OPINIÃO
04/03/2016 14:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A tempestade perfeita para o impeachment

Hoje, com a PF acordando Lula e o levando coercitivamente para depor, parece que estamos assistindo aos últimos capítulos de uma novela ruim. Há evidências (segundo a PF) de que Lula - assim como Dirceu - se beneficiou da corrupção tanto na física como na jurídica.

REUTERS/Nacho Doce

Sempre fui cético em relação às possibilidades de afastamento de Dilma.

Há um ano eu achava impossível. Há seis meses, improvável. Hoje, pedra (quase) cantada.

Três elementos precisam estar presentes para que haja o impeachment: um jurídico, um político, outro econômico-social.

No caso de Collor, em 1992, o país vivia uma crise econômica extraordinária. O Plano Collor de 1990 sequestrou quase 80% de todo o dinheiro existente no Brasil, entre outras tantas barbaridades. O PIB naquele ano teve a maior queda da história do país, - 4,3%.

Collor inventou um partido para se eleger. Não tinha capilaridade na sociedade civil. Tratava o Congresso como quem lida com cavalos chucros. A PF invadiu o prédio da Folha de São Paulo ainda em 1990... a lista é enorme.

Assim que a farsa do caçador-de-marajás foi desfeita, o chão sumiu sob seus pés.

Teria sido afastado por conta dos jardins da casa da Dinda, por conta do FIAT Elba, por conta de um pacote de mariola... Isso era detalhe irrelevante.

Lula, do ponto de vista legal e político, poderia ter sido afastado em 2006 por conta do mensalão.

Seu governo trocou apoio político por recursos para campanhas (isso é assunto transitado em julgado na última instância da justiça do país). Recursos públicos foram desviados sistematicamente, de modo a corromper a independência dos poderes. Isso é crime de responsabilidade na veia.

Crer que José Dirceu fazia isso à revelia de Lula é crer em contos-de-fadas.

Duda Mendonça assumiu em público que recebeu recursos no exterior como pagamento - não declarado - de seus trabalhos na campanha presidencial.

Lula não caiu e saiu, em 2011, pela porta da frente.

No caso dele, podia haver o elemento jurídico, mas faltava o político, o econômico e o social. A distribuição de favores lhe garantiu uma grande rede de apoio parlamentar e econômico.

O bom desempenho econômico do país durante grande parte do seu mandato também tem grande peso na sua continuidade no cargo.

Quem tem emprego e carnês das Casas Bahia para pagar, não tem tempo para derrubar governos (metaforicamente falando).

Deixa o homem trabalhar! Deixou-se.

No caso de Dilma, o elemento econômico-social está presente.

A presidente conseguiu entregar um PIB de -3,8% em 2015. O pior resultado desde 1990. E não foi um acidente de percurso. Desde o início do seu governo o Brasil tem crescido em média 1% a.a., uma taxa ridícula.

A inflação, que Dilma recebeu na casa dos 6% a.a., rompeu a barreira dos 10% em 2015.

A taxa média de desemprego aberto em 2011 foi de 8,3%, em 2015, 10,7%.

Por isso tudo, a taxa de aprovação do governo ronda os 10%.

Dilma contraiu a peste negra, ninguém quer se aproximar de sua triste figura.

O governo petista já não possui aquela maioria folgada de outrora, aliás, o governo é minoritário dentro do próprio PT.

Temos aí o elemento econômico, social e político.

O elemento jurídico, porém, parecia inexistente.

Não havia nenhuma prova ou denúncia que ligasse a presidente e sua campanha com os desvios de recursos.

A afirmação de João Santana - publicitário responsável pelas campanhas de Dilma - que recebeu recursos não declarados de empreiteiras no exterior, pode não ser o batom no colarinho, mas coloca uma forte suspeição sobre as eleições de 2010 e 2014.

O ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, está preso e condenado a 15 anos por ter intermediado o recebimento de mais de R$ 4 milhões desviados da Petrobras para os cofres do partido. A prisão de Vaccari batia à porta de Dilma, mas não havia um elo direto entre ela e as condutas dele.

Mas aí apareceu Delcídio do Amaral. O ex-líder do governo no Senado acabou preso ao ser flagrado - entre outras coisas - propondo um cala-boca e uma rota de fuga para Cerveró.

A Delcídio falta o DNA petista. Filiou-se e elegeu-se pelo partido apenas em 2002. Não está disposto a se sacrificar pela causa.

Esse foi o golpe de mestre de Moro e da PF. Delcídio pode ser o Pedro Collor de Dilma-Lula.

Assustado e abandonado, contou mais do que devia.

Segundo a devastadora reportagem da Isto é, Delcídio afirmou que falou com o filho de Cerveró a mando de Lula e Dilma.

Disse que Dilma e José Eduardo Cardoso tentaram interferir nas investigações; que ela nomeou um juiz para o STJ que se comprometera a soltar os empreiteiros; que ela tinha total conhecimento - e, portanto, culpa - no caso da compra da refinaria de Pasadena. Etc., etc., etc...

Hoje, com a PF acordando Lula e o levando coercitivamente para depor, parece que estamos assistindo aos últimos capítulos de uma novela ruim.

Há evidências (segundo a PF) de que Lula - assim como Dirceu - se beneficiou da corrupção tanto na física como na jurídica.

O tríplex no Guarujá, o sítio, as palestras milionárias pagas por empreiteiras favorecidas pelo esquema de corrupção...

A PF está destruindo o que restava da mitologia em torno de Lula.

E, com isso, está destruindo também o PT.

Mas mitos não morrem facilmente, por isso o clima de tensão já instaurado no país. Uma faísca é capaz de produzir efeitos imprevisíveis.

Dia 13 desse mês está marcada uma manifestação pelo impeachment.

O PT deverá organizar também sua passeata pela defesa do governo.

E isso tudo pode ser a gota d'água.

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