OPINIÃO
11/03/2015 18:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

O que levou parte do Brasil a bater panela e a gritar durante o pronunciamento de Dilma?

MARCELO D. SANTS/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

O que levou parte do Brasil a bater panela e a gritar durante o pronunciamento de Dilma?

Há duas teses circulando por aí. A primeira é que os "esclarecidos" estão cansados do governo que mente e rouba. A segunda diz que isso é coisa de rico golpista, com ódio porque o PT - em sua grande misericórdia - tirou milhões de pessoas da pobreza. E rico não gosta de pobre. Ponto.

Não analisarei a primeira tese. Minha atenção se volta para a segunda, que acho simplista e equivocada.

Leonardo Sakamoto, por exemplo, disse: "Em São Paulo, o barulho foi grande em bairros ricos como Higienópolis, Jardins, Itaim Bibi, Perdizes, Vila Madalena, Morumbi. Por outro lado, quase nada se ouviu em bairros mais pobres, como Capão Redondo, Itaim Paulista, Cidade Tiradentes e Grajaú".

Laura Capriglione disse: "O linchamento moral de Dilma Rousseff faz lembrar que quem arreganha os dentes contra ela é a mesma parcela da elite hidrófoba que atacou a ascensão social dos pobres; que se opôs à regulamentação da profissão de empregada doméstica; que "denunciou" os aeroportos apinhados de gente que antes nem podia sonhar com uma viagem de avião; que, tendo acesso aos consultórios mais caros do país, vociferou contra o "Mais Médicos"; que se opôs ao ingresso dos negros nas universidades --pela primeira vez em 500 anos."

Juca Kfouri foi além, disse com todas as letras: "O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção. Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade."

Davis Sena Filho vai pela mesma linha, dizendo: "Agora, o Brasil está a se deparar com os protestos de eleitores conservadores e pessoas não afeitas à democracia, e, portanto, contra a inclusão social e a distribuição de riqueza e renda."

É certo que parte dos "ricos" realmente odeia pobre, odeia bolsa-família, odeia os erros de concordância de Lula, odeia sindicalista, comunista, etc. Porém, acho difícil essa parte responder pelo todo.

Em primeiro lugar, os ricos - e quando digo rico, falo de rico mesmo - ganharam muito dinheiro no governo Lula e Dilma. Os ricos adoram proteção contra a concorrência estrangeira, os ricos adoram a caridade reversa praticada pelo BNDES (atenção você, trouxa, que como eu paga 400% a.a. no cartão de crédito, as grandes empresas favorecidas pelo BNDES pagam pouco mais de 5% a.a.).

Em 2010, por exemplo, o BNDES era dono de quase 18% da JBS (é friboi? Sim!), quase 14% da Mafrig (outro frigorífero, cujo dono Marcos Molina não deve ter nada contra o PT), mais de 12% da América Latina Logísticas (cujo um dos donos é Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil) e assim por diante. (O BNDES também tem participação e faz volumosos empréstimos para a Suzano, aquela dos eucaliptos transgênicos...).

A "caridade" do bolsa-família é "dinheiro de pinga" comparada com a "caridade" do BNDES e dos Fundos de Pensão do governo. Acabem com o bolsa-família e teremos uma revolução, acabe com a bolsa-empresário e teremos o Armagedom nuclear.

Achar que ricos não ganham dinheiro quando a Selic cai - como vejo alguns argumentando por aí - é desconhecer totalmente o mercado de títulos públicos. Pode-se ganhar ou perder dinheiro com os juros subindo ou caindo.

Agora se estamos falando de classe média como sinônimo de rico, precisamos saber que é classe média no Brasil quem ganhou pouco mais de dois reais no ano passado. Dos bairros citados por Sakamoto, a renda média da Vila Mariana é de 5.400,00 reais, e a do Morumbi é de 6.900,00. Certamente Sakamoto, por justo merecimento de suas competências, ganha mais do que isso. Kfouri ganha mais que isso. Então quando tentamos fazer essa luta de classes: "ricos" contra "pobres" há que se definir os termos com clareza.

Outra coisa que joga contra a tese é o fato de a popularidade de Dilma ter caído abruptamente. No último Datafolha 44% dos entrevistados achavam o governo ruim ou péssimo. 33% acham regular e apenas 23% acham ótimo/bom. Ou seja, 77% dos brasileiros não estão entusiasmados com o governo. Quem dera que 77% dos brasileiros fossem "ricos".

Negar que há algo além e muito mais complexo do que uma luta de "ricos" contra "pobres" pode ser um erro de avaliação crucial para o governo e para seus 22% de entusiastas. Pensar que é só a turma do brioche que está com raiva, pode custar muitas cabeças por aí.

Como se dizia nos meus tempos de comunista: "faça a auto-crítica, camarada!"