuleiro e autoritário. O PSDB é clube de leitura de senhoras do Jardim Europa e também é autoritário. Nenhum desses dois paga meu salário, leva meu cachorro pra passear ou lava meus pratos depois da janta. Por isso quero que eles se explodam. Até o fato de ter que votar em um ou outro numa eleição não me obriga a militar por um ou outro.

Mas fique claro, achar Bolsonaro um sem-futuro não me faz um membro da FARC. Ter preguiça de Jean Wyllys não faz de mim um fanático do Tea Party. Não sou fã de Che Guevara, nem de Ronald Regan.

Quero ter a liberdade de falar mal dos dois sempre que eu quiser. E se você espera que eu cerre fileiras com petralhas ou coxinhas, sugiro que ignore meus textos. Eu nem sou famoso, nem importante, nem nada. Não gaste sua raiva nem sua internet comigo.

Vai ver que meu nicho é esse, aquele das pessoas que não aguentam mais os direitistas nem os esquerdistas de Facebook.

No Fla-Flu da política atual eu quero é mais ser o Madureira Esporte Clube.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

RELEMBRE AS ELEIÇÕES:

Galeria de Fotos Memes do #DebateNaRecord Veja Fotos