OPINIÃO
16/03/2015 13:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O que vi e o que penso do protesto de 15 de março em Brasília

Criticar o movimento por conta desses perturbados que pedem intervenção militar é sair pela tangente. Coisa de blogueiro chapa-branca.

CLÁUDIO REIS/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

Eu fui aos protestos deste domingo, 15 de março de 2015, aqui em Brasília.

Saí de casa por volta das 9h30, horário que se iniciaria a concentração no Museu Nacional. Pelo caminho nada parecia indicar o tamanho da manifestação. O Eixão, cheio de gente andando de bicicleta e skate, como sempre acontece aos domingos, os carros parados nos Eixinhos. Cenas típicas do fim de semana na capital.

Achei que o protesto não vingaria. Mas à medida que me aproximei da Rodoviária do Plano Piloto já dava pra ver algumas pessoas com camisa do Brasil, alguns carros buzinando (coisa anormal por aqui).

Do viaduto da rodoviária, já era possível ver uma multidão aglomerada na área entre a Biblioteca e o Museu Nacional.

Já no Eixo Monumental, pouco depois da rodoviária, havia uma barreira policial que ia de uma ponta a outra. Revistavam todos, olhavam as bolsas e as mochilas.

Nunca tinha visto isso em nenhuma manifestação que participei. E essa não foi a única barreira, pouco depois da altura da Catedral, outra fila de policiais, revistando, tomando os paus das bandeiras.

Na altura do Congresso havia a última, impedindo que a manifestação chegasse à Praça dos Três Poderes. O Congresso, o Supremo e Palácio do Planalto estavam protegidos do povo.

Há muitos anos eu não ia a qualquer protesto. As últimas vezes que fui eu era militante de partido de esquerda. Estava acostumado com aquela estrutura: o bandeirão da UJS ali, o bandeirão do PSTU acolá, a turma do PT ali adiante. Nesses protestos organizados cada um sabe para onde ir, qual é a pauta, quem são as lideranças, quais são os pontos que unem esses diversos partidos, quais são as palavras de ordem.

No protesto do dia 15 não havia nada disso. Havia muitas famílias, crianças, idosos, cachorros. Vendia-se picolé e pipoca pelo caminho. A maioria das pessoas vestida com roupas do Brasil, alguns com cartazes feitos por conta própria, poucos com cara de membros de uma organização.

Das faixas que chamaram minha atenção uma pedia intervenção militar. Mas pelo que vi e ouvi, esses é um grupo bastante reduzido. Criticar o movimento por conta desses perturbados é sair pela tangente. Coisa de blogueiro chapa-branca.

Havia também uma outra faixa curiosa, da maçonaria, dizendo que lugar de bandido é na cadeia. Será que alguém vai dizer que o movimento é uma conspiração dos maçons com a Opus Dei? Fica a dica para os bajuladores do governo.

A maioria estava ali contra o PT, contra Dilma e contra Lula.

Havia muita gente. Cada pista do Eixo Monumental tem seis faixas de carro. O gramado entre elas é enorme. Acredito que as imagens que vemos na televisão e em fotografias nem sempre dão a dimensão da imensidão da Esplanada dos Ministérios.

Os gritos de ordem pareciam espontâneos e pouco elaborados: "Fora Dilma", "A nossa bandeira jamais será vermelha" e o inevitável "Eu sou brasileiro com muito orgulho e muito amor".

O protesto foi um sucesso pela quantidade de gente que se reuniu, mas acho que foi pouco efetivo. O clima não era de raiva, de ação, mas sim de picnic (uma tradição dos domingos de sol em Brasília).

Enquanto não houver uma organização de massas que represente a centro-direita do espectro político brasileiro, eu não creio que o governo se assustará com esse movimento. Acho que meu passado leninista fala mais alto nessas horas (sim, já fui marxista-leninista, assim como já tive catapora).

Sem organização, sem liderança e sem objetivos claros, não há revolução (em qualquer sentido que se queira). Seria preciso criar antípodas da UNE (dominada pela juventude do PCdoB praticamente desde de sua reabertura), da CUT (braço sindical do PT), do MST, MTST e todas as outras franjas do PT.

Não há ainda um discurso e uma entidade que catalise essa dispersão de sentimentos que vi hoje. Nem mesmo os partidos de oposição - sempre frouxos e covardes - tiveram a iniciativa de tentar se apropriar de uma parte desses movimentos. Por essa falta de coesão é que se permite que se tomem os incoerentes - como os que querem ditadura - como o todo.

Resumindo, o movimento de hoje foi uma demonstração importante de insatisfação, mas foi apenas um passo. Se não surgir algo que direcione e lidere essas pessoas, elas retornarão ao Facebook. E tudo seguirá como dantes.

P.S.1 - A entrevista dos Ministros José Eduardo Cardoso e Miguel Rossetto foi a maior demonstração possível de que Dilma não fez a autocrítica e não está com medo das ruas.

P.S.2 - As fotos toscas que acompanham o texto são de minha autoria.

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