OPINIÃO
25/02/2015 15:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Flertando com o fascismo

A falta de tradição democrática afetou o desenvolvimento da nossa esquerda e da nossa direita. Não podemos confiar em nenhum deles quando o assunto é liberdade. Nossa política ainda hoje tem um ranço fascista, mesmo quando disfarçada de progressista.

jontintinjordan/Flickr
graffiti in manchester's norther quarter

O Brasil é um país sem grandes tradições democráticas. Colônia (1500-1822), Império (1822-1889), República pra inglês ver (1889-1930), ditadura Vargas (1930-1945), Ditadura Militar (1964-1985). Esse negócio de liberdade não faz parte do nosso DNA. Fomos um dos últimos países a acabar com a escravidão negra (1888), até os anos 1980/1990 os apartamentos de classe média eram feitos com um "quartinho e banheiro de empregada", normalmente ao fundo da cozinha, com o quarto virado para o sol e o banheiro sem janelas ou ventilação.

A falta de tradição democrática afetou o desenvolvimento da nossa esquerda e da nossa direita. Não podemos confiar em nenhum deles quando o assunto é liberdade. Nossa política ainda hoje tem um ranço fascista, mesmo quando disfarçada de progressista.

Vejamos o caso do PCdoB da deputada Jandira Feghali. Não vou nem voltar muito no tempo. Em dezembro de 2011 o partido dela emitiu uma nota de pesar pela morte do camarada Kim Jong Il por conta de sua "luta anti-imperialista e pela construção de um Estado e de uma economia prósperos e socialistas - baseados nos interesses e necessidades das massas populares". A Coréia do Norte é um exemplo de liberdade para nossos comunistas do governo. Um reino hereditário, será esse o sonho de Jandira? Mais ridículo do que isso, impossível.

O PSOL (partido que foi a única entidade do mundo a juntar socialismo e liberdade) do descolado ex-BBB, atual deputado Jean Wylllis, por sua vez emitiu nota de repúdio à passagem da blogueira Yoni Sanchez pelo Brasil e, pra manter o clichê, "declara apoio à revolução cubana". Aquela outra dinastia, na qual o irmão mais velho governa por quase 50 anos, e quando se aposenta, passa a faixa pro irmão mais novo. Ainda bem que em Cuba temos uma imprensa livre e um partido forte de oposição denunciando tudo isso... só que não.

O PT do nosso indescritível Rui Falcão, diante do caos e das mortes na Venezuela, diante da prisão sem processo e sem direito à defesa de um líder opositor, solta nota dizendo "nos solidarizamos aos familiares das vítimas fatais fruto dos graves distúrbios provocados, certos de que o Governo Venezuelano está empenhado na manutenção da paz e das plenas garantias a todos e todas cidadãos e cidadãs venezuelanas". Em dois meses de protestos na Venezuela, 33 pessoas já haviam sido mortas. Isso é mais que 7% das 434 pessoas mortas durante a ditadura militar brasileira, que durou mais de 20 anos. Não que possamos julgar regimes políticos pela quantidade absoluta de mortos, mas vale a observação.

Nossa direita, ninguém se engana, também não é muito chegada nessa coisa de liberdades. Alguém se lembra da ARENA, do PDS, dos generais de óculos escuros?

A direita troglodita-orangotango vem ganhando espaço e perdendo a vergonha de falar suas bobagens. Bolsonaro foi o deputado mais votado no estado do Rio de Janeiro. Bolsonaro, aquele incapaz de emitir uma única frase que não seja uma completa sandice! Na esteira disso vemos gente pedindo a volta da ditadura militar. E ainda que sejam poucos, é muita gente enebriada pelo ódio aos "comunistas".

Há ainda os proto-fascistas dos costumes, fiscais dos orifícios alheios - como aquele bigodudo patético candidato a presidente - que querem definir o que é família - como Feliciano e o nosso Presidente da Câmara que quer proibir a adoção de crianças por casais homossexuais. Essa é a nossa direita-medieval, doida pra mandar pra fogueira os "pederastas", "as aborteiras", "os maconheiros".

Há a direita com nojo de pobre, que acha que Bolsa-família é bolsa-vagabundo. Que quem recebe bolsa família não quer trabalhar, que vai ter mais filhos ainda pra ganhar mais bolsa-família... papinho vagabundo e rabugento que me lembra a luta de Malthus contra as leis dos pobres... coisa do século XIX, XVIII... Vide os (insira um adjetivo de sua preferência) do "Partido Militar do Brasil"

O flerte com o fascismo na sociedade brasileira é inegável. Duas notícias nesses últimos dias merecem destaque. Primeiro um grupo de grã-finos na cafeteria do Albert Einstein xingando o ex-ministro Mantega de "filho da puta" e o mandando ir para o SUS. Quando ele acompanhava sua esposa em um tratamento de câncer. Dizia-se que o mineiro (e o brasileiro por extensão) só era solidário no câncer. Não somos mais.

Isso lembra o episódio no qual um playboyzinho assessor do PT resolveu xingar Joaquim Barbosa na saída de um bar em Brasília.

Ontem também foi dia dos brucutus da CUT acertarem chutes e pontapés em que discordava deles naquela patética passeata "em defesa da Petrobrás". É a fase dos "camisas vermelhas".

Parece que estamos às vésperas da fundação da República dos Comentaristas da Internet. Os generais Olavo de Carvalho e Paulo Henrique Amorim aprontam seus peões exaltados para a batalha. O resultado não tende a ser agradável.

Dia 15 de março haverá passeatas pedindo o impeachment de Dilma. Coisa do jogo, eu mesmo fui convidado a umas 20 passeatas pelo "Fora FHC" na minha época de moleque. Mas vejamos a temperatura e a pressão desse movimento. Pode ser que só junte meia dúzia de gatos-pingados, mas se conseguir juntar gente o suficiente, pode ser a centelha para uma nova escalada na radicalização.

O cenário é algo assustador, principalmente com a economia atravessando um péssimo momento. Desemprego, desesperança e radicalismos são receitas para um coquetel molotov.

Se Vladmir Safatle torce pelo "quanto pior melhor", na esperança de poder cantar a internacional em cima dos escombros da USP, sonhando em virar personagem dos "10 dias que abalaram o mundo", eu prefiro a liberdade, a tranquilidade e o progresso. A democracia é coisa frágil no Brasil e eu não bater continência nem pra "Bolsonaros", nem pra "Safatles".

Que os brasileiros moderados, democráticos e realmente progressistas sejam a maioria. E que esses proto-fascistas fiquem longe da nossa vida e das nossas liberdades.