OPINIÃO
03/03/2015 19:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Não haverá impeachment (sobre Collor e Dilma)

Pedir o impeachment de um presidente é coisa da democracia. Nada de golpe, de terceiro turno, de imprensa golpista. Coisa trivial como pedir um expresso depois do almoço. Quem tem boca fala o que quer e pede o que lhe apetece. Pediram o de FHC durante 8 anos. Pediram o de Bill Clinton quando do descobrimento de suas aventuras sexuais. Pediram de Lula e agora pedem o de Dilma. Mas a possibilidade de Dilma ser "impichada" é zero.

coutinhobr/Flickr
20 de junho de 2013.

Pedir o impeachment de um presidente é coisa da democracia. Nada de golpe, de terceiro turno, de imprensa golpista. Coisa trivial como pedir um expresso depois do almoço. Quem tem boca fala o que quer e pede o que lhe apetece. Pediram o de FHC durante 8 anos. Pediram o de Bill Clinton quando do descobrimento de suas aventuras sexuais. Pediram de Lula e agora pedem o de Dilma.

Mas a possibilidade de Dilma ser "impichada" é zero. E é fácil entender os motivos, basta comparar seu caso com o de Fernando Collor, nosso único presidente afastado do cargo dentro da lei e da ordem.

Collor era do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Um partido que nunca existiu, uma fantasia, uma legenda fajuta. Dilma é do PT, partido com mais de 30 anos de história, com grande apoio entre o eleitorado, as elites econômicas, culturais, jornalísticas, entre sindicalistas, empresários, estudantes, etc. O PT é o guarda-chuva da centro-esquerda brasileira e nenhum partido o ameaça nesse posto. Não que isso seja eterno, essa função foi exercida pelo PDT em parte dos anos 1980. Amanhã pode ser tarefa de outro partido, mas no horizonte de curto prazo é impossível imaginar um desaparecimento ou encolhimento ameaçador do PT.

Por ser de um partido nanico, sem militância, sem o apoio irrestrito nas ruas e no Congresso, Collor era dependente da boa vontade alheia, mas sua arrogância o cegou. E como ao que consta era escroto no trato com o Congresso, assim que cochilou tomou um belo troco. O PT de Dilma e seus satélites sem luz própria têm uma significativa representatividade no Congresso Nacional. O PT sozinho elegeu 70 deputados das 512 cadeiras da Câmara. Isso significou uma queda de 16 cadeiras em relação a 2010,mas ainda assim é uma quantidade significativa. O PSDB, antípoda do PT, elegeu "apenas" 54. No Senado o PT conta hoje com 14 das 81 cadeiras. O PSDB, novamente, está atrás, com 10 senadores.

E se formos falar de impeachment que destitua Dilma e Temer, aí temos que colocar o PMDB na conta, o que torna os números ainda mais impressionantes. PT e PMDB têm 32 cadeiras no Senado, e o PMDB sozinho tem 67 cadeiras na Câmara. Além do mais, são do PMDB os presidentes do Senado e da Câmara, o que lhe dá um grande poder na distribuição de cargos, favores, pautas a serem discutidas, etc.

E se sair Dilma (PT), entra Temer (PMDB), se sair Temer, entra Eduardo Cunha (PMDB)... E a ciranda da desgraça continua ao infinito.

A correlação de forças atual não dá ao PSDB e seus satélites capacidade de se sobrepor à aliança governista. Por isso mesmo Alckmin, que é tudo menos trouxa - se o fosse não seria governador do maior estado do Brasil desde sabe Deus quando - já disse que não acredita na possibilidade de impeachment.

Retomando. Enquanto Collor tinha como base o pequeno estado de Alagoas, Dilma é velha conhecida do povo e das oligarquias de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Aliás, saiu-se vencedora e ajudou a eleger o governador de Minas, apesar da boa aprovação do governo de Aécio Neves e seus seguidores.

Enquanto Collor ganhou apenas porque Lula faria um governo mais catastrófico que o dele, Dilma já era conhecida, foi reeleita e ganhou assim um voto de aprovação da população. Pode ter sido uma aventura em 2010, mas não o era mais em 2014.

Collor foi responsável pelo maior calote da história do Brasil. Deu um calote não nos investidores estrangeiros, mas sim nos trouxas que o elegeram. Collor sequestrou o dinheiro que as pessoas tinham na conta corrente, na poupança, no "overnight", ou em qualquer ativo financeiro. Foi talvez a maior aberração jurídica, a maior quebra de contrato, a medida econômica mais extravagante e absurda tomada por um governo até hoje. Quem não conhece alguém que viveu dramas pessoais e familiares graves por conta do Plano Collor?

E o Plano Collor provocou a maior recessão de toda a nossa história, o PIB em 1990 caiu mais de 4%. Nunca repetimos tal desgraça. Muita gente perdeu o emprego, muita gente perdeu as empresas, e todo mundo perdeu alguma coisa. O desprezo a Collor passou a unir o Brasil.

Dilma, por mais bobagem que tenha feito, por pior que esteja sua popularidade, por mais maldade que esteja fazendo e fará, está longe das maldades de Collor.

A vida está difícil, mas não passa perto do que se viveu em 1990, 1991. Para se ter uma ideia, o IPCA de março de 1990 foi de mais de 82%. Hoje estamos incomodados com um IPCA anual de 7%. Trata-se de um exemplo alegórico das diferenças entre um e outro.

Não estou aqui para dizer que é errado ou certo pedir o impeachment, só estou apontando as causas pelas quais acho que esse é um evento improvável. Vá protestar, mas saiba o que o aguarda. Pressão popular nem sempre funciona. O regime militar, mesmo moribundo, deu uma banana para as "diretas já", que dificilmente serão superadas pelas manifestações que talvez ocorram no dia 15.

Talvez muitos que irão protestar no dia 15 sejam marinheiros de primeira viagem, por isso vale a pena copiar os slogans dos mais escolados nessas coisas de passeata. Que tal um cartaz dizendo "Seja realista, exija o impossível". Exija, mas saiba que é impossível.

PS - Confesso que a proximidade de minha casa e trabalho com a Praça dos Três Poderes torna muito tentadora a possibilidade de ir espiar o tal protesto. Pesquisa sociológica de campo. Quem sabe não rende mais um texto?

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