OPINIÃO
28/12/2015 11:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Dilma vira à esquerda (vendo Jango no retrovisor)

A "direita" não iria gostar de Jango nem se ele esganasse com as próprias mãos a goela de Fidel e cantasse o hino americano sob seu cadáver. Vendo seu apoio evaporar, Jango abandona o Plano Trienal e dá uma guinada à esquerda ao final do seu governo.

Montagem/Domínio Público/Estadão Conteúdo

A História nunca se repete, amigo Marques, mas quanto mais estudamos o assunto, mais o déjà vu se torna uma constante.

O Brasil de agora, por exemplo, se parece com o Brasil do início dos anos 1960.

O governo JK (1956-1961) foi, digamos, dialético.

No início de 1961 o Brasil era um país novo, com uma estrutura produtiva qualitativamente superior àquela que existia cinco anos antes.

Mas muitas dessas modificações foram financiadas por endividamento externo e inflação (nos tempos de JK não havia reeleição e nem lei de reponsabilidade fiscal).

Exatamente por isso, os excessos do Plano de Metas e da construção de Brasília condenaram a economia do País à paralisia no início da década de 1960.

O próximo presidente teria que lidar com essa "herança maldita".

Jânio Quadros é eleito com um discurso moralizador da coisa e das práticas públicas. Ele era de um partido nanico, mas contou com o apoio da UDN, o partido dos "coxinhas" da época.

Quadros ameaça um ajuste recessivo da economia, mas sem apoio parlamentar, apela para o golpe da renúncia.

Deve ter pensado: ou me dão carta-branca para governar, ou era a volta do Varguismo, que era agora personificado por João Goulart.

Goulart havia sido vice também de JK, mas era detestado por militares e conservadores desde pelo menos os tempos em que fora ministro do Trabalho de Vargas, entre 1953 e 1954.

Goulart era do PTB, partido dos "mortadelas" da época.

Um xeque-mate político. Um mata-leão nos achacadores. Não tinha como falhar. Mas falhou.

No dia 25 de agosto de 1961, Jânio deixou de ser presidente do País.

Goulart assume, mas com poderes restritos. Impuseram a ele um parlamentarismo de ocasião.

Em janeiro de 1963 realizou-se um plebiscito para se decidir se o Brasil seguiria como parlamentarista ou voltaríamos ao presidencialismo.

O presidencialismo vence e começa - de fato - o breve governo Jango.

Com o País em uma grave crise econômica e política, Jango faz um movimento para a direita, como forma de tentar ganhar a confiança (ou ao menos a tolerância) dos setores mais à direita do espectro político.

Ele temia ser apeado do poder antes do fim do seu mandato. Por estar pisando ovos, a única saída lhe parecia ser a moderação.

O Plano Trienal, elaborado sob a liderança de Celso Furtado, então ministro do Planejamento, buscava um ajuste algo ortodoxo da economia.

Contenção nos reajustes do salário mínimo e salários dos funcionários públicos, fim de subsídio, aumento de tarifas públicas etc.

Era o que precisava ser feito. Mas ao fazer movimentos para agradar à "direita", tudo o que Jango conseguiu foi desagradar à "esquerda".

A "direita" não iria gostar de Jango nem se ele esganasse com as próprias mãos a goela de Fidel e cantasse o hino americano sob seu cadáver.

Vendo seu apoio evaporar, Jango abandona o Plano Trienal e dá uma guinada à esquerda ao final do seu governo.

Foi a desculpa perfeita para que no dia 31 de março à noite, homens vestidos de verde-oliva saíssem das casernas e impusessem uma ocupação de mais de 20 anos no território brasileiro.

Dilma está fazendo algo análogo.

Era preciso fazer o ajuste recessivo da economia. Acabou o dinheiro, acabou a farra das commodities, as estatais não aguentam mais brincar de populismo.

Ela chama um Chicago-boy para fazer o trabalho sujo: cortar gastos, segurar reajustes salariais, aumentar tarifas, reduzir subsídios...

A esperança era colocar a economia nos eixos em pouco tempo, resgatar a credibilidade do governo junto aos mercados, acalmar os nervos da "direita" e cair nos braços do povo.

Mas Dilma esqueceu de combinar com os russos, Majestoso Mané.

Dilma não conseguiu convencer a "direita" e conseguiu fazer a "esquerda" ficar vermelha de vergonha.

A "direita" não confiaria em Dilma nem que ela fosse ungida por Olavo de Carvalho.

A "esquerda" não aceitaria o ajuste recessivo nem se ao final desse arco-íris estivesse uma camisa autografada por Guevara.

Dilma tem menos de 10% de ótimo e bom. E eu não tenho a menor dúvida que desses 10%, 99% nem acham o governo "ótimo" ou "bom", só responderam assim para marcar posição.

É como se perguntassem para mim: "qual o melhor time de futebol de todos os tempos?". Eu responderia: o Sport Club do Recife campeão da Copa do Brasil de 2008.

Em ambos os casos não se trata de racionalidade, mas de torcida.

As passeatas recentes tiveram um mote que vale por uma tese: "Fica Dilma, mas melhore!".

Agora com a saída de Levy e a ida de Barbosa para a Fazenda, é provável que o populismo volte com força e sem pudores (a chamada "nova matriz econômica" nada mais é que o bom e velho populismo latino-americano).

É Dilma dando sinais de que dará uma guinada para a esquerda, mas se sustentando graças ao apoio dos ideologicamente ambidestros, como o onipresente Renan Calheiros.

O problema dessa estratégia é que ela tende a acirrar os ânimos de ambos os lados desse baile funk político.

Para cada discurso no automóvel clube, haverá uma marcha da família.

Para cada micareta de "coxinha", haverá uma procissão de "mortadelas".

Será que aguentaremos isso até 2018?

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